Sobre diminuir os danos

A pessoa suicida não tenta se matar para chamar atenção.
Assim como não atenta contra o próprio corpo apenas para encenar alguma cena dramática de novela mexicana (ou dos filmes do Almodóvar). Tampouco a pessoa suicida (em potencial ou não) quer morrer. O que ela quer é se livrar do que lhe causa tanta dor, desespero, sofrimento. E quando tudo, absolutamente tudo, dá errado, ela chega à conclusão de que o problema é ela, não os outros.

Nesse ponto, ela não quer apenas se livrar da dor que sente, mas também aliviar o peso que é na vida alheia. Começa a imaginar o quão horrível deve ser ter de conviver com ela, lidar dia a dia com o problema personificado que é sua existência. Ela não aguenta mais. Não é apenas um problema para si mesma, mas para a todos a quem ama. Isso é insuportável pois, como disse Kundera, a dor co-sentida com o outro é a pior de todas as dores, que se multiplica em ecos e se aprofunda cada vez mais (a isso ele chama de compaixão).

Leva certo tempo e muitas tentativas para que a pessoa suicida consiga, de fato, alcançar seu objetivo. Porque é preciso acostumar-se à ideia de não mais existir. É preciso descentralizar, ver-se como um mero observador, sentir a estranheza de estar em um corpo que é apenas mais um corpo em meio a tantos corpos, não sentir-se a si mesma. É preciso matar todas as esperanças de melhora. Envenenar todos os relacionamentos que tiver para minimizar os danos ao redor. Testar métodos, escrever sobre, falar sobre, cantar sobre, viver sobre.

Há um momento em que falar a respeito não é mais um grito de ajuda, em que a dor não é uma esperança de melhora, não é um alívio ao menos sentir algo porque é sabido que não cicatrizará nunca e tudo o que a pessoa poderá fazer é remover pouco a pouco os membros necrosados até que nada mais sobre.

Há um momento em que saber que um dia a morte chegará torna-se um alívio. E é nesse momento que a pessoa transforma-se em uma suicida: no momento em que sua melhor amiga vira a morte.

3 comentários

  1. Ninguém te salvará de existir porquê o "nada" simplesmente não existe. Creia você nisto ou não.
    Já cogitou a possibilidade de -ao alguém atentar contra a própria existência- acordar e perceber que o que se extinguiu fora somente seu corpo? Que sua consciência permanece intacta? Que seus sentimentos e emoções persistem como antes e até pior, pois livre das limitações e véus que o corpo nos impõe, somos apenas emoção? Agora, com um problema a mais, que é perceber que o fim que tanto se esperava, que o alívio sonhado... não chega. Imagine! Descobre-se que ter mastigado o assunto e colocado-o no bolso não resolveu a questão. Onde está a solução? Em considerar estas possibilidades e trilhar o caminho que puder lhe oferecer alguma diretriz sobre essa realidade. Que não nos bastemos jamais. Sempre há algo desconhecido, desconsiderado, e que precisa ser avaliado sem preconceito e com carinho.
    Beijo grande.

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  2. De boa Mia, eu adoro seus textos e toda a profundidade deles, mas para de escrever sobre suicídio rs

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  3. Essa é uma versão romântico do suicida. Temos suicidas que querem chamar atenção - muitos! Ameaçar às pessoas ao redor que vai se matar; escrever uma carta suicida; fazer na frente de todo mundo...
    Não que suicídio por si só não chame atenção. Aqui onde eu trabalho uma funcionária de 19 anos pulou do estacionamento do quinto andar. De onde ela pulou, ela poderia ser vista por pedestres, motoristas, prédios vizinhos, pássaros. Se ela perdeu tempo de desprendendo do mundo antes de pular eu não sei. Mas pelo que me contaram foi um ato mais desesperado, mais urgente.
    Pelo que me contaram, no caso dela, era morrer ou ser morta.

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