Epifania

No início do ano, lembro-me que fiz apenas um pedido: amor tranquilo.
Anteontem, quando minhas amigas e eu passávamos, durante uma viagem de ônibus, por um túnel, enlaçamos nossas mãos, fechamos os olhos e - como manda a tradição - fizemos um pedido. Enquanto passávamos por aquele túnel escuro e mal iluminado, enquanto minhas amigas faziam seus pedidos e evocavam sonhos de grandeza, eu não consegui pensar em nada. Por mais que minha mente tentasse pensar em algum pedido a ser feito, algum sonho a ser realizado, algo que eu desejasse, eu apenas pensei em uma coisa: meu pedido foi realizado. E eu estou em paz e tranquila, com um amor enorme em mim.

Eu desejei amar tranquilamente. Porém, eu pensava que o amor fosse entre um ser e outro, que se encontram e planejam uma vida juntos, coisas divididas, promessas, afetos, esperança. Isso não é amar. É compartilhar.
Descobri o amor após um término doloroso. Descobri após ficar sozinha, após dois meses isolada de amigos, família, tudo e todos. Descobri após descobrir a mim mesma.

Procurei o amor em várias pessoas. Terminada uma ligação, um elo, pensava: não era amor, ou não era o amor certo. Mas a verdade é que me envolvi com pessoas problemáticas porque eu mesma o sou - ou era. Sabia que não permaneceriam, inconscientemente, não gostaria que permanecessem. Não me sentia pronta para encontrar a mim mesma e perceber o quão egoísta e má estava sendo. Procurava em outros algo que só poderia ser encontrado em mim mesma. Procurava uma paz para saciar meu desejo de porquês e fui obcecada com uma visão racional do amor, do amar, da vida por muito tempo. Até que a vida me atingiu como um raio no meio do peito e eu não tive para onde fugir. Porque não foram as pessoas que - por mais erradas que fossem - fugiram de mim. Fui eu quem as mandei embora. Fui eu quem fez com que as coisas fossem assim porque tudo era tão denso e tão complicado que eu não gostaria, realmente, de ver.

Porém, eu fiz um pedido. Eu desejei, do fundo da minha alma, que isso acabasse, que essa procura desenfreada por amor terminasse. E, uma vez mais, eu pensei ter amado. E, como sempre, o afastei. Não porque fosse quem fosse, mas porque eu não sabia quem era. Falei coisas que não deveria ter falado sobre pessoas que não deveriam ser expostas. Expus tudo porque a verdade parecia mais importante do que a vida. Porém, o que é a verdade? E o que é a vida? É energia. É sentir e saber e conhecer e ser. Apenas ser. Seja lá quem eu for.

Errei com as pessoas e erro ainda. Mas hoje percebi que amo, e amo fortemente a mim mesma. E ao universo. Melhor dizendo: talvez eu não ame, mas sinto o amor. Sou como uma observadora, em uma janela, admirando tudo e percebendo tudo; vivo e me percebo vivendo como se não vivesse. Tudo está rodeado de amor, por mais que não o vejamos, por mais fechados que estejamos.
Foi ferindo e percebendo o quanto feri que me conheci e soube quem eu sou. E descobri que para amar tranquilamente é preciso aceitar tanto o meu lado obscuro quanto o claro, tanto as pessoas que me parecem más quanto as que me parecem boas. Dualidade de espírito.

Não estou mais em um túnel, mas o túnel está em mim. Porque o que me atravessa leva um pouco da minha energia e sua energia também permanece um pouco em mim. E esse é o amor.

7 comentários:

  1. Acho que essa ideia que a maioria faz do amor é exagerada, ou é bom demais, ou é sofredor demais. Acho que basta saber amar a pessoa certa, nada vem fácil.
    Abraços!
    Garota de All Star

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  2. Talvez o amor nem exista. Acho que confundem convivência com amor, confundem um papel assinado com amor. Talvez o amor exista! Vai saber...
    Acho que amar não é o mesmo que realizar. O verdadeiro amor deve permanecer nos bastidores. O amor é um simples observador.
    Beijos!

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  3. Pra mim, o amor existe, mas se é uma energia, não existe amor igual ao outro. E é por isso que talvez tu não encontre o que procura: tu definiu uma dosagem de energia (amor) e procura por essa energia que não existe - pode ter energia semelhante, mas nunca vai ser aquela idealização. E isso só nos ensina que o amor também vem com outras coisas, coisas que que nem sempre nos agradam, mas que nos ensinam e tolerar, superar e talvez até a amar um pouco mais.

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  4. Acho que antes de tudo, devemos amar a nós mesmos. E o amor se encontra em tudo depois. Em tudo há amor, e o amor é tudo. Nós somos amor, e tudo o que nos rodeia é amor.

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  5. Eu acredito sinceramente no amor puro e verdadeiro, e que ele seja bondozo sem espinhos, porém que faça com que sentimos seu sabor de sangue. Pois tudo aquilo que nos fere a fundo nos torna capazes de sentir que amar é o amor em sua forma de ferro quente. Não que para amar seja preciso sofrer, não. Digo que quem já amou e sentiu como se o amor fosse mata-lo por dentro sabe que para ficar ao lado de quem amamos requer uma luta dentro do escuro do nosso ser.

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  6. Acho que com isso você chegou no ápice da satisfação, né? É bom demais quando a gente se dá conta que nós também precisamos amar a nós mesmos e fazemos isso. No meu caso, senti-me invencível.

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  7. Me lembrou muito uma música do Ultraje a Rigor, chamada "Eu Me Amo". À primeira audição, parece egocêntrica, mas quando você repara na letra (http://letras.mus.br/ultraje-a-rigor/49186/) percebe que ela fala disso aí. De se amar, de se aceitar, de se perceber. E sacar que o amor É. Ele está presente. E age. Ele é isso. Essa coisa incondicional, "irraciocinável". E palavras dificilmente vão explicar o que ele é e como se manifesta. Mas, depois que a gente o sente de verdade, passa a parecer incrivelmente óbvio.

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Wink .187 tons de frio.