(in)tolerância

Vivia em uma situação insustentável. O peso de pecados não cometidos caía sobre ela sem que pudesse ter a chance de se defender. Sua mãe, vendo-a ler, rasgou seu livro dizendo que aquilo era bruxaria, que ela deveria ler a Bíblia e coisas concernentes com Deus. Ali ela teve certeza de que nunca seria do caminho de "Deus", do Deus de sua mãe, daquele Deus que a fez sofrer tantos anos, cuja doutrina levou sua mãe a ser praticamente a Inquisição dentro de casa, como na idade média, em pleno século XXI.


Anita, após ter seu livro feito em pedaços num ataque de fúria religiosa de sua mãe, não conseguiu ter ação alguma. Chorou, num choro vindo do mais profundo de seu ser, de sua alma. Tudo o que ela sempre quis foi ler, conhecer culturas, viajar por mundos distantes, adquirir conhecimento. Mas isso parecia impossível dentro de sua casa. Enquanto outras mães brigavam com suas filhas por saírem para baladas e voltarem bêbadas para casa - quando voltavam - a sua brigava por ela fazer aquilo que mais amava no mundo: ler.
Como não era menina de reações dramáticas, fechou-se dentro de si mesma, recolheu os pedaços do livro - que de bruxaria não tinha nada, por sinal -, recostou-se em um canto da parede, esperou terminar de ouvir os passos da mãe subindo as escadas e chorou silenciosamente. Anita não era moça dada a escândalos, portanto mordeu o antebraço para que o choro saísse abafado, para não gritar desesperadamente pedindo por socorro, para que ninguém soubesse da dor que sentia ou que zombassem dela por ser tão boba a ponto de chorar por um livro. Mas não era apenas pelo livro que chorava - apesar de que sua alma partiu-se juntamente com as páginas daquele belo livro verde - porém, chorava porque seu desejo de conhecimento e liberdade lhe era negado apenas porque sua mãe determinou que seu destino seria casar com um rapaz da igreja, ter filhos, arrumar em emprego medíocre, viver conforme as regras machistas escritas por São Paulo, na Bíblia, e acabar seus dias amargurada, enclausurada, sendo uma cristã exemplar, em alguma Assembleia de Deus qualquer que existisse em sua cidade, tendo uma vida tão falsa, rasa e sem sentido como a dela própria.

Passados alguns minutos de choro silencioso, notou que seu braço adquirira uma coloração roxa, pois seus dentes haviam sido cravados com muita força, força essa que deveria ter sido expelida por sua voz, em um grito de dor, de desespero, de quem é encarcerado e compelido a viver algo que não quer. Pensou em ligar para alguém, mas quem? O amigo que lhe emprestara o livro - agora já rasgado? Não. Ele havia saído com sua namorada, e mesmo que não houvesse, como ela lhe diria que a intolerância de sua mãe fez o livro em pedaços? Ligar para o outro amigo com quem sempre tem conversas longas e reflexivas? De que adiantaria? Ele estava longe, não haveria nada que pudesse ser feito por ele para que a situação melhorasse, ou mesmo para levá-la para longe. Todos estavam ou ocupados, com seus namorados, ou distantes demais para que pudessem ajudar. Sentia que seu fôlego escapava, sentia um enjoo, sua cabeça latejando, sua respiração se tornando escassa. Pensou em ligar para seu pretendente a namorado, mas iria falar o quê? Ele não sabia nem 1/4 do que era sua vida. Como ela poderia dizer "rapaz, estava eu lendo um livro incrível sobre loucura e suicídio que um amigo querido me emprestou, quando minha mãe começa a gritar que aquilo era bruxaria, que eu havia largado a igreja para isso, que deveria ler a Bíblia, arrancou o livro de minhas mãos e o fez em pedaços"; não ela não poderia dizer isso. Iria parecer louca. Vinda de uma família louca. Genes loucos. Qual rapaz, em sã consciência, se envolveria com ela, sabendo de sua família louca, de sua mãe intolerante, de seus desejos de suicídio, de seus traumas, de seus problemas emocionais, de sua vontade de correr, correr, correr até cair de exaustão e permanecer em um coma profundo por anos? Não, ela não poderia correr o risco de parar num hospício, de ser largada, de autossabotar mais um relacionamento apenas por falar a verdade, falar o que lhe acontecera, falar como sua vida era cheia de situações extremas e que desconfiava plenamente que muitos filmes e livros foram feitos inspirados nas situações insanas que vivera em seus quase dezenove anos de existência.

