O dia em que vi a cara da morte (e ela tava viva)

Este post é patrocinado pela Lei de Murphy.

Fui fazer o ENEM.
E claro que tinha que ter bizarrice. Sempre tem bizarrice. Se Murphy não aloprar, não é a minha vida. Mas hoje foi demais. Foi extremo. Foi hard.

Acontece que havíamos combinado aqui em casa que minha mãe iria mais cedo pra loja (meus pais têm uma lancheria no centro e se revezam  por lá) para que meu pai viesse em casa e me levasse de carro até a escola por motivos de eu nunca ter pisado lá e ser a pessoa com menos orientação geográfica existente na região metropolitana de PoA.
Pois então.
Mamis saiu de casa antes das 11h para pegar o bus que a levaria até a lancheria para que finalmente o pai pudesse vir e me levar até a tal da escola. Mas ocorre que ela pegou o bus errado (porque sim) e foi parar no meio do mato (literalmente) por mais de uma hora. Ou seja: ela chegou à lancheria por volta do meio-dia.

Era meio-dia quando liguei desesperada pra mamis perguntando cadê o pai que ainda não havia chegado. Ao que ela me respondeu com um "tô chegando agora na loja". DEI A LOUCA E COMECEI A GRITAR. Deu falta de ar. Deu desorientação. Só não deu crise de choro porque sou boa em situações que me deixam sob pressão (grazadeusa), me mandei calar a boca e exercer o autocontrole do qual tanto gosto de me vangloriar, tranquei toda a casa e me mandei pra casa do meu irmão pedir socorro pra que ele me levasse até o local de prova.

extremamente 

O menino não sabia onde era a tal da escola (e eu muito menos, porque né? desorientação geográfica é meu nome do meio) de modos que ele segurou na mão de deus e foi, já que faltava apenas meia hora para o início da prova - e o fechamento dos portões.

Pegamos todos os semáforos fechados. Quando finalmente eles abriram, um ônibus se atravessou em nosso caminho e ficou andando a 20 km por hora, HAHAHAHAHAHA Tive o maior ataque de riso de todos e meu irmão e cunhada tavam achando que eu tava rindo por achar graça da situação, mas que nada, eu tava rindo é de nervoso mesmo, que tenho essa mania besta de desatar na gargalhada quando algo que contraria meus planos ocorre. Tenho um grande problema que é o de não conseguir ficar séria. 'Cês veem minhas fotos com cara séria e acham que eu sou sisuda, mas que nada, muito pelo contrário. Faço grandes esforços pra fechar a cara ao menos nas fotos, porque na vida real eu não consigo de forma alguma. Inclusive as únicas marcas de expressão que tenho são de tanto rir, aquelas marquinhas ao lado da boca - que ficarão lindíssimas quando eu envelhecer e tudo cair. Bem, melhor do que marcas de choro, creio eu.

Nisso faltava apenas 5 minutos pra os portões fecharem e eu já tava quase dizendo pra dar meia volta e me levar pra tomar um sorvete porque não tava dando. Mas milagrosamente meu irmão acertou as voltas (e quantas voltas, que escola mais escondida, pelamordedeus) e quando dei por mim estávamos em frente a tal da escola.

Nem deu tempo de meu irmão estacionar o carro porque já abri a porta e saí correndo em direção à escola. Todo esse desespero por quê? PORQUE O PORTÃO TAVA APENAS COM 30CM DE ABERTURA (aproximadamente, afinal, não é como se eu tivesse levado uma régua para medi-lo). Eu olhei pra o senhor que tava fechando o portão, ele olhou para mim e disse: CORRE, MINHA FILHA, QUE TU TEM 40 SEGUNDOS. E eu corri como se minha vida dependesse daquilo. Legal que foi só o tempo de eu passar e o portão fechar.

