Stop the beauty madness

Este mês o Rotaroots propôs um tema superlegal: falar acerca do #stopthebeautymadness que é aquele projeto que consiste em muito mais do que um mero desafio de "poste uma foto sua sem maquiagem". É algo que trata a respeito dos padrões arbitrários que a sociedade nos impõe, do tipo "não é aceitável sair sem maquiagem na rua". Há quem não saia. E não acho que essas pessoas que enchem a cara de produtos devam ser crucificadas, porque todos nós passamos por uma pressão da ditadura da beleza.

Minha pressão começou aos 18 anos.
Até então eu não fazia ideia de moda, maquiagem, bonito/feio (na verdade no contexto bonito/feio continuo não fazendo ideia, já que raramente reparo se uma pessoa tem uma aparência legal ou não, mas isso se dá porque eu sou distraída e não consigo notar essas coisas)... Tudo começou com um "legal, você emagreceu, mas tá na hora de depilar o buço, a sobrancelha...". ~pausa para dizer que: emagreci por questões de saúde, já que eu não me considerava gorda, apesar de hoje perceber que sim, eu era enorme, mas aos meus 17 anos eu me achava lindíssima com 76 quilos e minha autoestima era bem melhor do que a que carrego hoje em dia, vinte quilos mais magra, inclusive~ Não, eu nunca havia tirado sobrancelha ou depilado o buço até dois anos atrás. "Que absurdo, onde já se viu?!" Gente, nunca dei bola pra essas coisas e DETESTO depilação com todo o meu pequeno ser de um metro e meio. Mas comecei a me depilar porque não queria chamar atenção. E eu chamava. Era a única garota da escola que não se maquiava, usava roupas esportivas (de moleque, porque é mais fácil pra fazer corrida) e, ainda por cima, não fazia o que o povo chama de ~cuidados básicos~, ou seja: depilação de buço/sobrancelha.

Então comecei a "me cuidar": maquiagem diariamente, até pra ir à escola, cabelo pintado (porque eu passei a me sentir feia naturalmente, minha autoestima foi pra o lixo e resolvi que tinha de mudar tudo para ficar bem, para valorizar meu "potencial"), roupas femininas e mais justas ao corpo, unhas longas, mega afiadas e super bem pintadas. Saía bonita nas fotos? Saía. Mas não saía bonita antes? Não me sentia melhor antes? Minha autoestima não era absurdamente alta antes? Era. Então, qual era o problema? O problema era que havia parado de me aceitar e deixado os mimimis alheios me influenciarem. E, não, não condeno quem vive sob o jugo da beleza produzida, até porque eu também já tive essa fase. Eu sei como é. E não é legal.

Cuidar de si mesma é ótimo. Há poucas coisas mais divertidas do que ir pra frente de um espelho e experimentar trocentas cores de batons (apenas para acabar usando o gloss rosa-avermelhado de sempre, risos). Mas não é diversão o que vejo por aí ou o que eu estava experimentando em minha fase "em busca da beleza perfeita". O que vejo é um bando de meninas de cara amarrada porque não conseguiram esconder as olheiras e julgando outras meninas por conta dessas mesmas olheiras mal-disfarçadas. Há algo de errado com olheiras? Bem, tirando os problemas de saúde que podem estar correlacionados a elas, não há nada de errado. Nada de inaceitável. Nada de "deuzôlivre se meu namorado me vir assim".

Dia desses me enviaram uma ask (no meu Ask.fm) dizendo que o dia em que meu namorado me vir sem maquiagem, de cara lavada, sairá correndo. E né? Ele me vê assim diariamente. Porque há quase um ano parei de usar maquiagem pra sair de casa (só uso em ocasiões especiais). Saio todos os dias às 5h e pouca da manhã pra ir ao curso (onde ele também estuda) e não, eu me recuso a me maquiar de madrugada apenas para esconder o fato de que, sim, eu sou uma pessoa real cuja pele é cheia de pintinhas, que tem marcas de expressão, que tem olheiras, que não tem uma boca naturalmente vermelha feito a Snow White, que tem carinha de sono logo pela manhã e alguns cravos no nariz. Faz parte de quem eu sou. E é assim que ele me vê diariamente - aliás, o moço nunca me viu arrumada, risos. Imagino que o dia em que ele me vir arrumada MESMO (ou seja: roupa mais bonitinha, sem ser a do dia a dia, maquiagem, penteado mais elaborado...) levará um susto.

Hoje em dia estou recuperando aos poucos minha autoestima. Parei de me preocupar tanto com peso (só me preocupo agora em mantê-lo por questões de saúde, já que não posso passar de x quilos, mas larguei de mão a obsessão por emagrecimento), deixei a cara completamente lavada, parei de tingir o cabelo e de tentar defini-lo (ele tem uma cor indefinida, sim, não é liso ou cacheado, sim, é todo cheio das indefinições, assim como eu mesma, por sinal), parei de usar saltos e roupas desconfortáveis apenas para me sentir aceita pelos outros.

