Resumo literário do mês nove

Passei uma boa parte de Setembro basicamente sem ler coisa alguma além dos textos de aula por motivos de pura preguiça e falta de noção de tempo. Quer dizer, como assim já passou Setembro e estamos em Outubro? Vocês já se deram conta disso? Porque eu ainda não realizei que o ano tá no fim. Gente, pra onde escoou este ano? Foi pra o bueiro da vergonha? Só pode, porque né?

Mas o fato é que esqueci completamente da vida e, quando dei por mim, já tava na metade, indo pra o final, do mês. Aí tratei de dar um corridão e fazer minhas leituras há muito atrasadas. E isto foi o que li no mês de Setembro:

Acho que já mencionei aqui no blog que quando crescer quero ser Isabel Allende, né? Porque, gente, essa mulher é maravilhosa. A escrita dela é algo lindo, beirando ao divino (sério). Uma mulher que consegue pegar a dor de perder uma filha e transformar isso num livro genuinamente belo merece toda a minha admiração. É disso que Paula trata: da processo de perda da filha de Isabel Allende. Paula, com seus 20 e tantos anos, descobre-se, um dia, gravemente doente e entra em coma. Sua mãe, Isabel, começa então a lhe escrever uma grande carta contando suas memórias, as da família e também as coisas cotidianas, para que a filha, ao acordar, não se sentisse perdida no mundo, caso sofresse de amnésia. Porém, ela nunca acorda. Mas os escritos permaneceram. Paula é talvez o livro mais sofrido e belo que eu já tive o prazer de ler. Chorei copiosamente no ônibus ao lê-lo e não me envergonho disso, pois, não há como entrar no universo de uma mãe que está perdendo aos poucos sua filha sem sentir emoção alguma. Se o recomendo? Fortemente.

Em um quote: "Ignoro como e por que escrevo, meus livros não saem da cabeça, formam-se no ventre, são crianças caprichosas, dotadas de vida própria e sempre dispostas a me enganar. Não escolho o tema, é o tema que me escolhe, meu trabalho consiste em lhe dedicar tempo suficiente, solidão e disciplina, para que ele se escreva por conta própria."

Como havia saído de uma leitura triste, melancólica e pesada (apesar da autora conseguir colocar leveza em sua escrita, o tema em si é bem pesado), decidi ler um livro policial, afinal, há tempos não tinha contato com o gênero. Mas devo dizer que caí no sono diversas vezes já nas primeiras páginas. Dragão Vermelho, do Thomas Harris, não me conquistou. Quer dizer: a história (a volta do doutor Hannibal) é ótima, creio que todos aqui a conhecem (caso contrário: parem tudo agora e procurem-no no Google; sério!) e sabem, portanto, que Hannibal é um dos personagens mais geniais e complexos já criados na história da arte. Contudo a narrativa do autor é travada. Foi como se eu estivesse lendo um script, um roteiro de algum filme. E se eu quiser ler roteiros, procurarei por eles, não é mesmo? Sei que há muitas pessoas que são fãs dos livros de Thomas Harris e talvez você, leitor, fique de beicinho para mim por conta do que estou dizendo, mas eu, Mia Sodré, considero a narrativa desse livro extremamente chata, prolixa e travada. A história é boa, mas falta envolvimento na escrita. Se o recomendo? Para quem gosta da história em si, sim. Para quem não é muito fã do gênero policial ou prefere algo mais romanceado, não (mas indico os filmes).

Em um quote:Esse era exatamente o problema de Graham: nem sempre os seus pensamentos eram de muito bom gosto. Não existia uma separação real no seu espírito. Tudo aquilo que via e que aprendia contaminava todos os seus outros conhecimentos. Por vezes, essas misturas eram difíceis de suportar, mas não conseguia fazer nada para evitá-las. Todos os seus valores adquiridos de decência e de conveniência se rebelavam diante destas associações de ideias ou assustavam-se com os seus sonhos, e no ambiente fechado da sua mente não existia refúgio possível para aquilo que ele amava. As associações faziam-se à velocidade da luz, enquanto os juízos de valor preferiam o passo comedido da ladainha. Seria impossível que impusessem e orientassem a sua reflexão.
A sua própria mentalidade parecia-lhe grotesca e útil ao mesmo tempo, como se fosse uma cadeira tosca, mas não conseguia reagir contra isso.