Correu para seu quarto, trancou-se, verificou a fechadura de sua porta três vezes, com medo de ser surpreendida por sua mãe, pôs-se em frente ao espelho e admirou-se. Sempre soube que ficava especialmente linda quando chorava. Seus olhos verdes se tornavam encantadores delineados de vermelho-sangue, sua boca se tornava ainda maior e mais viva, sua pele parecia embranquecer e seus cachos castanhos lhe caíam com leveza pela face banhada de lágrimas. Sempre soube que virava pintura renascentista ao chorar. Teve desprezo por si mesma ao perceber alguns traços de sua mãe em seu rosto. Jurou fazer uma tatuagem, um novo corte de cabelo, uma pintura nova, piercings, algo que a diferenciasse. Mas ela sabia que não era agressiva a ponto de fazer isso. Parou, olhou-se mais atentamente e percebeu que sua vida sempre seria assim. Nunca conseguira um relacionamento com uma pessoa normal, com alguém que não pudesse ser considerado louco de alguma forma, e sempre achou que isso se devia ao fato de que o mundo era louco e as pessoas, insanas. Mas não. Estava agora saindo com um rapaz normal, de assuntos rasos e cotidianos, uma pessoa adorável, porém ela não se sentia a vontade para falar de assunto reais, do que lhe acontecia, pois ele nunca entenderia. Ele, com sua vida perfeita e problemas banais nunca poderia compreender o que é, de fato, considerar o suicídio como a melhor alternativa.

Ela gostava muito dele. Pensava frequentemente em lhe contar sobre sua vida, sobre o que passou e o que passava. Mas como poderia explicar que sua mãe é repressiva, controladora e louca e que ela mal tinha sanidade e se escondia em livros para suportar uma realidade enclausuradora? Como ela poderia se entregar inteira se sabia que ele nunca entenderia, que nunca aceitaria conviver com seus meandros, com seus tons de cinza, com sua vida ferrada?

O livro que Anita estava lendo, aquele livro que fora rasgado por sua mãe, falava de Veronika, uma jovem que decidira morrer. Tomou pílulas para tal, mas apenas conseguiu um atestado de insanidade - foi parar em um hospício - e um dano irreversível no coração, que a faria morrer em poucos dias e com muita dor. Ser livre, de fato, é loucura. O universo parece ter algo muito sério contra pessoas que querem ser livres e controlar suas vidas, controlar o rumo que tomam. Anita sabia bem disso e decidiu que - por mais que a janela de seu quarto lhe chamasse, por mais que os ventos cantassem uma canção mortal - não tentaria morrer. Ela sabia que já havia feito isso e que levara anos até que a fama de louca se tornasse apenas uma piada de mal gosto.

Ligou para seu pretendente, mas, antes que ele pudesse atender, desligou. Pensou em marcar um encontro naquela mesma tarde e deixar de lado os ensinamentos cristãos de sua mãe, entrar em algum tipo de orgia, fazer o que fosse preciso para desvincular-se de uma vez por todas de tudo o que lhe fora incutido por sua mãe, de preceitos arcaicos cristãos, machistas, que nada tinham a ver com o que fora ensinado por Jesus - amar ao próximo como a si mesmo, não fazer aos outros o que não quer que façam para si. Pensou em transgredir com todas essas regras suspensas de vida cristã, mas parou. Ela apenas faria mal a si mesma, à sua frágil alma, à sua mente confusa e delicada, que fazia força extrema e lutava contra si mesma para preservar um mínimo de sanidade possível. Não seria louca. Não faria jus ao que diziam dela. Não, ela não daria esse prazer aos outros. Anita era tudo, menos sentimental. Ela sabia muito bem das consequências de seus atos e aprendera desde cedo a se defender, camuflar sentimentos e manipular situações.

Tudo que desejava era ter uma vida normal e calma. Mas ela sabia que isso nunca seria possível. Abriu a janela novamente. Subiu no telhado, sentiu o vento bater em seus cachos castanhos, ouviu a voz que lhe chamava para o abismo e teve novamente a vontade de ser fraca. Se entregou. Finalmente caiu. Acordou atada em sua cama, com sua mãe rindo ao observá-la da porta, debochando por ela ter falhado até mesmo nisso. Decidiu morrer, mas era tarde demais.
A ignorância seria, de fato, uma bênção.

13 comentários

  1. Eai guria, to participando de uma campanha de incentivo a leitura.
    Você não deve conhecer meu blog, mas eu conheço o seu e te indiquei.
    Caso queira participar, clique no link abaixo para saber mais.
    Obrigada.

    http://funestoetoxico.blogspot.com.br/

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  2. Acho que Anita deveria ser rebelar, deveria peitar o que ela acha injusto e não só chorar, ficar no canto do quarto chorando. Tem que peitar a mãe, tem que mostrar que ela está errada e muito errada. Se possível, quando tiver chance, seguir seu próprio rumo, ter seu próprio canto, sair da aba da saia da mãe. É difícil, é, mas mais difícil é viver numa vida assim, de opressão e tristeza. Acho que muitos casos de opressão poderiam ser extintos se os oprimidos não fossem tão passivos. É preciso se revoltar contra o que a gente acha iníquo. É necessário dizer ao opressor "Não, eu não farei as coisas do jeito que você quer que eu faça. Farei do meu jeito.". Não se pode calar diante de uma opressão. Não mesmo. Seja lá quem for o opressor. É assim que penso.