Houve um tempo em que nem ao menos sorrir eu sorria, já que falavam que meu sorriso é grande demais, as gengivas aparecem demais, os dentes de menos (tenho dentes pequenos e arredondados, feito criança mesmo) e que tudo isso é muito estranho. Hoje em dia sorrio quase o tempo todo, sem ser aquele sorriso de meia lua, mas sim um sorriso de lua cheia, com vontade, sem tapar a boca com a mão para que ninguém visse a imperfeição do sorriso da pessoa que se recusa a fazer tratamento estético para diminuir a gengiva (nunca, jamais).

Não vou entrar no mérito de "sigam meu exemplo" porque cada um tem uma história, cada história tem seu próprio processo de desenvolvimento e há quem realmente lide bem com a pressão da beleza estereotipada, há quem se sinta bem usando maquiagem, salto e blablabla. Eu não me sentia e parei com tudo isso. Entrei na campanha #stopthebeautymadness sem nem ao menos conhecê-la. E ó: nunca fui tão contente comigo mesma antes.

 Sem maquiagem, sem esconder o sorriso, sem chapinha, sem coisa alguma, mas com muita alegria no coração e com a autoestima cada vez subindo mais. 

3 comentários:

  1. A cada novo post que leio vindo dessa proposta do Rotaroots, mais feliz fico. De verdade, é muito bom ver tantas meninas gostando daquilo que aparece no espelho, amando ser quem são. Sei que não é fácil, que muitas meninas passam por momentos horríveis por conta da pressão que colocam sobre elas mesmas, mas é por isso, e tantos outros motivos, que acho super válido esse tema entrar em pauta. (:

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  2. Cara, fiquei sorrindo aqui quando notei que você optou por fazer o que acha melhor pra VOCÊ do realmente seguir o que os outros acham mais bonito, adequado, etc. Sério, que foda isso. Várias pessoas não conseguem ou ficam mal caso não saiam sempre maquiadas, sempre arrumadinhas. No meio universitário, é comum notar isso.

    Aliás, você fica linda sem maquiagem, sem chapinha e sorrindo.

    ternatormenta.blogspot.com

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  3. Lendo um post assim eu quase me sinto meio superficial, levando quase 40 minutos diários pra consertar a cara e o cabelo antes de ir trabalhar. (mas no meu mundo profissional a boa aparência artificial conta muito... feliz são os homens, que só se incomodam com o fato de terem que usar terninho abaixo de 37°C)

    Eu vou falar uma coisa: passei pela mesma situação que tu, com algumas diferenças. Antes dos 18 anos eu nunca havia me depilado ou pesado mais do que 50kg (apesar do 1,68m). Sempre me "elogiaram" por ser magra "de ruim", mas depois vinha o comentário "depois da menstruação/dos 18/ dos 20/ dos 25 anos tu vai engordar e aí quero ver".
    "Ver o que, bitch?", foi o que eu tinha vontade de falar. "Tu quer me ver gorda pra tu se sentir melhor perto de mim? Tu quer que eu me depile pra tu ficar mais confortável com a visão que eu te proporciono?"
    Hoje em dia eu olho as pessoas e julgo. "Mal cuidada", "podia ter prendido o cabelo num coque", "se não ia manter as mechas loiras nesse cabelo escuro nem deveria ter pago caro pra fazê-las".
    Mas isso é natural. É, não é bonito, mas é natural. As pessoas julgam as outras como julgam um prato de comida. Tem quem ache um prato bonito, bem apresentado. Tem os que achem um prato feito de qualquer jeito e tem os que falam mal daquele X-restos-da-chapa e com toda a razão.
    O fato é que eu não penso se aquela mulher que eu julguei mal cuidada não teve que acordar às 5h ou mais cedo para ter uma jornada de ônibus de duas horas, trabalhar por mais 10h e voltar pra casa pra ter quatro horas de sono (aliás, acho que quem tem uma vida assim deveria repensar a sua profissão). Eu não penso se aquela mulher pode ir pro Uruguai comprar pela metade do preço os mesmos produtos que eu uso. Não sei se aquela mulher está com o secador estragado, a chapinha estragada e por isso o cabelo vai pra rua da mesma forma que acorda. Eu não sei de nada disso, mas o que a aparência dela me mostra é: "não penteou o cabelo", por exemplo.
    E na rua estamos numa arena de julgamentos... e eu psicopatizei (tá certo?) sobre ser julgada com "essa aí é magra agora mas daqui a pouco ela engorda". E isso é horrível. Ouvi tantas vezes isso que sinto que todo mundo roga uma praga em cima de mim sempre que me flagram comendo uma friturinha ou bebendo cerveja.
    Perdi o fio da meada pro egocentrismo, eu acho D:

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Wink .187 tons de frio.