Após a enfadonha leitura de Dragão Vermelho, decidi ler algo mais infantil, bobo, porém misterioso, envolvente... e, pensando nisso, nada foi mais lógico do que chegar à conclusão de que estava na hora de ler mais um livro do incrível Neil Gaiman. De início, estranhei a narrativa extremamente infantil do autor (claro, afinal, eu havia a recém saído de um livro policial, ou seja, a diferença é gritante, tem de ser), mas logo que acostumei, fiquei super envolvida na história de Coraline, a menina que um dia descobre uma passagem secreta em sua casa que leva até... sua casa. Mas num universo paralelo, onde há um pai, uma mãe e outros personagens também pertencentes a um universo paralelo que é só dela - ou seria se ela não quisesse voltar para sua verdadeira realidade. E assim começa a jornada de Coraline, a menina que vive corrigindo o ato falho das pessoas que a chamam de Caroline, que dá uma de salvadora de seu próprio universo e que encanta a cada página virada por sua audácia e sensatez. Se o recomendo? Mas é claro que sim! E para todas as idades, viste?!

Em um quote: "Eu não quero tudo o que eu quiser. Ninguém quer. Não realmente. Que graça teria ter tudo o que se deseja? Em um piscar de olhos e sem o menor sentido. E daí?"

Um dos melhores livros do ano, quiçá da vida. Claros sinais de loucura, da Karen Harrington, me conquistou de formas tão diversas que me peguei, por vezes, perguntando-me se a autora havia lido meus diários adolescentes para escrever seu livro. (Tá dizendo que você se reconheceu então com os sinais de loucura da menina, Mia? Tô.) Esse livro-amor conta a história de Sarah, uma menina que está entrando na pré-adolescência e que, além de todo o mimimi de pessoa com hormônios à flor da pele que está descobrindo a si mesma, também possui o agravante de ter uma mãe louca que tentou matá-la quando ela tinha 2 anos de idade, ou seja: Sarah procura em si mesma sinais da mesma loucura da mãe, temendo que esta venha a ser hereditária. E ela consegue lidar com isso de forma tão adulta, tão racional, tão linda que dá vontade de abraçá-la e dizer que tá tudo bem, somos todos malucos aqui, desde que seu instinto assassino não aflore demais (todos temos, mas a questão é saber refrear), tá tudo certo. Fora toda essa racionalização de cada pequeno ato, Sarah também ama ler. É uma leitora ávida (até demais para sua idade ♥) que tem por melhor amiga uma planta (sim) e escreve cartas para um de seus personagens literários preferidos. Resumindo: esse livro é puro amor. Se o recomendo? PAREM TUDO E LEIAM-NO AGORA, apenas isso.

Em um quote: "Nem todo mundo reage às palavras da mesma maneira. Algumas são palavras-problema. Uma palavra problema muda a expressão da pessoa que a escuta. Amor pode ser uma palavra-problema para algumas pessoas. Loucura também. Eu sei bem."

Em seguida, concluí a leitura já tão atrasada de Morte Súbita, da J. K. Rowling, também conhecida como diva-mor da literatura juvenil. Pois então: sentimentos conflitantes com esse livro, hein. Comecei a leitura dele em Junho, finalizei-o apenas há alguns dias. E por que toda essa demora? Por motivos de: não agarrei amor. Não é pelo fato do livro ser grosso. Não é pelo fato de não haver um protagonista. Não é pela falta da magia. É tudo junto. Não há um foco, só há desgraça, cabô esperança pra humanidade, é um horror. Mas é um livro ruim? Não, não é. Apenas... não é bom. Vocês me entendem? Acho que apenas fazendo a leitura para entender, hein. E também creio que apenas sendo muito fã da mulher para considerar este um livro bom. Porque, sim, a história é intricada, blablabla, mas não prende o leitor. E livro bom é aquele que prende. Se o recomendo? Sim. Mas não para uma leitura rápida. É um livro que precisa ser absorvido aos poucos.

