É hora de dizer adeus

Depois do acidente, minha vida nunca mais foi a mesma. Sei que muitas pessoas passam por isso e sei que deveria ter lhe contado antes o que estava acontecendo comigo, mas sempre tive muito medo da sua reação. Eu não devia ter voltado, eu não devia. Desde que voltei, tenho visto coisas que não deveria ver. Sim, você não acredita nessas coisas - eu sei disso - mas preciso que você entenda que há uma linha tênue entre vida e morte, o lado de lá e o lado de cá, coisas naturais e humanas e coisas sobrenaturais e aterrorizantes.

Enquanto vivos, não conseguimos perceber a maior parte das coisas que nos rodeiam - ao menos, nem todos conseguem - mas após aquele acidente, após eu ter sido ressuscitado milagrosamente, eu passei a perceber tudo o que acontece. E isso é terrível, honey, terrível. Almas inconformadas que pedem ajuda constantemente, e agora, eu posso vê-las por onde quer que eu vá. Quando eu acordo, elas estão lá, quando escovo meus dentes, elas estão lá, quando estou trabalhando, elas continuam lá, quando deito para finalmente descansar minha cabeça cansada, elas ainda estão lá e quando sonho, elas aparecem lá também. E elas estão famintas, honey. Elas querem vingança, justiça. Gritam o tempo inteiro. Tenho enlouquecido com isso. Por esse motivo que digo: eu não deveria ter voltado.

Há coisas que não devem ser mudadas. E a morte é uma delas. No instante em que morri naquele acidente, eu senti uma paz, uma sensação de que nada mais importava porque tudo já havia se feito. E então, de repente, sinto algo me puxando para baixo e, quando dei por mim, lá estava eu, todo ensanguentado em meio às ferragens de um caminhão. Apaguei com os sedativos e quando acordei no outro dia, eu podia ver o outro lado, eu podia me comunicar com o além e não havia mais aquela linha tênue entre fantasia e realidade. Não havia nenhum botão para que eu pudesse apertar e desligar tudo aquilo. Não havia saída. Até agora.

Por todos esses fatores eu tomei a decisão de acabar com o que já havia terminado. E se você está lendo isso, é porque agora já estou morto. Quero que saiba que nada disso é culpa sua, mas eu simplesmente não podia suportar sequer imaginar passar mais tempo vivendo com se estivesse morto. Todas aquelas coisas me assombrando, eu simplesmente não podia mais. Me desculpe, querida, mas o que está morto deve permanecer morto; essas são as regras do universo. E quando alguém as viola, há consequências.
Espero que um dia me perdoe, pois eu ainda te amo. Nunca se esqueça disso. Nos vemos na eternidade. Amor eterno.
B.

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7 comentários

  1. Mia, a cada conto seu que eu leio eu me encanto mais! Você escreve tão bem. Esse texto está incrível, tenho certeza que o primeiro lugar é seu!
    Entre a vida e a morte, muitas vezes a morte é lucro.
    http://www.dinhacavalcante.com/

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  2. Imagina, Dinha. Tantos textos bons lá, até melhores que esse. Mas fico feliz que você tenha gostado, de verdade. Obrigada, querida.

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  3. Nossa Mia, que conto lindo, você tem muito talento meu, muito talento mesmo. É bom voltar para o blogger e o seu blog ser o primeiro a olhar *-*

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  4. Gsotei muuuuuuuuuuuuuito do conto:)
    Do jeito que tu mostrou o lado ruim das coisas, de quebrar as regras impostas pelo universo, embora tenha sido triste, ficou muito bom!
    Parabéns, e boa sorte.
    Beiijos*-*
    http://cartasp-voce.blogspot.com/

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  5. Nossa, vc escrevi mt bem, mesmo sendo uma tragédia! seguindo aki flor, passa lá?
    http://nacaoesmaltada.blogspot.com/

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  6. Nossa! Que texto heim!
    Adorei o desfecho, o jeito como você nos prende na história.
    Adorei, um beijo ;*

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  7. Seus contos encantam! Parabéns guria!

    http://odespertardumsonho.blogspot.com/

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