Por um mundo de rostos

Até meus 12 anos eu não fazia ideia de que comida engordava. Sério. Também não via diferenças reais entre uma pessoa gordinha e uma magrela. Até que me chamaram de gorda repetidas vezes. Eu não era gorda - e hoje eu tenho noção disso, afinal, 47 quilos não é gordura que se preze - mas fiquei paranoica e acabei desenvolvendo uma bulimia. Me recusava a comer e o pouco que comia forçava para vomitar. Ninguém sabia até eu parar no hospital - após uma síncope - e o médico ser bem categórico: "ou você come, ou você morre". Eu estou viva, então acho que vocês já sabem o que escolhi. 

A questão é que por muito tempo - e também por causa de traumas pelos quais eu passei que me fizeram ter disfunções alimentares - eu variava do magra-com-crises-de-bulimia-nervosa para o gordinha-fofinha-rechonchudinha (aliás, ojeriza eterna por todas as "inhas" do reduto). Até que ano passado eu cheguei ao meu limite: estava com 76 quilos bem-distribuídos no meu 1,58 m. Pirei de vez. Mas eu comecei a caminhar frequentemente e a abrir mão de comer bobagens por aí. O resultado? Hoje, 10 meses após o dia em que eu me pesei pela primeira vez em muito tempo, eu estou com 58 quilos. Sim, eu estou feliz com isso. Meu objetivo ainda não foi alcançado - que é chegar aos 53 quilos - mas estou quase lá e me sinto satisfeita comigo mesma por isso. 

Porém eu tenho notado uma coisa: vivemos em um mundo de corpos. Eu não quis emagrecer apenas para ficar bonita e caber em roupas menores - por isso também, é claro, mas não apenas por isso. O fiz por vários motivos, dentre eles um colesterol congênito, que me provocava síncopes, e a vontade de torcer o pescocinho de galinha das meninas que me chamaram de gorda a vontade de me sentir bem comigo mesma, de me sentir leve. 
Estou cansada de ouvir as pessoas reclamando de seus corpos. Quem é gordinha reclama pelas dobrinhas a mais, quem é magrela reclama pelos ossos salientes, quem é "normal" reclama por não ter nada em destaque... Isso é um saco. Cansei do estereótipo que todos fazem sobre como ser linda conforme o padrão. Padrão é algo que foi inventado apenas para que as pessoas com características em maior número de certa época pudessem ser categorizadas de forma mais rápida. Porém o padrão mudou. Hoje o padrão é a diversidade, tanto de corpos quanto de etnias, culturas, gostos e amores. 

Portanto eu tenho visto que - apesar de todo o esforço que algumas pessoas ainda têm em relação ao "padrão é que é legal" e toda essa loucura alienada - o mundo de corpos tem se tornado cada vez mais um mundo de rostos. Ao menos para mim. 
Se antes eu era vidrada em forma física e fazia disso quase que uma regra, hoje eu sou apaixonada por pessoas e pelas suas diversidades. Quando eu olho para uma pessoa eu olho para seu rosto, sua expressão, seu sentimento e não para seu peso ou suas cicatrizes. E a vida parece mais leve hoje do que antes. Se é por isso? Creio que sim. Quando passamos a olhar as pessoas por quem elas são e não pelo que a aparência delas mostra, passamos a enxergar um mundo mais bonito, mais rico, mais agradável, mais carinhoso. 

Eu vejo um mundo de rostos, e não um de corpos - sim, há rostos que parecem a personificação do demônio, mas eu me refiro muito mais à atitude e personalidade do que à genética - e convido vocês a fazerem isso também. Afinal, todos temos nossa beleza e todos temos algo interessante. Basta apenas ter a coragem de mostrar ao mundo o que se tem de melhor. 
Tumblr_m4dhn7shvf1qc2gyeo1_500_large
(imagem daqui)
Lembrando que eu não estou fazendo apologia a você ficar o dia inteiro sem se exercitar e só comendo bobagem porque a beleza "que importa" é a interna. Estou apenas dizendo que não é apenas isso que deve importar. Porém entupir suas veias com gordura de todos os tipos não é legal, assim como ficar se autotorturando não o é. Se não gosta de algo em você, mude. Só não aceite algo tão superficial assim. Seja a favor de um mundo de rostos. 

13 comentários

  1. Me identifiquei muito com a sua história. Em 2003 eu pesava 53kg (tenho 1,57m), usava calça 36. Vejo as fotos hoje e eu tinha um corpo ótimo! Mas não era isso que as "amigas" da escola diziam. Botavam mil defeitos no meu corpo e diziam que eu precisava emagrecer mais (só hoje que percebo: eu era a mais magra de todas). Nessas acabei fazendo dietas loucas e passei a comer por pura compulsão quando nada davacerto. Ano passado cheguei aos 70kg e hoje estou com 62, na luta pra voltar ao que era antes.

    Fico feliz de você ter compartilhado essas coisas, além de eu ver que não estou sozinha, tenho ainda mais ânimo pra continuar.

    Boa sorte aí!

