O final absoluto

Anteontem, durante a 14ª vez em que assisti a Patch Adams, lembrei de algo que minha professora de Biologia havia dito: quando perdeu seu amor da vida, sem mais, nem menos, ao invés de ficar lamentando pelo amor perdido eternamente, resolveu doar aquele amor em trabalhos voluntários, dar todo aquele amor para crianças, jovens, adultos que precisassem de amor em suas vidas. Ora por conta de doenças fatais, ora por conta de lesões cerebrais. E aquilo mudou sua vida.

É basicamente sobre isso que Patch Adams fala: mudança de foco em benefício de outrem. E eu me peguei pesquisando organizações que precisassem de voluntários para... qualquer coisa. Então, é claro que levei um choque ao saber ontem, no fb, que Robin Williams, o ator que interpretou Patch, havia morrido por conta de um suicídio.

Flerto com o suicídio há um bom tempo. Tempo suficiente para saber que a pessoa suicida não é covarde, pelo contrário. Tampouco lhe falta amor próprio. O que a pessoa suicida tem é um amor próprio tão grande que lhe parece impossível continuar a viver uma situação que não deveria estar acontecendo e que, por x ou y, não há como mudar. Eu não sou uma pessoa depressiva, tenho momentos depressivos, apenas momentos de tristeza e dificuldade (como todo ser humano tem, mas parece que as coisas se intensificam em tais momentos e tudo vira um abismo profundo onde a única saída é para baixo). E, é claro, às vezes a ideia do fim absoluto me vem à mente. Mas parece que o Robin era uma pessoa depressiva. Eu não sou psicóloga, nem me interesso por Psicologia - apesar de já ter estudado muito Psicologia Infantil -, mas sei que muitas pessoas levam a depressão como algo fácil de ser superado. Não é.

Acompanhei a filmografia do ator, mas não sua vida pessoal. Não sei ao certo o quanto isso o influenciou, não sei as questões - acho que pouquíssimos sabem, inclusive. Mas sei que muitos de meus filmes favoritos são dele. Porque ele aparentava ser o tipo de pessoa que passava a imagem do "não desista, siga em frente, a vida é bonita". E talvez realmente passasse tal imagem também na vida pessoal, até porque eu acredito que um artista não é apenas uma representação, mas é também sua obra.

E foi isso o que mais chocou. Perceber a fragilidade do ser humano, da mente, do espírito, da linha divisória entre o suportável e o insuportável. Não estou aqui para endeusá-lo apenas porque morreu - longe de mim isso. Mas estou aqui para dizer que se não nos cuidarmos (e eu estou inclusa nesse "nos"), acabaremos assim também. Se o ator cujos personagens inspiraram a tantos a, justamente, ter fé no amanhã, melhorar o hoje, acreditar na esperança de dias melhores, se ele sucumbiu por si próprio, o que será de nós? Tantas pessoas boas morrendo por suas próprias mãos... é uma pena, uma grande pena.

(E quando essas coisas não fizerem mais sentido, permaneceremos vivos pelo quê? Eis a questão.) 

Há um livro chamado "O céu dos suicidas". Não sei sobre o que se trata, ao certo, mas sei que - independente de religião, afinal, não sigo nenhuma - espero que ele e tantos outros (talvez nós, daqui a algum tempo) encontrem sua paz num céu, no final absoluto ou em outra vida. 

5 comentários:

  1. Me arrepiei muito com seu texto, sincero e direto. Também tenho momentos de tristeza profunda e como você mesmo disse, tem que ter muita coragem para tirar a própria vida. Amava todos os filmes dele, e fiquei bem triste com a notícia. Que de fato, ele encontre paz agora, se era isso que lhe faltava.

