O velho relógio

- Conte-me o que tanto lhe atormenta, querida. Já estamos há 1 ano fazendo essa sessão e você ainda não fez muitos progressos. Você pode confiar em mim: nada do que disser sairá daqui. Mas você precisa me contar para que sua consciência não pese tanto.

- Nunca contei isso a ninguém.
Eu tinha 16 anos. Acordei por volta da meia-noite com os gritos do meu pai. Ele estava tendo uma discussão feia com seu sócio. Me levantei da cama e fui ver o que estava acontecendo. A coisa começou a ficar séria, e foi quando eu vi as mãos do meu pai lentamente pegarem o pesado relógio antigo que ficava em cima da mesa em seu escritório. Seu sócio estava de costas e foi quando meu pai o acertou na cabeça com aquele relógio. Eu dei um grito e meu pai olhou para mim com um semblante pálido. Ele disse:
- O que você está fazendo aqui? Volte para a cama!
Mas era muito tarde. Eu já tinha visto tudo. Lentamente apontei para o sócio do meu pai, que estava caído ao lado da escrivaninha. Havia muito sangue por toda a parte. Perguntei a meu pai, com a voz trêmula:
- O que vamos fazer agora? Ele... está morto?
Meu pai não disse nada, e por alguns minutos ficou apenas encarando o corpo de seu sócio perder cada vez mais e mais sangue. Já era por volta de 01:30 da madrugada. Eu estava inerte perante aquela situação aterrorizante. Foi quando meu pai disse:
- Pegue o tapete que está na sala de estar agora e traga-o aqui.
Fui até a sala e peguei o tapete. O enrolei e levei até o escritório do meu pai. Ele disse:
- Venha, me ajude aqui.
Estendemos o tapete pelo chão do escritório e colocamos aquele corpo gélido enrolado em tapeçaria persa. Eu estava atônita: meu pai havia matado seu sócio e eu era cúmplice desse crime. Eu não sabia o que fazer, mas estava em um estado quase de transe. Não conseguia dizer nada além de alguns barulhos estranhos e respostas prontas. Levamos aquele corpo enrolado no tapete até o carro e colocamos no porta malas. Meu pai dirigiu por aproximadamente 4 horas até uma fazenda que ele possuía na cidade vizinha. Quando chegamos lá, fomos direto para um pequeno bosque onde costumava brincar quando era menor. Tiramos o corpo do carro e cavamos um buraco ao pé de uma das árvores daquele bosque.
O Sol começava a surgir por entre as folhas das árvores enquanto derrubávamos a terra com nossas pás. Meu pai e eu combinamos nossa história, voltamos para casa em um silêncio mórbido e nunca mais falamos no assunto. Mas às vezes, em noites calmas, ainda posso ouvir o relógio fazer aquele barulho...

- Meu Deus! Você ajudou seu pai em um crime. Você tem sangue em suas mãos. Como pôde fazer isso? Desculpe-me, mas isso será informado às autoridades. Pobre homem aquele.
- Sabe, doutor, eu realmente simpatizo muito com o senhor. É uma pena que aquele antigo relógio voltará a fazer barulho.
- Não! Não faça isso,querida. Eu juro, não vou contar nada a ninguém.
- Tarde demais, doutor, tarde demais. Duas pessoas podem saber de um segredo; se uma delas estiver morta.

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9 comentários

  1. Uau :O Que história legal, sério, você foi criativa ao escrever, mas eu não pensava que e menina teria coragem de matar o cara. Bom, ta lindo aqui.
    http://senhoritaliberdade.blogspot.com/

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  2. Caraca, que surpreendente. Não imaginei isso Mia.
    Você arrasou !
    Você já esta na afiliação lá do blog, te deixo aqui o link da imagem.
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  3. Que conto bacana... Final surpreendente...

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  4. Adorei o seu conto, otimo, parabens, é de um enorme talento escrever contos como este, eu tenho alguns em mente mais nao consigo por no papel.
    Um abraço.

    http://paulosergioembuscadotempoperdido.blogspot.com/

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  5. Que texto ótimo, que fim inesperado.
    Adorei, mesmo! Volto a dizer que você escreve maravilhosamente bem.

    Beijo!
    http://www.garotasdizem.com/

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  6. Adorei o seu conto, você escreve muito bem menina! Achei tudo a ver, a pessoa fazendo terapia, por que era atormentada com aquilo até aquele dia. Duvido tambem que a menina tenha coragem de matar o cara no final. Se matasse talvez ficasse mais problematica emocionalmente, se ameaçase e não matasse talvez melhorasse, por que enfim contou pra alguém. Haha muito bom

    Beijos

    doceeuropa.blogspot.com

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  7. Nossa vc escreve muito bem mesmo...Parabéns!!!
    Adorei o conto, o final então...Perfeito!!

    Já estou seguindo o blog.
    Passa lá no meu tbm
    http://my-literarylife.blogspot.com/

    Bjão!!

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  8. NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSA choquei demais com o texto!
    A história já é chocante, agora o final... o meu sangue gelou! Risquei a carreira de psicóloga da minha lista hahaha
    Muito bom, super bem escrito. Acho que nunca li um post de suspense, pelo menos não aqui o0
    ahushauhs amei mesmo!
    beeijos!

    recantodalara.blogspot.com

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  9. Nossa, que lindo! Gostei mesmo. *-----*

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