Em uma lindíssima ilustração feita por mim com apoio do paint:


Entrei na escola e uma moça veio em meu auxílio pra achar a sala, nisso chega um rapaz e diz "deixa comigo", me pega pelo braço e diz que vai me levar até lá porque eu tenho cara de perdida. Aliás, não sei que cara eu tava fazendo, mas sei que tava acabada de tanto stress, tensão e corrida. Até que ele disse: "agora você atravessa a quadra correndo porque não vai dar tempo de fazer o caminho normal". Eu fiquei com a cara mais abestalhada do mundo, tipo QUÊ?! porque não é possível isso, gente, a quadra daquela escola é gigantesca e calhou de minha sala ser a última de toda a escola (claro, óbvio-ululante). Aí o moço me pegou pela mãozinha e saiu correndo comigo quadra abaixo até a porta de minha sala porque eu tava certamente parecendo uma barata tonta. Não sei quem você é, moço, nem vi sua cara (se vi, não lembro, tava atordoada no momento), mas caso você leia o blog fica aqui meu muito obrigada.

Finalmente consigo entrar na sala e... a prova já tava sendo aplicada. Minha cara de terror e desespero deve ter sido muito boa, porque o moço que tava aplicando ficou todo penalizado, pegou meu rg pra dar uma colher de chá (ninguém viu, moça, tá tudo bem, eles a recém começaram), quando vê meu sobrenome, olha bem pra minha cara e diz:
— Tu tem um parente chamado William?
— Tenho um primo com esse nome.
— Ah, e ele é professor?
— É.
— Formado em Sociologia?
— Isso.
— Pai de uma menininha?
— Da Marina.
— Um bem altão?
— Isso, tem seus 2 metros de altura.
— Ah! Ele é professor aqui nesta escola, menina! Senta aí nesta classe que não tem problema, e muita boa sorte na prova.

Tudo muito lindo, um "ufa" sonoro, aquela sensação de alívio... início de prova. E okay, que prova dozinfernos, que prova maldita, mas tava fluindo, tava tudo certo... até que me dei conta de que havia esquecido a garrafa d'água em casa. E começou o calor. E aquela sala fechada não tinha UM ventilador sequer. E o calor, a sede, a ansiedade, a tontura, a dor de cabeça... desmaiei bonito. HAHAHAHA Mas acho que o povo nem percebeu, hein, porque não veio um só assistente pra me ajudar. Pensaram que eu tava dormindo, só pode, ou, sei lá, rezando. Sei que quando dei por mim tinha passado já meia hora a mais (ou seja: uma hora e meia de prova) e eu não tava conseguindo me concentrar. Pensava em tudo, menos na prova. Literalmente: tudo o que poderia me incomodar, tudo o que aconteceu de ruim nos últimos dias veio à tona e comecei a sentir aquela linda crise de pânico de "what the hell am I doing with my life?!". Aí o moço olha pra mim, vê minha cara aflita e pergunta se eu quero ir ao banheiro. "Quero, moço." Fui. Passei um litro d'água gelada no rosto, tomei mais meio litro, me olhei no espelho, e... entendi por que o moço me deu colher de chá. Meu rosto tava com uns 4 tons diferentes de vermelho/rosa. Uma coisa lindíssima, vocês nem imaginam.

Voltei pra prova, tava tudo fluindo de forma mais tranquila, consegui compreender melhor as questões... até chegar nas fórmulas. Gente, o que era aquilo. Olhei pra aquelas fórmulas e fiz cara de David Tennant sob pressão:


Segurei na mão da deusa e fui. Só não sei como. Sei que não vou conferir esse gabarito até que tudo esteja acabado porque não sou uma pessoa masoquista, a vibe masoquista já passou em minha vida.

17h, tudo terminado, saí da escola e fui procurar meu pai ou meu irmão, que deveriam supostamente me buscar, já que eu estava em local desconhecido, nunca antes desbravado por meus lindos pés 34. MAS QUEM DISSE QUE ELES ALI ESTAVAM? Não estavam, claro que não. E quem disse que eu havia levado passagem pra o ônibus? Claro que não, porque o combinado era que me buscariam. Mas a pessoa otária e distraída tem mais é que se ferrar mesmo, portanto é isso aí. Minha "sorte" é que o dia era de passe livre por conta da vacinação infantil, de modos que me informei com o pessoal local e descobri que o único ônibus que passa naquele local é um desconhecido, mas pensei: "tudo bem, pego esse aí, vou até o final, que é mais ou menos antes do centro da cidade e de lá pego o que me levará pra casa". Peguei o bus. Após um tempo nele, descubro que seu destino é nada mais nada menos que a conhecida - por boca pequena - favela da cidade, simplesmente o lugar mais perigoso de todos.

