Morte sobre duas pernas

Acordei. Já estava tudo escuro, luzes desligadas e eu não fazia ideia de onde estava. Senti um gélido arrepio na espinha e, sem pensar duas vezes, me levantei. Comecei a procurar por alguém que pudesse explicar o que estava acontecendo, mas tudo o que encontrei foi um corredor enorme cheio de portas fechadas. Era assustador. Cheguei ao que parecia ser uma recepção e me deparei com duas moças preenchendo fichas. Sim, eu estava em um hospital, ou em algum lugar que parecia ser um. Fui até as moças e fiz de tudo para lhes chamar atenção, mas nada parecia funcionar. As luzes começaram a piscar - provavelmente pela tempestade que parecia se aproximar -,  e elas continuavam indiferentes a tudo que ocorria, mesmo a meus gritos que me pareciam ensurdecedores. Após o que me pareceu dez minutos gritando e fazendo de tudo para lhes chamar atenção, desisti. Elas pareciam me ignorar com uma frieza tremenda.

Voltei para meu quarto. Ainda estava muito confuso, mas agora começara a lembrar do porquê de estar ali. Lembrei que estava dirigindo meu carro pela estrada do Moinho quando, de repente, surgiu um caminhão que me atingiu. Após isso, apaguei, ouvindo o som de uma ambulância ao longe. 

Cheguei a meu quarto, depois de passar por um longo corredor cheio de quartos com pessoas em fase terminal. Ainda estava muito confuso quanto ao meu estado, mas foi aí que eu presenciei a cena mais assustadora da minha vida: eu estava ali, parado à beira da minha cama enquanto meu corpo estava deitado naquele leito de hospital, coberto por fios e sondas. Um corpo gélido, quase morto, arroxeado.

Não podia ser verdade. Eu havia morrido? Não, pior: eu estava em coma. Tudo me levava a crer que eu estava em coma. E isso explicaria o porquê de as recepcionistas terem me ignorado. Agora tudo estava claro. Tentei voltar para meu corpo, mas não conseguia. Eu podia tocá-lo, senti-lo, mas não conseguia voltar. Havia uma barreira invisível que me impedia. Era um pesadelo, tinha que ser.

A essa altura eu já estava beirando à loucura. Sentei em um canto do quarto e fiquei ali, observando meu corpo quase sem vida e tentando acordar daquele pesadelo terrível.
Foi então que um homem velho muito pálido entrou em meu quarto. Ele usava um manto preto e tinha os olhos de um azul intenso. Ele foi se aproximando do meu corpo como se flutuasse. Colocou a mão sobre minha cabeça enfaixada e eu senti como se um redemoinho estivesse me puxando para baixo. Olhei para o chão e um abismo havia se aberto, um enorme e escuro abismo que insistia em me sugar. Reuni toda a força que tinha e saltei naquele velho, afastando sua mão de meu corpo. Ele olhou para mim espantado e disse:
- É a sua hora. Você não pode lutar contra isso.
- Não, essa não é minha hora. Sou muito jovem e tenho muito a viver ainda. Quem é você para decidir algo?
- Alguns me chamam de ceifeiro, outros de morte. Já levei pessoas mais jovens que você e em melhor estado. Essa é a sua hora e não há nada que você possa fazer contra isso.
- Sim, há algo que eu posso fazer.

Naquela hora percebi que eu era um espírito, e se eu havia derrubado a morte então eu poderia matá-la! Mais do que depressa arranquei o espelho que havia na parede do quarto e lancei sobre o ceifeiro. Eu havia lido há tempos que espíritos podem ser aprisionados por espelhos e é por isso que quando alguém morre as pessoas tapam os espelhos para que os espíritos possam seguir seu caminho. Foi aí que aconteceu: eu aprisionei a morte dentro do espelho, mas seu reflexo ainda estava vivo, e me disse:
- Não faça isso. Você vai se arrepender!
Eu não dei ouvidos. Atirei aquele espelho dentro do abismo da morte que ainda estava aberto. Houve uma explosão de luz e o abismo se fechou. "Estou vivo!" - foi o que pensei. Ah, que terrível engano! Quando tudo parecia bem, os sinais vitais do meu corpo desapareceram. Eu havia morrido, mesmo tendo matado a morte.

Senti algo estranho em meu espírito. Senti uma dor profunda, como se estivessem arrancando as carnes que eu não possuía. Olhei para mim mesmo e estava desfigurado: eu era o velho pálido com capa preta e olhos azuis! Eu era a morte.
Me transformei na própria morte quando a matei porque a morte nunca morre.

8 comentários

  1. Que terrível. Seguir o caminho teria sido melhor, acredito. Em se tratando de morte, nunca temos certeza de nada, a única coisa que sabemos é que é inevitável. Obs: O velho me deu medo.

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  2. Antes matar do que morrer arbitrariamente.

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  3. Vou ter que falar isso de novo, como sempre digo: O que é pra ser, será...
    E não há nada que possamos fazer pra contrariar isso. Existem aquelas múltiplas histórias de pessoas que morreram e voltaram a si, mas, em poucas vezes. Isso é só mais história de vida pra contar...
    A gente tem que entender que temos um começo, um meio, e um final, e esse ciclo não se altera. E a Morte virá, certamente.

    Nunca imaginei a Morte assim, sempre achei que ela fosse uma mulher... enfim.

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  4. Durante algum tempo tive medo da morte, hoje prefiro ter nada, nem medo e nem admiração. Que ela venha quando tiver de vir, mas não posso dizer que não lutaria pela vida!

    Beijos,
    santaironia.blogspot.com.br

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  5. Uau Mia, arrasou! Fazia tempos que não passava por aqui. Não imaginava um final assim. Achei que seria algo clichê, mas me lembrei que estou no Wink. Sempre surpreendendo :)

    http://gabipuppe.blogspot.com.br

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  6. Tenho que dizer que me deu um leve calafrio ao ler o final. Tem certas coisas que tem acontecer! Querendo ou não é necessários, se acharmos um jeito de mudar isso, pode ser que mude para pior... Não tenho medo da morte em si, mas confesso que tenho medo que ela leve pessoas ao meu redor :S
    Enfim, adorei o texto!

    http://rascunhosdasuuka.com

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  7. Wow, Mia, arrasou! Seus textos sempre me prendem do começo ao fim. Adoro o jeito que você usa as palavras <3
    Ah, você se inspirou no filme "E se fosse verdade"? Me lembrou bastante ele. Sou fã desse filme hahahaha

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  8. O texto está muito interessante! Adorei. :)

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