As estrelas são culpadas

Meu problema com livros como A Culpa é das Estrelas é que eles costumam ser feitos para o comércio. E isso me repugna porque eu acredito na escrita pelo amor à literatura, acredito na escrita como a paixão de um sobrevivente de guerra que nem acredita que está vivo, mas que vai se acostumando e perdendo o encanto pela vida aos poucos e apenas entrando no marasmo do cotidiano como todos nós, pessoas que nunca estiveram em uma guerra.

E eu pensei isso até o capítulo dezesseis - feito para ser comercializado. Até que tudo mudou. Porque viver com uma doença não muda nada - todos vivemos com algum tipo de doença. Uns com a doença do stress, outros com doenças físicas, outros com a ingratidão, a miséria, a falta de amor. Mas todos temos nossas doenças e no final das contas todos podemos ser classificados como indivíduos ferrados de alguma forma, o que realmente faz diferença é a forma como lidamos com nossas dores. E eu realmente não acho que as pessoas mereçam medalhas por lidarem bem com suas doenças. É o mínimo que podem fazer por si mesmas - ninguém pode fazer isso por nós a não ser nós.

Mas aí ele morre.
E eu não vejo isso como um spoiler porque, veja bem, a morte não é um spoiler. A morte é a única certeza que temos nessa vida. Ainda mais a morte em um livro que fala sobre pessoas com câncer.
E o que me fez mudar de perspectiva a respeito do escrito do senhor Green não foi o fato de um garoto com câncer morrer tampouco a forma como isso ocorreu - tudo muito previsível, diga-se de passagem. Mas, sim, a narrativa. Como há em uma passagem após a morte do rapaz que diz algo como "então acordei na outra manhã e tudo parecia muito bem, até que senti o peso do que havia ocorrido e tudo estava terrivelmente mal e perdido". E isso acontece nas diversas pequenas mortes que vemos todos os dias. Não apenas mortes físicas, mas mortes de esperanças, de sonhos, de oportunidades, de idealizações. Mortes de almas.

E ela fica. A moça - que também morrerá, sem dúvida - permanece.
E então imaginei: como eu lidaria com a morte do amor da minha vida? Como eu lidaria se descobrisse que a pessoa que mais amo, com quem almejo passar o resto dos meus dias, está morrendo de câncer? Foi aí que percebi que estamos todos morrendo. Não estamos? Não sabemos quando ou como, mas é certo que um dia ele morrerá, eu morrerei, ninguém lembrará de nossas palavras ou do meu blog, meus diários, as coisas que escrevo por aí.

Mas eu tenho a coisa mais preciosa: a certeza de que toquei verdadeiramente o coração de alguém e deixei minha marca nele. Mesmo que eu não venha a me tornar um Van Houten e não tenha um livro que dure pela eternidade eu sei que há uma alma que se lembrará de mim para sempre. E que estou morrendo. Ele está morrendo. Todos nós estamos morrendo.
Porém morrer faz parte da vida e não precisamos viver para sempre - desde que vivamos o para sempre como nosso hoje.

Não é apenas um livro escrito pra que adolescentes chorem.
E sim, alguns infinitos são maiores que outros. 

8 comentários

  1. A culpa é das estrelas pode parecer um livro comercial, já que alcançou tudo o que alcançou. Mas não dá pra negar que tem uma energia incrível!

    ResponderExcluir
  2. http://www.amountofwords.com/2012/07/quem-e-esther-grace-earl.html
    Pega o lenço just in case.

    ResponderExcluir
  3. Não gostei de ACEDE por n motivos, mas acho que o maior deles foi porque eu não consigo ver essa beleza triste na morte, pra mim essa história foi apenas trágica de um jeito que sei lá... Eu já perdi dois familiares pro cancer, ambos já casados com suas melhores metades já há anos e não existe beleza, nem poesia, nem heroísmo na morte e argh, eu só li dois livros do João Verde, mas esse definitivamente é o meu menos preferido. Mas gostei da tua analise, é bem por aí mesmo..

    beijos

    ResponderExcluir
  4. O que eu gosto nos livros do John é justamente essa capacidade de tratar coisas naturais, banais e passáveis sob uma perspectiva reflexível que plante uma sementinha de uma nova perspectiva de vida nos leitores, sabe? Podia ser uma história sobre câncer como as de Nicholas Sparks, repletas de drama romantizado e um blablabla intermitente, mas acaba sendo uma coisa que podia acontecer com qualquer um e que é contada de uma maneira tão sincera e palpável que nos faz repensar várias coisas sobre nossa forma de lidar com o que nos cerca. É isso que me encanta e me choca nele e me dá vontade de ler algo dele todas as vezes que fico desiludida com a vida, porque ele me ajuda a pensar sobre ela e tirar conclusões construtivas à respeito, o que, para pessoas instintivamente destrutivas como eu, é mais que benéfico.
    Abraços!

    ResponderExcluir
  5. Acho que sofro do mesmo preconceito, sabe? Quando escuro milhares de pessoas comentando sobre determinado livro/filme me vem uma fadiga de assistir, primeiro porque me encho de expectativas (que consequentemente acabam sendo frustradas) e depois porque ouço um enredo superficial da história tantas vezes que acabo enjoando, e perdendo o interesse de conhecê-lo profundamente. A questão da morte, é algo complicado... São como grandes asas negras que se encontram em nossas costas. Nós temos consciência de que um dia elas irão se fechar e nos levar do mundo, mas torna-se extremamente mórbido viver sem ignorar esse fato. Pelo menos pra mim.

    Beijos =*

    ResponderExcluir
  6. Sofro do mesmo mal, sabe? Tenho uma certa fadiga que conferir uma obra muito comentada, porque de tanto ouvir sobre o enredo acabo enjoado da trama ou, por outro lado, crio um monte de expectativas sobre ela e acabo me frustrando depois. Morte é algo engraçado. É como uma visita que sempre anuncia que está chegando, e a qual cremos que irá se atrasar. Quando menos esperamos, ela aparece na porta de casa.

    Beijos =*

    ResponderExcluir
  7. Sinceramente... Já havia gostado bastante do blog, e depois desse texto, sem sombra de dúvidas entrou para a minha lista de visitar todos os dias!! Mia você consegui colocar tudo aqui-lo que passou pela minha cabeça (quando li o livro)nesse texto extra,mega perfeito! Comecei a seguir o blog!

    xx
    e-ternaaprendiz.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  8. Eu li esse livro porque todo mundo estava comentando e eu me senti muito por fora. Li em um dia e ri, chorei, ri, chorei. Não dá pra explicar, sabe?
    Mas é verdade tudo isso que você falou. Acho que o que rola com ACEDE é empatia. Green diz coisas óbvias, que estão na nossa cara, mas que nós não vemos e, além disso, nos faz refletir.
    Já leu O teorema Katherine? Fiz resenha lá no blog.
    Bjs!
    www.doceilusao.com/

    ResponderExcluir