Pessoas que fazem do mundo um porquê

Pessoas passando pelo sinal
Pessoas vivendo uma vida vazia
Para muitos, elas são pessoas de verdade
Essas são consideradas com vida normal
Pessoas destruindo pessoas
Pessoas calçando sapatos renegados
Pessoas ligando durante a madrugada
Seus celulares já há muito ultrapassados
Pessoas que dançam e cantam e giram
Pessoas que pensam que estão emitindo
Alguma canção para o silêncio mortal
E evocando um sentimento irracional
Suspiros deixados na porta da frente
Para uma pessoa que quer ser lembrada
Porém sua vida é uma mentira
E sua lembrança será esquecida
Pessoas que passam na rua da vida
Pessoas que vivem sem clima, sem alegria
Pessoas robóticas, pessoas iguais
Saídas da fábrica, idealizadas por jornais
Pessoas estranhas, pessoas vestidas
Como se o tecido curasse a ferida
Ferida que sangra, que divide, que lembra 
Feridas são remendos de uma alma partida
Festas e chutes e veias sangrando
Apenas um pedaço de pano em movimento
Se movem, se movem, são almas, são vivas
Pulsam e choram e levam mordidas
Pessoas que sangram, pessoas que latem
Pessoas que vivem como se fossem humanas
Humano extinto, é isso que são
Pessoas estão numa droga de extinção
Se eu sou uma pessoa, não sei, não padeço
Das altas agonias que delas conheço
São gente de sinais, de ritmo, de dança
São gente que não se compadece nem de uma criança
Pessoa, eu não sou apenas o que você pensa
Que finge, que lê e também adormece
Que escreve um poema numa noite anormal
Apenas para aliviar sua alma do mal 
O mal que aquece, que oprime, que queima
Por entre as veias da menina indefesa
São coisas da vida, é o que me dizem
Pessoas que foram trocadas por crimes
Apenas notícias, num rádio, no jornal
Apenas mais nomes, sem nada anormal
Pessoas que acordam e se deparam com a vida
Vivida por gente de lata e de cera 
Pessoas que não derretem, não sentem, não lembram
Que lidam com a vida como se fosse um poema
De uma estrofe há muito guardada
Deixada num canto, toda empoeirada
Pessoas que cantam, pessoas que dançam
Que fazem da vida uma peça encantada
Que fazem da alma um mito encarnado
Que fazem do ar uma fórmula esquecida 
São essas pessoas, minha gente, eu confesso
Que me fizeram ser perdida entre versos
Que me fizeram ver que o mal desse mundo
Não está nas palavras, está no orgulho 

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