E foi aí, meus amigos, que eu vi a face da morte.
Foi entrar na "favela" que gente muito mal encarada entrou no ônibus alardeando suas intenções de se darem bem com os nerds (ou seja: o povo todo que foi fazer o ENEM). E os caras lá, armados e querendo pegar os pertences das pessoas. E eu só pensando que se eu ainda tivesse algo pra dar, porque né, não levei nada além de caneta, identidade e chaves de casa. Nem celular eu havia levado, vejam só.
Como não havia muito a ser feito e o pessoal tava me encarando, quando chegou minha vez de ser ameaçada, pensei "sabia que iria morrer quando quisesse viver, eita desgraça, mas bora tentar sair disso" e falei:
— Moço, não tenho nada.
— Não tenta mentir pra mim não, guria.
— É sério. Nem era pra eu estar aqui. Aliás, nem sei onde tô, assim, na vida. Perdi minha carona, perdi a noção de tempo/espaço, perdi a faculdade que fazia, tô perdendo minha avó que tá morrendo... só falta perder a mim mesma, moço, porque não tem mais nada não. Quer dizer, tem a caneta. Quer?
— Deixa a mina que ela tá pior do que tu. Olha a cara dela. É uma criança, deixa a mina.

E mais uma vez eu fui salva pela minha cara de criança desprovida de bom senso.

Quando os malditos saíram do ônibus e ele finalmente saiu daquela vila do mal, desci na primeira parada onde o ônibus fez a curva, que calhou de ser a parada da brigada militar. QUE ALÍVIO, MINHA GENTE, VOCÊS NÃO IMAGINAM O ALÍVIO EM MEU CORAÇÃO ao ver o pessoal fardado e com internet funcional. (Porque assim, eu já havia bolado altos planos: já que não havia levado celular e não sabia os números de ninguém de cor, ao menos poderia pedir pra alguém enviar uma mensagem via fb pra uma amiga que avisaria alguém de minha família que ó, tô na polícia, venham me buscar, hahahaha; também pensei em sair caminhando mais algumas paradas até a casa de um dos meus irmãos, mas tava escurecendo, ali é uma zona perigosa e não seria boa ideia.)

Após muitos minutos de terror psicológico passados naquela maldita parada, finalmente um ônibus passou. Nem pensei muito e fiz sinal, porque né? Porém: ele não era de passe livre porque era intermunicipal. MAS DANE-SE. Fiz minha melhor cara de Gato de Botas, a voz meiga e disse:
— Moço, fui fazer o ENEM e ninguém me buscou não sei porquê. Tô longe de casa e não trouxe passagem porque sou otária. O senhor pode me levar até o centro pra eu ir até o trabalho do meu pai?
— Claro, guria! Tá tudo bem contigo? Tu tá pálida. Senta aí, va'mbora.
— Obrigada, moço. ♥

abracinho fantasma pra o motorista bacana que me deu carona até o centro 

Cheguei na lancheria do meu pai e, meldels, amaldiçoei céus e terra.
— COMASSIM NINGUÉM FOI LÁ ME BUSCAR?!
— Eu pensei que teu irmão iria, aí não fui. Ele pensou que eu iria, e não foi.
— E pensando morreu um burro, né?
— Mas tu já é adulta, sabe se virar sozinha.
— Sei, sei me virar, sim. Sei tanto me virar que tô aqui, não tô?! Pois então, sei, sim. Sou crescidinha (mó mentira, tenho um metro e meio, mas shhhh) e me viro muito bem, especialmente com uma arma enorme apontada pra minha cara. Foi lindo de ver.

