Síndrome de Magali

Visualizem a cena: intervalo do curso (15 minutos), meu estômago fazendo barulhos horrorosos e uma tempestade do inferno caindo sobre as ruas de uma metrópole agitada. Isso num cenário "se houver amanhã", numa vibe toda Sidney Sheldon, pré-apocalíptica. E eu, ao invés de me preocupar com a ventania e chuva abundante, estava mais preocupada em qual trajeto seria o mais rápido e menos molhado para comer algo. Porque, senhores, eu tinha um objetivo: gordice. Encasquetei de comer um wafer de chocolate triplo. Por quê? Porque minha alma de gorda ansiava por isso há muito sim.

Peguei nas mãos dos meus dois amigos - Rafaela e Fernando - e fui para fora do prédio do curso decidida a entupir minhas veias com gordura hidrogenada. Havia parado de chover um minuto antes de eu decidir sair. Pensei comigo mesma que talvez - só talvez, sabe? - Murphy tivesse tido pena de mim, do meu vestido de renda, dos meus cachos caídos pelos ombros, da minha maquiagem mal produzida e da minha rasteirinha tão aberta e propensa a acidentes. Mas é claro que Murphy nunca teria misericórdia de mim, senhores. E, um minuto após eu ter saído, desabou mais água do céu de Porto Alegre do que desaba durante meus banhos. Mas, como fui criada na filosofia do "desistir nunca, render-se jamais" (Van Damme manda abraços, crianças), eu não iria voltar. De forma alguma. Só voltaria após atingir meu objetivo: gordice.

Devo dizer, senhores, que, em um trajeto de uma quadra e meia, eu levei quase 3 tombos (quase porque Fernando estava lá, e, juro, senhores, eu não desgrudei do rapaz até parar de caminhar), esbarrei em umas dez pessoas, tenho praticamente certeza de que derrubei o brinquedo de um garotinho e dei, no mínimo, uns quatro gritinhos (sim, gritinhos, pessoas, porque tenho uma voz de menininha de 5 anos) por conta das enormes poças d'água, que mais pareciam pequenos laguinhos contendo Ness, pronto para me atacar a qualquer sinal de deslize.

Na metade do caminho para o paraíso, a chuva ficou extremamente forte e fui praticamente forçada a parar. Como meu estômago não parava de se contorcer, tive de me contentar com um hot dog (divo, pelamor, cheio de batata palha ♥) e não pude prosseguir com meu plano de dominar o mundo me encher de chocolate.
Voltei ao curso. Estávamos encharcados. Parecia que havíamos sido retirados do rio Guaíba, tamanha era a quantidade de água que pingava dos nossos corpos divos. Mas, claro, as pessoas no prédio do curso não faziam ideia disso, e, ao nos verem, falaram entre si:
- Bah, tá chovendo, né?
- Tu viu o que o carinha disse, Mi? Ele disse que tá chovendo. Dã...
- Chovendo? Capaz... É que todos na rua resolveram cuspir em mim, sabe? É a vida.

Após isso, fomos - Rafa e eu - para o banheiro com espelho redondo. O que vi lá, senhores, foi o reflexo pós-apocalíptico, algo que fazia jus ao apelido de Samara Morgan que conservo com muito orgulho.
Após isso, me recusei a voltar para a aula, senhores. Sim, porque, encharcada do jeito que estava, com uma fome do cão e com o ar condicionado numa vibe Sibéria, só resultaria em algo: uma bela duma pneumonia para a senhorita Sodré.

Voltei para casa. Com vontade de doce, porque, se há algo que há em mim, senhores, é uma tal de síndrome de Magali: pareço um poço sem fundo quando se trata de dias felizes. E sim, pessoas, eu estou feliz. Muito feliz. Extremamente feliz. A ponto de sair em meio a uma tempestade, e, ao invés de reclamar, apenas me imaginar em "Singing in the rain" e dar gargalhadas enormes no meio da rua. Feliz a ponto de não me estressar com calorias de gordices. Feliz a ponto de viver sem pensar nisso ou naquilo, ou nos rapazes idiotas que aparecem na contramão da minha ferrada vida. Feliz porque tenho amigos que correm na chuva comigo.
E foi nessa felicidade que encarnei a Magali e comi metade de uma melancia quando cheguei em casa. Porque, senhores, há horas na vida em que apenas doces resolvem. E uma trilha sonora de acordo, obviamente.

