Sixteen Candles e o panaca comum

Quem me conhece sabe que sou uma grande fã do cinema. Não o cinema no sentido físico, mas das obras cinematográficas. E possuo um carinho especial pelas mais antigas, principalmente comédias dos anos 80. Porém - e sem querer começar com mimimi de blogueira feminista aqui - algo me deixa irritada com a maior parte dos filmes de comédia adolescente: o cara ideal.

O cara ideal é um babaca. Panaca, no sentido mais amplo e escrachado da palavra. Até aí tudo bem, já que nesse mundinho louco chamado Terra, nós estamos acostumados a ver por aí caras e garotas panacas (ah, sim, senhores, porque isso não é exclusividade apenas de rapazes, pelo contrário: a panaquice está para o ser humano assim como as salsichas estão para o pão de hot dog).

Assistindo a Sixteen Candles, comédia adolescente super popular dos anos 80, vi algo que não apenas me irritou. Não, senhores, porque o mocinho, o galã, o desejado de 98 entre 100 meninas da escola não era apenas um panaca com pose de descolado: ele também é um estuprador. Ou seja, a coisa mudou de figura num ângulo de 120°.

No enredo, o cara, se aproveitando que a até então namorada está bêbada e praticamente desmaiada, a pega e não se contenta em se aproveitar dela simplesmente, mas a entrega a um calouro da mesma escola que ele e ainda o incentiva a estuprá-la, emprestando um carro que não é seu para que tal fato ocorra.
E o que acontece quando a menina acorda? Ela abraça aos dois e diz que não lembra de nada, porém gostou. De onde tiraram isso?

Não, eu não tenho problemas com filmes grotescos de comédia ou piadas toscas. Mas sinceramente, esse filme foi um dos ícones pra geração oitentista e eu não concordo nem um pouco com o fato de que - mesmo hoje em dia - se utilizem de tais subterfúgios para tentar fazer uma piada onde não há. Qual é a graça de brincar com o corpo de uma adolescente desacordada? Sinceramente, eu entendo humor. Mas não entendo isso.

O problema é quando as pessoas não se atentam que os valores estão invertidos. Hoje em dia temos uma novela em horário nobre onde a mocinha é inescrupulosa e os vilões são mais interessantes. Não, eu não assisto novela, mas já peguei algumas partes - culpa da televisão na hora do jantar - e entendi a trama. Não me ofendo com piadas - por mais de mal gosto que sejam - nem tampouco fiquei alarmada com aquilo que Rafinha Bastos disse há algum tempo e pelo qual ficou tão julgado e escrachado, mas a partir do momento em que não conseguimos mais fazer uma separação do certo e do errado, do bom e do mau, então tudo vira lícito, até mesmo ter por mocinho um cara que incentiva o estupro da própria namorada por um calouro e ainda leva a mocinha num novo namoro ao final do filme.

Talvez eu esteja fazendo essa polêmica toda por nada, talvez seja em decorrência do estupro que sofri há alguns anos, talvez seja apenas por eu ser uma aquariana com ascendente em escorpião (o que me coloca numa posição bem polêmica, de qualquer forma), mas o fato é que isso mexeu com meus nervos e me fez refletir e perceber que a coisa só foi de mal a pior a partir desse ponto. E isso, senhores, é algo que não deveria acontecer em pleno século no qual nos encontramos. 

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