Do abismo que chama


Um a um eles corriam. A fila de meninos franzinos sendo desafiados pelo abismo não era muito grande, mas grande o suficiente para amedrontar qualquer um que pensasse em desistir. Um a um eles se entreolhavam. Suas faces pálidas ruborizavam ao serem indagados sobre quem seria o primeiro a pular. Um a um eles temiam; suas mãos gélidas e cadavéricas repousavam nervosamente sobre seus peitos e estavam atônitos por seus corações baterem tão depressa em corpos em repouso.

O menino maior - o chefe do clã -, ao ver o mais franzino deles suar frio perante o abismo, disse:
- É você o primeiro. Vá.
- Não, não, não serei eu! Eu sou o menor e prefiro ver você tentar primeiro.
- Não seja burro! Eu sou o líder aqui, não preciso disso.
- Mas por que eu? Eu vou morrer lá, todos nós vamos.
- Vença seu medo e prometo que vencerá a morte.

Ele foi. Seu corpo franzino deu passos lentos e medrosos em direção ao abismo. O vento era tão forte que parecia querer sugá-lo para a morte. Mas talvez a morte por ter coragem não seja tão ruim quanto a morte por ser covarde. Ele foi e saltou, a uma velocidade tremenda. E todos se calaram. Após alguns minutos eles foram encarar o abismo para tentar achar ao menos os restos mortais daquele menino.
Não acharam nada.

- Mas ele sumiu então?
- Sim, ele sumiu.
- E não procuraram por ele?
- Procuraram, porém nunca o acharam. Ele queria se esconder. Aproveitou a deixa para sair daquele local.
- Mas, se nunca o acharam, como você sabe disso?
- Porque o menino era eu.
- Você? - Angel e Gabrielle falaram em uníssono
- Sim, eu mesmo.
- Mas... como você sobreviveu?
- O abismo não era um abismo. Era apenas um penhasco com águas doces. Com um impulso que durou um átimo, eu caí em queda livre, e enquanto caía, o aperto no coração foi sumindo, e só pela liberdade da queda, aquela ação já tinha valido a pena. Naquele momento eu sabia que havia me libertado e sabia que, se voltasse, minha vida seria pior do que antes. Tive sorte de viver, mas não me arrependo de quase morrer.
- Uau...
- Agora, vão para a cama, crianças. Amanhã a tia Lizzie vem nos ver, e vocês não querem estar cansados demais para ela, não é? Então. Sonhem com o abismo, crianças, e ele cuidará de vocês.

4 comentários:

  1. Os erros que mudam nossas vidas. Lindo como sempre Mia!
    Talvez seja um sentimento egoísta dizer que fico muito feliz por você ter reaberto o blog porque você disse que só o faria se precisasse muito de um lugar para desabafar... Espero que esteja tudo bem, e é sempre uma alegria ler algo seu. Beijos!

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  2. Em primeiro lugar...Feia! Boba! Chata!1!!1!
    Eu constantemente atualizando o Wink pra ver se a Srta. voltava e daí descubro outro blog cheio de novas postagens e mistérios não desvendados da Mia T__T Podia ter divulgado né :P

    Estava com saudades dos seus posts, das anedotas dos seus dias (se bem que tem algumas no fb mas né, blog é mais completo rs) e principalmente, dos seus textos. Como sempre, este conto está muito bom, a gente realmente tem que pensar no significado.

    Beijos, Vickawaii :3
    http://finding-neverland.zip.net
    https://www.facebook.com/BlogFindingNeverland

    P.S - 50 livros, cruzes o.o Queria ser como você >_>

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  3. Cara, na real, espero que alguns textos sejam apenas textos ou que você use 'licença poética' exagerando alguns fatos. Espero que tu fique bem lol

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  4. Lindo o texto, diz muito sobre a gente precisar arriscar mais. Parabéns ;)
    Beijos

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Wink .187 tons de frio.