Janela

Anita abriu a janela de seu quarto, no segundo andar, durante a madrugada quente de uma primavera insólita. Sentiu uma brisa suave, sentiu que a energia da brisa a convidara para ser sua amiga, para segui-la, para se jogar. Lentamente ela esgueirou o corpo pelo pequeno espaço da janela de madeira. Avistou luzes de natal - um natal adiantado, por sinal - em casas distantes de seu bairro. Teve vontade de se jogar, de cair, de ser fraca apenas uma vez - porque quando estamos fracos é que mostramos nossa força. Pé ante pé, ela subiu pelo telhado, através de sua janela envernizada.
Talvez fosse apenas um delírio de febre, talvez fosse a energia do ar dedilhando a bela e misteriosa canção do silêncio. E foi aí que percebeu que era uma alma aprisionada em um corpo, uma alma que pertencia à brisa, à energia, ao mundo.
Um dia ela ainda saltaria pela janela. Mas não hoje. Hoje ela precisa voltar para seu mundo de fantasias e fazer a lição de casa. 

13 comentários

  1. Super me identifiquei. Porque, por mais que saltar fosse um alívio, mas no entanto, é mais fácil não? Fugir é sempre mais fácil. E quando a gente percebe, tem uma vida que somos responsáveis: - a nossa. Não é tão simples. Ficar e viver e enfrantar todos os nossos turbilhões ganha muitas conotações. Ganha peso, decepção. Mas também pode significar um presente, e muitas alegrias. Só que nos momentos de alegria, como é que a gente vai pensar em tudo de ruim? Por isso que os momentos mais doces, passam justamente tão rápido.
    Quereria eu por exemplo, me atirar sabe, esquecer mesmo de tudo, de um mundo tão mal, de coisas tão péssimas e graves. Mas tem tanta coisa pra fazer ainda. E eu ainda tenho tantos sorrisos dar, e choros pra me angustiar. Se a vida fosse fácil, seria perfeita, e a perfeição é um ideal. Ela não existe. Então a gente respira, respira, sonha se puder. E pensa, que, tudo de inestimável que vivemos não tem preço: - mas a gente sempre se esquece disso.

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  2. Dias desses subi no terraço de um dos prédios da PUC de Goiânia e pensei em pular. Fiquei realmente muito tentado.

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  3. Adorei o texto, legal como a inspiração dele veio (veio mesmo? na real é só um palpite rs) da imagem do l'appel du vide. Mesmo que a vida em geral esteja boa, acho que no mínimo uma vez a pessoa se sente tentada. Talvez não seja bem um "desejo", e sim apenas uma curiosidade por estar exposta diante tal oportunidade.

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

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  4. Essa imagem é tudo! Eu sinto vontade de saltar de prédios, mas só se soubesse que não iria morrer. kk
    Seria bom uma fuga assim né..

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  5. Dorei :B Imaginei a cena da menina num prédio, vc escreve tããão bem (deve ser a milésima vez q te falo isso mia, mas é verdade!). Ah, sobre a post com a resenha de 50 Tons de Cinza, adorei cara.Nn consegui ler nem 30 páginas! É muuuuuito ruim. Parece q a mulher criou uma fanfic de Crepúsculo, pqp u_u
    xo,
    its-becky.blogspot.com

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  6. Nos dias mais difíceis dá uma vontade enorme de se deixar cair da janela. Não fazer forço, simplesmente sentar no parapeito e esperar que a falta de equilíbrio te faça cair. Tenso, mas verdade.

    Beijos,
    santaironia.blogspot.com

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  7. Tem dias que dá uma vontade imensa de saltar da vida, de ser da brisa, mas a "lição de casa" ou a "vida real" não nos permite... Adorei Mia, adorei.

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  8. A seus textos tão suaves e bom de ler, e quem nunca teve vontade de se jogar de um precipício, em busca de um vento suave, de um aliviar na alma (...)saudades do teu espaço,pretendo aos poucos retomar as minhas leituras antigas ♥

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  9. Outro dia falei a uma amiga que estava com vontade de me jogar de um precipcio. Ela me perguntou porque eu queria morrer. Tive de explicar que não era bem essa a minha intenção. Talvez esse pulo em direção ao vazio seja uma perspectiva de libertação, é um desejo apaziguado pelas regras da sociedade. E pelo que nos espera lá embaixo. Mesmo assim, as vezes, eu queria.

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  10. Nunca tive vontade de pular, acho que sou medrosa demais para isso. Se eu parar pra pensar eu não pulo, vou ter vertigens e meu estômago vai dar cambalhotas. Eu nunca pulo. Eu tropeço, caio, me jogam se for capaz! Mas eu nunca pulo! Ah não...

    beijos Mia!

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  11. Uma personagem com tendência o suicídio. Pergunto-me quem nunca esteve. Mas existe uma força ainda, de ser real, de necessitar ainda estar aqui. Sim, é necessário.
    Abraços.

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  12. Criei uma página com meus blogs preferidos no nova perspectiva e o seu está lá! <3

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