De amor e de sombra

Isabel Allende é um ótimo exemplo de como uma pessoa pode pegar coisas traumáticas pelas quais passou e transformá-las em infinitas fontes de inspiração para histórias. Em sua vida, Allende sofreu juntamente de toda uma nação os horrores que a ditadura chilena proporcionou ao país. O diferencial é que ela soube transformar sua dor, seu horror e também o horror daqueles a quem amava ou apenas conhecia, de seus compatriotas, em literatura. Registrou a história para que não fosse esquecida. A história através dos olhos de uma pessoa comum, não de jornalistas, historiadores ou políticos, mas sim de uma pessoa que estava apenas tentando viver uma vida menos ordinária. E é isso que temos de mais forte em "De amor e de sombra", 2° livro da autora, nascido logo após "A casa dos espíritos" (que também possui a mesma temática, mas de forma mais intrincada e mágica).

O livro é dividido em três partes: "Outra primavera", "As sombras" e "Doce Pátria".

Em "Outra primavera" Allende nos conta um pouco do contexto social de cada personagem, detendo-se especialmente em Irene e Francisco, dois jovens que não poderiam estar mais socialmente afastados um do outro. Irene, uma jornalista aristocrata que vive para fazer reportagens femininas e aleatórias, não tem a mínima noção do que se passa no Chile, de como a ditadura estava destruindo a vida de milhares. Simplesmente fora criada dentro de uma bolha de mágica e eterna dança. Francisco, psicólogo que não arranja clientela em local algum, acaba por virar fotógrafo na revista feminina onde Irene trabalha, apenas para poder pagar as contas da família (uma família marxista, diga-se de passagem, que perdeu seus empregos durante o golpe), que encontra-se numa pobreza de dar dó.

O seu consultório particular estava sempre vazio, produzindo muita despesa e nenhum lucro. Por outro lado, tinha sido suspenso do seu cargo na universidade, pois a escola de psicologia, considerada um foco de ideias perniciosas, fora fechada. Durante meses percorreu liceus, hospitais e indústrias, sem qualquer resultado senão um crescente desânimo, até se convencer de que os anos de estudo e o doutoramento no estrangeiro de nada serviam na nova sociedade. E não era porque de repente tivessem sido resolvidas as carências humanas e o país estivesse povoado de gente feliz, mas sim porque os ricos não sofriam de problemas existenciais e os restantes, embora precisassem, e muito, não podiam pagar o luxo de um tratamento psicológico. Cerravam os dentes e aguentavam calados. 

Em "As sombras" tudo o que fora deixado em entrelinhas e sussurros, insinuações, na primeira parte torna-se agora verdade inexorável. As "sombras", ou seja, os horrores da ditadura de Pinochet (no livro, descrito como o General) vão tornando-se mais densas conforme Irene vai descobrindo que a primavera acabou há muito e o que ocorre é o kitsch (assim como o kitsch soviético, tão mencionado nas obras de Kundera). Allende explora muito bem o drama das famílias que tiveram seus desaparecidos, aqueles levados pelo governo para "um interrogatório" e que, apesar dos registros de saída dizerem que os tais saíram tal hora de tal dia, nunca mais voltaram. E é aí que a trama começa a ganhar peso, o leitor começa a ficar com o ar rarefeito por conta das descrições, por vezes minuciosas até demais, das barbaridades ocorridas com o povo simples, que nada tinha a ver com política, mas que acabou por ser preso, torturado e morto, tendo seus corpos entregues à terra sem cerimônia alguma, apenas por serem considerados subversivos, afinal, tentar sustentar a família na ditadura nem sempre era bem visto, havia profissões proibidas e qualquer atitude parecia suspeita aos olhos dos militares.

— E agora, amiga, conte-me por que estás triste.
— Porque até agora vivi sonhando e tenho medo de despertar. 

Em "Doce Pátria" temos o desfecho dessa história de tristeza, dor e sofrimento. Allende, na epígrafe do livro, diz que "Esta é a história de uma mulher e de um homem que se amaram plenamente, salvando-se assim de uma existência vulgar. Eu a levei na memória conservando-a para que o tempo não a desgastasse e é só agora, nas noites silenciosas deste lugar, que finalmente posso contá-la. Eu o farei por eles e por outros que me confiaram suas vidas dizendo: toma, escreve, para que o tempo não o apague.". E, de fato, "De amor e de sombra" é um livro que parece destinar-se a deixar registradas memórias de pessoas anônimas, que possivelmente ficariam perdidas em meio aos relatos históricos que focam-se apenas em pessoas com títulos políticos e grandes passeatas. São as minúcias que fazem da história uma realidade com a qual podemos nos enquadrar. Não contarei mais do que isso porque creio firmemente que apesar desse livro ser pesado (não digo que é de difícil leitura, já que Allende consegue escrever de tal forma que até mesmo o tema mais torturante torna-se poético), o que me surpreendeu foi descobrir aos poucos a história, ver as sutilezas, as pequenas transformações que um regime ditador causa na vida de pessoas comuns.

E, claro, para quem conhece um pouco de história brasileira, não há como não fazer uma ponte entre uma história e outra, entre os relatos dos sobreviventes da ditadura com as passagens mais chocantes dos livros de Allende. Quando faço tais leituras, não posso evitar de dar graças aos céus por não ter vivido em tais épocas. Certamente não teria sobrevivido.

A revolução, dizia, deve provir do povo que desperta, toma consciência de seus direitos e de sua força, assume a liberdade e se põe em marcha. 

É um livro que recomendo de olhos fechados para quem quer que seja. Mas já aviso: é preciso ter um bom estômago e não ser suscetível a pesadelos. 

3 comentários:

  1. Entrou na minha lista.

    inspiracaoentrelinhas.blogspot.com.br

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  2. A vida é muito curta para a quantidade de livros que quero ler! Sua descrição dos livros e das histórias me fisgou e fiquei super curiosa - apesar de não ter lido A Casa dos Espíritos, assisti ao filme e lembro o quanto fiquei com aquela história na memórias, mesmo dias depois de tê-lo visto. E se o filme fez isso comigo, certeza de que os escritos de Isabel Allende vão ter poder bem maior. Adicionei ao Skoob pra não esquecer, tenho que ler esse livro.

    Um beijo!

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    1. Sim, a vida parece ser curta demais em comparação a todos os livros que quero ler. </3

      Quando fizer leitura, avise-me! Adoro trocar ideias sobre livros.
      Beijo ;*

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Wink .187 tons de frio.