Goma de abacaxi

Você me pergunta na maior cara dura o que estou fazendo após ter partido meu coração. Reviro os gomos ainda apegados à superfície do suco de abacaxi no copo, fico triste, olho para o relógio que marca meia-noite e meia, dou aquele sorriso irônico e digo: fazendo o que faço de melhor, escrevendo.
É quem eu sou, não é? Uma escritora - ou aspirante a tal. É o que eu faço. Não é estranho dizer que eu sou o que faço e que faço o que sou, assim como o que amo e o que me sustenta nos dias de insanidade e desejos profundos irrealizáveis?

Mas você me disse para ser assim, não disse? Você deixou isso bem claro após ter me dito para ouvir aquela música e prestar atenção na letra - e que letra - que dizia para ser algo que se ama e entende. É o que estou fazendo, meu bem. Não me estranhe por isso.

Faz apenas três horas que você me rejeitou. Rejeição. Não é uma palavra engraçada? Como se eu fosse repulsiva ou algo assim. Divertido isso. Escritoras costumam assustar, não é?
Três horas desde então e tudo o que eu consigo pensar é no meu copo, meio cheio, meio vazio, de suco de abacaxi e em como aqueles gomos - por mais coados que estejam - se apegam fortemente às lacunas dos meus pequenos dentes. É como o que sinto - amor? um pouco menos, bem menos - é como o que percebo: o amor ou o gostar é como os pequenos fiapos de goma que ficam entre as lacunas dos meus dentes. Eles precisam ser removidos, mas se você quiser tomar um bom suco, precisará enfrentá-los. Ninguém passa pela vida sem seus fiapos.

Alguns nem incomodam tanto. Vão ficando, ficando... e só saem na próxima escovação. Outros são um estorvo. Mas todos são estranhos. Estrangeiros em terras - ou seriam "em carnes"? - desconhecidas.

Você me diz para ter cuidado porque faz mal se envolver com alguém de quem não se gosta. Mas você se envolveu comigo, não foi? Entrou sem ser convidado e se instalou numa das cavidades da minha boca, e de lá não quer sair. Adivinha, meu bem? Gomos antigos sempre saem quando empurrados pelos mais novos e resistentes. Nada que um novo gole não resolva.

Que se dane esse gostar. E que se dane você.

14 comentários

  1. Apenas AMANDO este texto. Por mais que a temática não seja das mais felizes, o que vale é o sentimento passado através de tais palavras. E tu nos envolve com esses escritos. Entrelaça essas palavras na gente e elas não querem mais sair. Isso é lindo demais!

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  2. E as pessoas que nos magoam sempre fazem o papel de magoadas. E sempre se dizem insubstituíveis. Aliás, é como você disse: Gomos antigos sempre saem quando empurrados pelos mais novos e resistentes. Nada que um novo gole não resolva.

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  3. Adorei a analogia. Adorei a Marilyn no fim do post, adorei sua forma de escrever e como descreveu perfeitamente o que eu sinto de vez em quando. Sabe, eu tenho um gomo instalado há muito tempo, que parece convicto em permanecer. Ou talvez, por não querer perdê-lo, eu não escovo o lado esquerdo direito. Enfim, belo post, assim como os anteriores... Continue escrevendo, se continuar desse jeito, seu futuro literário promete! Beijos ;*

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  4. Aliás, gostaria de fazer parceria com meu blog? Ficaria muito feliz se aceitasse :}

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  5. Eu acho que tenho gomos instalados de vez em quando. Mas, pô, meninas de treze anos não sofrem por amor. Por mais que queiram. E esse gostar? Já esqueci o que é há 3 minutos. Até eu me lembrar da manhã de todos os dias, novamente.
    Ok, sou fera e boiei de novo. Risada maligna.

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  6. Queria te dar um apoio melhor do que um simples comentário...
    Só vou acho que reiterar o que já devo ter dito antes. Tu ainda é jovem. Com 19 anos comecei um namoro, com 24 terminei o namoro. Com 25 comecei outro, durou 3 meses. E assim é a vida.
    Não te preocupa porque um babaca de TANTOS nesse Brasil não te quis. Vai ter tantos outros que vão te querer e tu vai ter a oportunidade de rejeitá-los - e apenas por serem apenas babacas.

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  7. Adorei. " Gomos antigos sempre saem quando empurrados pelos mais novos e resistentes. Nada que um novo gole não resolva." Sem comentários para esse texto. Perfeito.

    http://nerdicesdeumagarota.blogspot.com.br/

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  8. Adorei tudo , não há o que acrescentar.. e é o que sempre acontece todos os dias, o amor é fielmente injusto e doce ao mesmo tempo.Amo seus desfechos surpreendentes. Acho ousadia TUDO!
    Mudando de paradigma , eu acho incrível todos falando de relacionamentos, cada um do seu jeito. De maneira ácida, romântica ou depressiva. Mas eu não consigo , acredita? Irei postar sobre isso brevemente.

    Beijão, Sabrina. (www.spiderwebs.com.br) ♥

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  9. Oi Miaa, faz uma eternidade que não passo por aqui (que vergonha), maas em nenhum momento deixei me esquecer de seus textos, de repente bateu aquela saudades de voltar e acompanhar tudo.
    E dei de cara com um texto lindo, e de uma autêntica escritora. É isso que fazemos. escrevemos.

    beijooos

    http://oicarolina.wordpress.com

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  10. Mia, que texto maravilhoso. Como sempre né? É incrivel como a qualidade dos seus textos evolui, quando leio um e acho que vai ser raro outro ser tão bom, vem um melhor ainda. Mil vezes melhor. Parabéns viu?

    Beeijos :)
    http://www.itgirl-sweet.blogspot.com.br/

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  11. Gostei muito do texto e acho que a imagem final contém uma frase altamente verdadeira, que todas as pessoas deveriam ficar cientes após um término de relacionamento. Tem coisas que a gente termina e vai logo tomando um copo inteiro depois, de tão cheio que tava de tudo, esquecer sempre é bom, nem sempre é fácil, mas sempre é bom.
    Abraços!

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  12. Não sei por que ainda me impressiono quando chego aqui, se sei o dom que a dona tem. (:
    Essas dores são terríveis, mas como você disse, nada que um novo gole não resolva !
    parabéns pelo dom, é isso que és, é isso que fazes, e muito bem por sinal :D

    http://leideanediniz.blogspot.com ;*

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  13. Gostei da sua comparação. Você ama escrever, e é o que escreve. Tem coisa melhor? Deixe esses gomos do passado descerem, porque novos gomos virão- e eles, ou os próximos, pode ter certeza, farão tudo valer a pena.
    Beijos,
    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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