Morta viva

Eu não quero mais viver, o que não quer dizer, necessariamente, que eu queira morrer. Eu apenas queria nunca ter nascido, nunca ter entrado nessa vida e nunca ter conhecido o que é viver. Pois agora, morta viva que sou, fico espreitando por oportunidades de ressurreição que nunca surgem. Não sou Lázaro, não sairei da tumba e não terei grande fama por isso. Apenas sou uma garota que despertou de um sono mortal que durou quatro anos e que agora tem de lidar com seu estado de putrefação e suas mudanças degenerativas.

Estou dramatizando? Sim, estou. Mas é isso o que eu faço: dramatizo tudo à minha volta só pra ver se minha morte em vida pode se tornar um pouquinho mais interessante, um pouquinho mais prolongada, um pouquinho mais motivada. Sim, prolongada; estou prolongando minha morte em vida pois não há possibilidades de ressurreição e a ideia de morrer novamente é ainda mais aterrorizante do que a de viver em estado de putrefação.

O problema é que eu sempre acredito em continuações, em renovações, em ciclos. Nunca acreditei na morte como um ponto final, mas sim como reticências. Ela prolonga um ciclo para que outro possa se iniciar. Então eu tento e tento e tento enxergar um amanhã, enxergar um futuro para mim, enxergar algo de bom; mas tudo o que encontro são trevas e escuridão, até mesmo nas coisas que se mostram boas. Tudo em mim é escuridão; meu amor é sombrio, tenebroso, profundo, cheio de meandros e quase sem visualização. Sou como uma tempestade que surge e se esconde porque ao mesmo tempo em que ela sabe que é forte, é fraca o suficiente para recuar ao ver o sofrimento que causa. É isso que eu faço: eu recuo. Recuei sempre e recuarei mais essa vez.

Será que há alguém no mundo forte o suficiente para tomar conta de uma tempestade que pode desabar a qualquer momento do céu? Eu me imaginei no céu e descobri que lá não é meu lugar. Eu não pertenço ao céu, eu não pertenço à Terra, eu não pertenço ao inferno. There's no place for me. Meu lugar é vago, indefinido, de uma passagem eterna, de uma viagem inacabada. É Seol, é abismo, é o purgatório: o lugar ideal para uma morta viva.

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13 comentários

  1. Como sempre, magnífico e obscuro! A típica literatura Mia Sodré: melancólica e misteriosa!

    exclusivoparagarotas.tk

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  2. Nossa, impactante ! As vezes essa melancolia toma conta de mim também, e eu me sinto como uma morta-viva. Mais no meu caso são fases, costumo estar de bem com a vida (mesmo sendo poucas vezes).

    www.spiderwebs.tk

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  3. As vezes eu fico assim, acho que todo mundo passa por isso, são fases, pelo menos pra mim.
    Muito lindo, Mia, perfeito seria melhor dizer...

    comenta?
    jeito-inedito.blogspot.com

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  4. O seu texto é incrivel! Acho que todas nós passamos por fases e nos sentimos uma morta-viva. Gostei muito do blog (<

    retribui?
    http://www.wishyougirl.blogspot.com/2012/01/tendencia-coque.html

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  5. Resumo o que senti ao ler seu texto em uma única palavra. Dor.

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  6. Uma morta viva não tem seu lugar mesmo. Mas acredite em ciclos, por que a vida é cheia deles, sempre passa, e eu sei que isso é clichê, mas passa, o tempo faz você viver de novo, até por que, já que estamos aqui, vivas, vamos aproveitar o que temos da melhor forma, não adianta nada ficar se lamentando pelo que não temos, vamos olhar para o que temos,e se não tivermos nada, vamos ir atrás do que queremos :}

    Beijos

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  7. Achei muito interessante, também tendo a dramatizar as situações a minha volta. Amei seu blog. Já estou seguindo. Abraço

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  8. que intenso seu texto
    Gostei muito.
    Acho que isso acontece com pessoas intensas que tem sentimentos que transbordam, que não cabem em si nem no mundo.

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  9. Intenso e sincero. http://worse-or-better.blogspot.com/

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  10. Mais um texto que me impressiona e me faz pensa, parabéns moça. Boas metáforas!
    Rolou la no http://garotaclara.blogspot.com/ uma superindicação pra esse blog que eu amo!
    bjs bjs

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    1. Maria, Maria, adorei a indicação, mesmo. Muito obrigada, linda. *-*

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  11. Achei interessante o título da sua postagem e resolvi ler. Achei um tanto "doloroso" demais, só que por incrível que pareça, me descreve perfeitamente em alguns momentos.

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    1. Mas às vezes a gente se sente assim, cheia de dor, né Bianca? Fico feliz que tenha se identificado, de certa forma.

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