Poema de fim de noite

Reza a lenda
e há quem não a conteste 
que o amor é para sempre 
e que nos favorece. 
Já eu, que cansada 
estou de tanto papo furado, 
que mal aguento minhas pernas 
e fico o tempo todo de lado 
acredito que o amor 
é a maior mentira humana 
pois de mal a mal se engana 
aquele a quem se ama. 
Se engana com um para sempre 
depois de um beijo 
- talvez ardente - 
se engana com um "eternamente 
vou te amar 
até que a morte nos separe 
e isso não há de falhar". 
E não falha, mas o que não menciona 
é que a morte não é a do corpo 
não é a da alma 
não é a do motor 
mas, sobretudo, é a morte do amor. 
É a foice deliberada 
que chega 
pobre desalmada! 
para acabar com o que nunca foi. 
Para desalentar a pessoa crente 
que achou que o para sempre 
duraria eternamente. 
O amor, essa bobagem 
só serve para iludir 
aqueles que no deserto estão 
e creem voluntariamente na miragem. 
Pois o deserto é muito quente 
e pensar que logo ali 
há água que sacia 
é algo enebriante. 
E eu, que gosto do deserto
eu que gosto da terra fervente 
que não vejo miragens 
pois me desatino em dores de dente 
eu, que caminho torta 
a passos de gente velha 
a passos de quem a alma 
já cansou da longa espera. 
Eu, que não sou boba 
aprecio a vista seca 
e espero, paciente 
a morte que nunca chega.

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Wink .187 tons de frio.