Em um quote:O mais difícil, a verdadeira glória era ser quem a gente realmente é, mesmo quando se trata de uma pessoa cruel ou perigosa, aliás, especialmente nesses casos. É preciso ter coragem para não tentar disfarçar o animal que lhe calhou ser. Por outro lado, é preciso evitar fingir ser mais que o animal que você é.

E, por fim, li As Esganadas, do Jô Soares, que é um livro estranhamente nojento e divertido que conta a história de um assassino de mulheres gordas que se usa de receitas portuguesas para matá-las pela glutonice. E não, isso não é spoiler algum. Aliás, logo nas primeiras páginas o leitor já é informado da ficha completa do assassino. Qual é o mistério do livro, então? Não há mistério. O que ocorre é a leitura pelo prazer de acompanhar o desenrolar da trama. Jô Soares é um ótimo escritor de comédias policiais (já li outros livros dele e recomendo-os fortemente, por sinal) que abusa de ironia, humor negro e sarcasmo em suas personagens e diálogos. Fora a pesquisa histórica que é sempre incrivelmente bem feita. Se o recomendo? Fortemente. Especialmente para aqueles que querem ler algo divertido.

Em um quote: "Existe um preconceito velado contra a obesidade. Na verdade, dificilmente os homens o sentem. Podem ser gordos inteligentes ou ricos ou oferecerem tantos outros atrativos. Quem sofre o problema com maior intensidade são as mulheres. As mulheres gordas. O leitor pode se escandalizar com o uso da palavra "gorda". Os eufemismos mais comuns são: cheinha, forte, grande e, o mais ousado, gordinha.
Geralmente, acham que a gorda não tem força de vontade. Nem caráter. Nem vergonha na cara. A gorda é um pária; o excesso de peso, um divisor de águas. O próprio adjetivo é um palavrão. Ninguém se importa com o sofrimento ou com a humilhação da gorda. Acham que ela é gorda porque quer.
Observem o olhar triste das moças gordas varrendo as vitrinas da moda. Os figurinos são para as magras. Alguns vendedores ainda informam sem se alterar: "Aqui é só pra pessoas normais, madame". E a gorda se afasta engolindo o ultraje. Restam-lhe as lojas especializadas ou as costureirinhas de bairro. Para mim, anormal é o tratamento do vendedor.
A obesidade é democrática, não faz diferença de classe. Há gordas ricas e gordas pobres. Todas sentem a mesma reprovação silenciosa da sociedade. Existem gordas belas, mas, se a beleza é notada, há sempre um apêndice ao comentário: "O rosto é lindo. Pena que seja gorda.""

E, apenas um recadinho: decidi que começarei a escrever aqui no blog sobre todos os livros que leio. Nem sempre sairão resenhas boas, mas é bom ter registrado esse tipo de coisa, impressão de leituras e já que as pessoas sempre me perguntam muito sobre a minha opinião a respeito dos livros (e não apenas dos queridinhos), postarei tudo por aqui.

Então é isso, gente. Esse blog tá virando meio literário (meio por motivos de: o mimimi continuará, não se preocupem).

Logo tem mais. 

2 comentários

  1. POR BUDA, ONDE TU CONSEGUIU O "DRAGÃO VERMELHO"???!!!! Vou caçar esse livro ensandecidamente na Feira do Livro. (lembre-me disso)

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  2. já faz um tempão que você postou, mas sou dessas que se atrasa nas leituras dos blogs (quanto mais dos livros....) e precisei comentar que::: obrigada por traduzir em palavras exatamente o que eu sinto a respeito de Morte Súbita!!!

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