    Beijo

    ResponderExcluir
  2. Sabe, concordo. Tipo, eu sou 1 gordinha (não creio que seja muito saudável uma garota com pouco menos que 14 anos ter quase 80k), e um pequenino que come, tipo, cem vezes mais que eu (e deve ter uns 40k, sei lá) inventou de me chamar de Cuca porque é nome de gorda. Cara, eu sei que sou, para de me lembrar! Sim, é importante ser saudável, mas isso não é o problema dos outros, né? ~me sinto revoltada u-u~ Btw, ótimo texto. Acho que todos deviam ter essa, hm, ideia em mente -q
    Beijo ♥

    ResponderExcluir
  3. Oi Mia,

    Tbm já tive problemas com bulímia, e é horrível.
    Concordo totalmente com vc, em relação aos rostos. Chega a ser cruel o que a mídia e tbm os "coleguinhas" da escola fazem, em relação ao peso.

    Bjoos!

    ResponderExcluir
  4. Eu sou uma eterna insatisfeita com o meu corpo e não tenho vergonhinha de admitir. Apesar de sair por aí sambando na cara da humanidade e dizendo "eu posso comer a porra que eu quiser, que nunca vou passar dos quarenta quilos", sempre tive uma dificuldade imensa por causa do meu corpo. Não que eu me odiasse e coisa do tipo, mas... É foda ter que caçar roupa na sessão infantil por causa da sua pouca bunda ou da altura que chega a ser piada. (Y)
    O que mais me deixa emputecida é o pessoal que te olha como se voce fosse anoréxica na fila do restaurante ou, se voce enche o prato igual pedreiro, uma bulímica que vai vomitar no banheiro 5 minutos depois de terminar de comer.

    Agora deixando o desabafo de magrela de lado

    Sim, o mundo tá cada vez menos ligado no padrão, pelo menos na minha opinião. Até porque antes o padrão de beleza eram as pessoas que a gente via na tv (e que hoje a gente acha extremamente bregas) e hoje isso se ampliou e passou pra internet. E, óbvio, existem pessoas gordas, negras, asiáticas, de cabelo crespo, liso, enfim... Existe de tudo na internet.

    Mas pra mim isso estabeleceu outro padrão bem engraçado, pelo menos até onde eu posso ver. Agora, se voce não está completamente ligada nas tendencias da moda do lookbook ou se voce não tem um slipper (o que é altamente inteligente, já que o troço é feíssimo) voce é povão, logo, não presta.
    Mas³ esse não é o foco do post, não vou me embrenhar nisso.
    Adorei o texto, acho válido falar sobre padrões, sempre achei, porque eles foram feitos pra serem contestados.

    taiyounorakuen.blogspot.com

    ResponderExcluir
  5. Olá,linda! AMEI SEU BLOG.De paixão e já estou seguindo,você é uma ótima blogueira,continue assim e você vai longe!!!
    bjs

    www.beyou-be-happy.blogspot.com
    FIQUE COM DEUS.

    ResponderExcluir
  6. Uau,adorei seu post. Muita gente acaba desenvolvendo bulimina ou anorexia exatamente por pressão de colegas,às vezes nem é porque ela está insatisfeita com o corpo. E quando o mundo diz que bonito é ser magro,a gente acaba acreditando e mergulhando nessas dietas mirabolantes.
    Aliás,esse é um assunto importantíssimo que pretendo comentar nos meus próximos posts,o efeito que a mídia e as "más amizades" causa na gente.
    Flor eu fico feliz que você tá bem,e que soube fazer a escolha certa. Bonito mesmo é ser quem a gente quer,é estar satisfeito com nosso biotipo,porque ninguém é perfeito. Tem que se cuidar,mas não pelos outros,por nós mesmos.
    http://desconstruindoaspalavras.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  7. Mia, incrível. Sou gorda e me vi em tuas palavras. Muitas vezes por julgamentos, por piadinhas, por falarem do meu corpo, tentei diversas dietas, ficar fazendo uma refeição por dia e as vezes querer ficar sem comer. Eu estava no início da adolescência e isso me feriu muito. Sofri demais, chorei diversas vezes por ser julgada, rejeitada por meu corpo. Mas o tempo passou, eu vi que o que sou vai além da aparência e que padrões é a sociedade que impõe e antes de executá-las, eu preciso me amar e me aceitar.
    As pessoas sempre irão julgar e não devemos viver em função disso, somos mais que aparência, somos sentimentos, somos além do exterior, somos interior.

    http://iasmincruz.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  8. Eu emburro com isso sempre. Tô cansada dessa sociedade (vulgo: sociedade masculina) que só diz ter a beleza padrão se tiver peito e bunda grande e vestir roupas vulgares para "mostrar o que tem que ser mostrado". Véi na boa, aquelas mulheres frutas têm celulite e marcas feias e ainda são perfeitas? Eu sempre encanei com o meu peso. Sou considerada magra pra minha idade e vários idiotas me dizem piadinhas no colégio, eu fico com muita raiva mas isso tem a ver com genética (todos da minha família são magros).
    Eu prefiro olhar o rosto ao resto do corpo, acho a parte mais bonita os olhos.
    Beijos ♥