    Um abraço, Mia!

    Sacudindo Palavras

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  3. Nossa, que belo texto, Mía. Muito subjetivo e consequentemente sofrido. A alienação é um problema em nossa sociedade. A alienação da mãe de Anita, fê-la sofrer e causou-lhe danos psíquicos. A imposição de ideias de uma classe 'superior' sobre a 'inferior', causa tudo isso. E quando a pessoa tem a oportunidade e a vontade de querer encontrar outro caminho, exercer sua liberdade, ela é barrada.

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  4. Lindo teu texto, cada palavra descrita, a sua forma de escrever sempre única e incomparável,acho que a leitura é mais que uma forma de conhecimento, novos mundos e viajar, auto conhecer se e aumentar a sua cultura.
    A atitude da menina de chorar quieta, em silencio no seu quarto, foi a opção do momento do que debater algo que talvez não adiantaria nada (...)

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  5. Que perfeito, Mia. Anita é uma garota que procura somente viver sua vida, se enterrar nos livros para tentar fazer disso realidade, mas que é impedida até mesmo de sonhar por causa de sua impiedosa e ignorante mãe. Mas sorte da mãe pois, como você mesma disse, a ignorância seria uma bênção.
    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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  6. E O PRÊMIO NOBEL VAI PARA :::::: MIA \O/
    Que lindo, Mia, q lindo. Tô perplexa ;-;. Humilhando todos nós, uahuah x). Dorei, doro teus textos :3
    beawzo,
    its-becky.blogspot.com

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  7. Nossa Mia, que texto foi esse? o.o Simplesmente perfeito. Adorei :3

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  8. Ola Mia, tudo bem?
    Que texto!!! Não enho palavras para descrever, mas acredito que as vezes há uma chance de tentar fazer as coisas darem certo, de que alguns sonhos podem se tornar realidade apesar de tudo.
    Mas o que mais me deixou triste nesse texto é saber que isso não é apenas um texto, que infelizmente acontece de verdade.
    Abraços,
    Amanda Almeida

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  9. Tava sentindo falta dessa beleza de blog, e dessas maravilhas de textos ..
    cada dia escrevendo melhor .. e esse texto ?
    deve ser difícil viver com essa intolerância.. eu sou evangélica, mas por opção e nunca passei por isso ..

    http://leideanediniz.blogspot.com ;*

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  10. =O
    Que mãe bruxa é essa? Ainda mais com um livro tão normal... Enfim, fanáticos são fanáticos, né?
    Me deu pena da guria, não sou muito fã de suicídio, mas cada um faz o quer da vida, ora.
    Você podia escrever mais contos desses, hein? Me gusta essas coisas sombrias *o*
    ;*

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  11. Como você escreve bem, bo sorte com a vida.
    www.reindicando.tk

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  12. Heeey, quanto tempo não passo aqui! (mentira, eu li os últimos posts mas deixei pra comentar "depois" e "depois" não soube disciplinar meu tempo entre faculdade e passeios D:) Em primeiro lugar, achei fantástica a tua idéia de irmos juntas na Feira do Livro, é um passeio super legal e acredito que várias blogueiras estejam interessadas no passeio/em livros também, ótimo programa :D Pena que vai demorar quase um ano até a próxima, haha. O que a gente podia fazer antes disso é se encontrar na Livraria Cultura ou outro lugar do tipo. Tomar um café, sei lá, ashduiasdhua

    Quanto ao seu texto, achei o muito bem escrito (como de costume) e incrivelmente denso. É difícil falar sobre suicídio de uma forma que "envolva" o autor, e seu texto conseguiu isso, ainda mais por tratar de temas como a intolerância e "superioridade", coisas que infelizmente são bem comuns no dia a dia. Uma coisa que me entristece também, é que por mais que essa situação da mãe rasgar o livro pareça ser coisa de épocas passadas, infelizmente é uma situação bem real. Não é nossa geração e não tem nenhum contexto religioso haha, mas a minha tia, por exemplo, falou que a minha vó dizia para ela não ler demais, se não enlouquecia. Enfim, adorei seu texto, parabéns pela boa abordagem do tema e escrita ♥

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net





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