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  2. O grande problema do suicida é justamente crer no tal fim absoluto... que por sinal não existe. Logo, fica difícil afirmar se é um ato de covardia ou de coragem. Basta procurar um pouco que você acha muita coisa a respeito deste delicado assunto que, apesar de tudo, é fascinante. Depois é estudá-lo sem preconceitos, sem amarras...
    Muitos falam com certo desdém (ou receio) de obras espíritas -como se fossem tendenciosas- mas qual outra ciência/filosofia/religião aborda tal matéria com tanta propriedade e sem fantasiar? Recomendaria muito a você o clássico "Memórias de um suicida", o raro "O martírio dos suicidas", além dos modernos "Suicídio - O futuro interrompido", "Suicídio - Falsa solução!" e Suicídio - A sombria trilha da ilusão".
    Lamento muito pela decisão de quem chega ao ponto de crer que essa é a única saída de um momento extremamente ruim da vida... Tanto de grandes personalidades quanto dos incontáveis desconhecidos que deixam de viver por esse caminho.
    Beijo grande!

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  3. Mia, Mia, Mia...Que texto bem escrito e reflexão impactante. Não consigo responder sua pergunta final, é realmente irônico um ator que nos ensinou a aproveitar cada dia, a viver intensamente e enxergar o lado bom das coisas morrer desse jeito. Mas Mia, obviamente você sabe, mas esse flerte com o suicídio é perigoso. Não sei se concordo com essa coragem toda. Concordo, aliás, com tudo que você disse, mas concordo com o Flávio em não existir fim absoluto. Você pode afirmar que não existe vida após a morte, que não existe céu, reencarnação...Pode não existir vida após a morte para você: mas para as pessoas ao seu redor sim! Elas vão continuar vivendo mesmo após você morrer, entende? E elas vão sofrer com sua morte, por isso acho que é um tanto egoísta. Além do mais, tem várias e várias pessoas que conheceria se estivesse viva, tem várias oportunidades, vários livros para ler, várias chances de mudança que estariam perdidas.

    Eu não sei responder sobre o Robin Williams, se ele realmente não tinha como suportar, se ele tava de saco cheio, se ele foi corajoso ou medroso: só sei que eu fiquei triste com a morte dele, justamente por tudo que ele representava. Mas acho que esses valores que ele apresentou não podem ser desperdiçados ou contrariados por ele ter cometido suicídio (aliás, é certo que foi isso?), porque apesar de tudo, acho que a vida vale a pena.

    Beijinhos, continua reflexiva, contestadora, inquieta e escrevendo esses textos maravilhosos que você faz, mas tira essa ideia da cabeça rsrsrs

    http://finding-neverland.zip.net

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  4. Eu confesso que o pensamento suicida, ocasionalmente, ronda minha cabeça quando uma indissociável melancolia me consome, um desalento das pessoas e do mundo, uma impotência por não conseguir viver do jeito que desejo. E, repentinamente, não vejo mais sentido em nada, porém eu não tenho essa coragem e esse egoísmo.
    Muito interessante seu texto, eu também fiquei atônito com o suicídio do Robin Williams, um ator que sempre admirei.

    "Um homem foi ao médico, disse que sofria de uma depressão profunda e que não via motivos para viver mais. O médico o aconselhou a ir ao circo ver o show de um palhaço que havia chegado à cidade. E o homem disse:

    - Doutor, eu sou esse palhaço."

    Beijos, prazer...

    O Mundo Em Cenas

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  5. Eu vejo no suicídio apenas uma saída paliativa dos problemas. Não é absolutamente nada "libertador" → isso só é um eufemismo, tu pega, morre, as pessoas choras e move on.
    Quanto artista que se matou e gente nunca mais se pega chorando e lamentando? Artistas que nos influenciaram, diga-se de passagem. Se nem por eles lamentamos para sempre, imaginem por nós, meros mortais da classe trabalhadora.

    Existe outra coisa que aprendemos na fase adulta: a usar máscaras. Robin era um ator fantástico, mas estar num set de filmagens para interpretar um médico, um professor ou um funcionário psicótico de uma loja de fotos, tudo isso são interpretações.

    É muito simples estar em casa com a cara lavada, aos prantos, enxaguar bem o rosto e estar na rua com a máscara do "está tudo bem e sob controle, sou feliz." E pelo jeito Robin era uma pessoa assim...

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Wink .187 tons de frio.