    Garota de All Star

    ResponderExcluir
  9. Me identifiquei com seu texto... Só que quando eu era mais nova meu problema era o contrário: As meninas da minha escola sempre me chamavam de magrela e viviam fazendo comentários bem maldosos sobre isso. Lembro que às vezes eu tinha vontade de retrucar e ofender elas, na mesma moeda, já elas eram gordinhas! mas eu nunca fiz isso, porque eu mesma não consiguia ver problema NENHUM nelas serem mais gordinhas, em em eu ser magrela, em fulano ser assim ou assado... Com o tempo percebi que as pessoas pareciam ter mais problemas com o MEU corpo do que eu mesma! E não sei o que motiva algumas pessoas a criticarem tanto assim os outros - dizem que é insegurança e problemas de auto estima - mas se for isso ou não, descobri que pra mim tanto faz. Ok, confesso que até hoje às vezes acordo me sentindo a pessoa mais feia do mundo, e sempre fico imaginando como seria minha vida se eu fosse uma daquelas meninas super bonitas... Mas sei que essa é uma mania ruim e que eu tenho que me aceitar como sou, afinal a vida é uma só e ficar perdendo tempo com isso é bobagem :) Adorei o post, me fez refletir bastante.. Espero que você alcance sua meta de forma saudavel e se sinta bem com você mesma *-*

    ResponderExcluir
  10. Tenho a impressão de que o texto exprime toda a minha revolta, durante muito tempo, ou melhor, desde que aprendi/escolhi que o grandioso do ser humano, não está na aparência, mas sim na essência. Tenho regras quanto à isso. Não digo que seja um padrão, por que odeio padrões (e quase sempre os quebro). Digo no sentido de ter regras para saber ver o quão certa pessoa tem o seu interior imenso e me faz sentir bem, sem ligar muito, pelo que ela é por fora. Sim, me chamam de louca por isso, afinal em um mundo contemporâneo como tal, o físico tornou-se o sonho de cada pessoa. Pois é nessa hora que eu penso, 'ainda bem que somos exceções'.
    Adorei o texto Mia.

    ResponderExcluir
  11. Você sempre escrevendo a coisa certa né?! Pelo menos pra mim, por que sua reflexão em toda eu concordo. Eu fiquei meio pirada com isso de emagrecer também, era gordinha na infância e odiava quando me chamavam de gorda na sala, todos os anos... Na pré-adolescência, comecei a ter meio que uma anorexia, meio por que não cheguei a parar de comer o dia inteiro, mas me recusava a comer muito ou o normal que uma garota em fase de crescimento come, enfim, parei com isso, ainda bem e que bom que percebi, que não importa se eu estiver igual ao padrão que a sociedade nos impõe se eu não estiver bem comigo mesma, eu me prefiro magra, sei quando exagero na comida e tenho problemas com alimentação que afetam minha saúde, por isso, tento me cuidar.
    Enfim, por um mundo de rostos sim, onde pessoas não sejam julgadas e criticadas por seus físicos.

    Beijos <3

    ResponderExcluir
  12. Me identifiquei demais com seu post! Eu sempre fui gordinha, a mais gordinha da minha familia, e meus primos sempre vinham com aqueles apelidos que ate hoje quando eu lembro o que sentia me dá uma agonia... aos 10 anos eu estava entrando praticamente na obezidade, além de ter colesterol e outras doenças por ser gordinha! Minha mãe viu como estava ficando serio, e resolveu me levar no medico, foi ai que comecei a dieta, entrei na academia, fiz aula de dança, e tudo isso mais eu me tornar 'mulher' (malditos absorventes) me ajudaram a perder peso! Aos 12, 13 anos eu tinha perdido mais da metade do que eu pesava, pela primeira vez me senti linda, garotos vinham falar comigo eu ficava me achando linda, atraente e essas coisas... infelizmente mudei de cidade, e como não conhecia ngm aqui, não saia pois a cidade é 10 vezes maior da que eu morava, passava dia e noites comendo, então o resultado foi que voltei a ficar gordinha, não como antes, mas se comparar uma foto minha com 13 anos e uma de agora vc nota a diferença, por isso eu TENHO que emagrecer, tenho que fazer dieta, quero voltar a me sentir linda, a usar qualqer tipo de roupa sabe? mas a questão é qe eu não tenho mais aquela força de vontade sabe? eu sempre desisto, mas vamos ver o que acontece né :T
    e eu nem te acho gorda viu, pra mim seu peso já esta ideal, quem dera se eu tivesse 58 kg haha
    quem sabe um dia as gordinhas viram sinonimo de beleza né? não só de beleza interior... Adele ta ai pra mostrar que estão conquistando espaço.. enfim, acho que falei demais, bjs

    http://www.rascunhosdasuuka.com

    ResponderExcluir
  13. Linda, disse tudo. Sou daqueles magro/ pequeno então você já imagina (se bem que eu estou crescendo bastante de uns tempos para cá). Seu texto está incrível, não pare de escrever (para nossa alegria)!

    ResponderExcluir