Crônica da morte de um amor

Você mora embaixo da minha caixa de Ibuprofeno.
Cada vez que dói, vou lá. Um, dois, três comprimidos. Nunca levanto a caixa, apenas acrescento mais e mais coisas. Removê-las nunca foi o meu forte. Você mora embaixo de minha caixa de Ibuprofeno porque transferi meu coração para os estudos médicos. Ninguém entende, todos pesquisam, conclusões não são tomadas. Como é possível andar com o peito vazio, com a alma morta, como é possível ser casca, ser oca, e continuar? Como é possível caminhar sem um coração no peito, sem alegria, sem vontade, sem emoção? Como é possível tornar-se um depósito de remédios e livros alheios? Ninguém sabe, ninguém saberá.

Fazia dias que eu não chorava.
Não sei se foi a dor profunda nas entranhas, o cinza da cidade melancólica, o senhor com tuberculose ao meu lado ou as músicas da Legião Urbana. Sei que vi pontinhos brilhantes mancharem de um tom vivo meu casaco vermelho. Sei que vi meus verdes olhos tornarem-se encharcados e reticentes. Sei que vi pessoas me olhando como se eu fosse de outra realidade. Talvez eu seja.

A morte de um amor deve ser sentida.
Deve haver o luto. Deve haver a dor. Deve haver o lamento.
Gabo escreveu que:
Certa vez ele dissera algo que ela não podia conceber: os amputados sentem dores, cãibras, cócegas, na perna que não têm mais. Assim se sentia ela sem ele, sentindo que ele estava onde não mais se encontrava.
Hoje chegou um livro pelo correio. Nele, há uma dedicatória muito querida de um rapaz para uma moça, dizendo que estava feliz por passar mais um dia dos namorados com ela. Claramente, não passarão mais dias assim. É muito triste olhar o que fica e perceber que há pouco havia algo que nunca mais haverá. Então nos desfazemos das lembranças, cortamos o passado e deixamos apenas um retalho esfarrapado dos dias que já se foram. Se torna rotina abrir o editor de fotos para apagar a aliança das recordações, para desmembrar aos pouquinhos o que sobrou. Se torna rotina sorrir e aprender a ser educada quando as pessoas dizem "vai passar". Se torna rotina se segurar para não ter outro surto porque "querida, você tem de continuar". A morte é questão de rotina.

Não quero mais acordar no meio da noite sentindo a falta de um membro perdido. Não quero, mas sinto. É engraçado que existam pessoas que ainda não sabem e me perguntam onde você está. Eu não sei onde está, tampouco quero saber. Deveria haver um tempo limite para o luto. Certamente, eu já ultrapassei o meu. Mas ainda estou enlutada. E talvez assim fique durante o resto de minha vida.

Espero que não.
Espero que você logo não mais more debaixo de minha caixa de Ibuprofeno mas, sim, num lugar chamado Esquecimento.

Via Magra de Ruim 

3 comentários:

  1. Vi você postando no Facebook sobre o senhor com tuberculose e sobre a dedicatória do livro. "Normal". Não imaginava que duas situações "normais" do seu cotidiano se tornassem um texto tão rico e impactante. Parabéns, Mia.
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    Mas acho que você viu pela perspectiva errada!!! Quer dizer, lendo eu concordo com você e fico realmente chateada quando algo que foi tão importante para a gente se torna apenas uma lembrança, ainda mais quando essa lembrança é 'jogada fora', como foi o caso do livro. Mas aconteceu quase a mesma coisa comigo: abri um livro e tinha uma carta de amor. E sabe o que me ocorreu? Comecei a pensar quem seriam aquelas pessoas, como elas se conheceram, o que elas faziam e como foi a história de amor deles!!! No final eu fiquei com uma sensação boa, fiquei pensando que era bonitinha aquela carta e como o cara gostava dela. Talvez fosse isso que a senhora devia pensar

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

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    1. Eu fiquei tentada a procurar essas pessoas para saber se elas foram/são felizes, sabe? Deu um aperto no coração...

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  2. Fazia tempo que não lia algo tão bonito.

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Wink .187 tons de frio.