Lhes apresento meus verdadeiros amores: melancia e gordices ♥

15 comentários:

  1. Cara, tu consegue fazer até de um ~passeio~ na chuva um post legal, ashdiausdha XD

    Eu também peguei a chuva de hoje, estava um dia normal até o momento em que eu perdi a lotação (vi ela passando logo na frente ToT) e em questão de minutos começou o apocalipse. É, minha história não é tão legal quanto a sua, rs.

    Beijos (:
    http://finding-neverland.zip.net

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  2. Tô praticamente sem palavras. É nesses dias que viver vale a pena. <3

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  3. Porque só a senhorita Sodré, pra fazer do cotidiano um texto incrível.

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  4. Quem imaginaria que acontecimentos assim se transformariam em um texto divertido como esse?
    Simplesmente adorei!

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  5. "pareço um poço sem fundo quando se trata de dias felizes. " Eu pareço um poço sem fundo SEMPRE que chego perto de comida gostosa :3
    Comer é uma das melhores coisas da vida, e a Magali é uma diva. E tem um gato :3
    Amaaaay o texto, muito bom :D
    Beijos!
    (Fiquei com vontade de comer waffer. E só tem sabor limão aqui.)

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  6. É incrível como você transforma acontecimentos da sua vida em textos muito divertidos :)
    Amei!

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  7. Suspeito que o teu cursinho seja lá pela Salgado Filho ou em lugares piores. Sei bem como é estar na rua, com fome, num dia de chuva - e sei como é estar ensopada E ter aula com ar condicionado em temperatura polar.

    Atchim!

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  8. Quando vi o título lembrei da minha tia, que me apelidou de Magali quando eu era menor- por que será? hsuah Encontrava alguém que comia mais que eu na família e eu te dava um prêmio:)
    Muito divertido seu texto, Mia.
    Posso dizer que a combinação Porto Alegre+ Chuva não me trás boas lembranças¬¬ Pense eu, bem eu, em um estado mortal de sonolência, completamente encharcada- na Usina do Gasômetro (?). Em uma quarta-feira. Antecedendo feriado. Coincidentemente. Com pessoas que, pense bem, provavelmente não vão com a minha cara (Quem vai?) Enfim, simplesmente não é uma combinação muito boa.
    E fim da minha lembrança patética e tediosa.
    Fico feliz que você esteja feliz e acostumada com uma capital chuvosa ;D
    Beijo,
    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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  9. rsrsr tbm tenho essa sindrome. as vezes acho que sou um poço sem fundo. rsrsr

    mas nossa, o que vc passou ngm merece hein?

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  10. MELANCIAAAAAAAAAA!
    Compartilho, Mia! HAHAHAHAHA
    Por que não tem foto de Samara-gata-molhada? Podia ter, né? Não que eu goste de ver desgraça alheia, não...
    hahaha

    ;**

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  11. E ainda fechou a aventura sublimemente descrita com esta bela canção legiônica...
    Adorei...rs
    Abração!

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  12. Adorei Mia, ri muito da situação e me vi muito no texto. hauahua

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  13. Mia, adorei seu texto estava com saudade de suas aventuras e belos textos!
    Bom acho independente do tempo, mesmo que seja abaixo de chuva é, ai que dá vontade de mais gordice seja procurar para comer, chocolate, cachorro quente, etc *-*
    Mas o que seria da vida sem estas pequenas loucuras? haha :P
    E sempre é hora para comer algo que nós dá vontade se é possível!

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  14. Adorei! hahaha Que bom que você tá feliz, Mia! :D
    E eu também sou assim, infelizmente. Agora então que tem um monte de festa? *-* Fiquei uns 2 dias de cama essa semana, depois fui pra uma festa, enfim emagreci um pouco, vou poder comer bastante gordice ♥ hahaha
    beijos, feliz natal :D

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  15. Nossa, somos duas! Sou super Magali, amo melancia, amo comida, hahaha! Ainda bem que sou alta, senão estaria enrolada.

    Beijos!

    P.S: Amo essa música da Legião!

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Wink .187 tons de frio.