Após esse inspirador diálogo e uma fatia de pizza com coca-cola (dane-se a dieta, eu precisava comer e beber algo, tava desde as 10h da manhã sem me alimentar ou sequer tomar um gole d'água, which means: eram umas 19h da noite e eu tava desidratada pra caramba e acho que só não havia desmaiado novamente no percurso por conta da adrenalina de quase ter morrido na mão de bandido) fui para a parada onde passa o ônibus que me levaria até em casa (heaven ♥). No que, quando eu estava a um metro da porta do ônibus - e tinha gente subindo, claro, eu tava na corrida e todo aquele clichê - ele simplesmente ARRANCA e vai-se embora. 'CÊS NÃO IMAGINAM MINHA RAIVA NA HORA. Gargalhei de raiva (dica: se algum dia eu estiver brava e começar, do nada, a gargalhar, tema por sua integridade física porque não respondo por mim quando chego nesse estágio), uma mulher que tava na parada ainda viu meu estado de desolação e atacou novamente o ônibus, a que o motorista respondeu com um sinal muito do mal educado feito com suas mãos. Eu, como já tava fora de mim, peguei uma pedra solta que tava na calçada e joguei no ônibus. A mão divina fez com que a tal da pedra não causasse estrago, porque olha, a vontade era de quebrar a cabeça do animal motorista que me deixou esperando AINDA MAIS.

Detalhe: essa parada fica na frente da matriz da igreja evangélica da cidade. E tava todo o povinho da tal igreja entrando para um """"culto"""" (o que eu chamo, carinhosamente, de tortura audiovisual, mas prossigamos).
Igreja da qual eu fiz parte há muitos anos (ainda bem que a gente cresce e se desvencilha dessas coisas) e onde eu tenho fama de bruxa possuída por Lúcifer. OU SEJA: meu episódio Drummondiano ("no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho") para eles foi apenas maus uma prova da minha possessão demoníaca. Eu me divirto muito, gente, vocês não fazem ideia.

Mas, para minha sorte (sou uma pessoa extremamente sortuda, sorte às avessas, é verdade, mas ainda assim sorte), logo apareceu outro ônibus com destino (à felicidade ♪) ao meu bairro, de modos que comecei a fazer sinal quando ele ainda nem tinha virado a esquina que o levaria para a parada, risos. Subi, passei a roleta, sentei no banco e, minutos depois, tava em casa. Ó que coisa boa. \o/

E essa foi a saga do sábado de prova do ENEM.
O que eu aprendi com tudo isso? Aprendi que meu bom humor salva minha vida. Que apesar de eu parecer controladora level extreme por conta de meu alfabeto de planos reservas (pra caso algo dê errado, afinal, sempre dá, porque sou afilhada de Murphy, como todos sabemos), a verdade é que sobreviverei a qualquer situação pela qual passar porque sou mais resistente do que penso e tenho mais habilidade de planejamento e ação do que muito marmanjo metido a besta por aí que vê meu tamanho e me subestima.

Eu sou demais. ♥ Narcisismo em pessoa, eu.

 

9 comentários

  1. Isso me lembrou de quando fiz o vestibular. Também passei mal e apaguei por uma hora. Minha pressão caiu e, pensando que era fome, comi um pacote de bolacha recheada. E, claro, a carona que deveria me levar de volta a minha cidade (sim, estava bem longe de casa), me abandonou sem dó nem piedade.

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    1. O ENEM ou os vestibulares da vida deveriam ser feitos na escola mais próxima de nossas casas, só acho, hein. Essa coisa de nos mandarem pra longe NUNCA DÁ CERTO.

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  2. Caraleow, Mia. Que MERDA de dia foi esse que tu teve. E com requintes de assalto no ônibus. Bah, eu evito ônibus (e sair na rua em geral) em dia de passe livre por isso. Marginal iletrado sai pra fazer rancho às custas dos outros. (e agora, época de natal... eles alopram geral)

    Tu fez domingo a prova também, não fez? Foi assim horrível também?

    Espero que, apesar disso, Murphy tenha sido misericordioso quanto às respostas que tu marcou na prova :)

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    1. Te dizer que sábado foi um dos dias mais tensos da minha vida, Amanda! Que coisa mais aloprada. Me senti naquele filme Adrenalina (acho que é esse o nome) em que o cara tem que ficar sempre recebendo estímulo em cima de estímulo pra se manter vivo, porque olha... quando finalmente cheguei em casa tava tão ligada que não consegui parar quieta por horas, hahahaha

      Mas domingo foi tranquilo porque, após o ocorrido, fiz com que meu pai me acompanhasse e fosse pra lá (pra me buscar) antes do horário, que é pra eu não ficar perdida de novo. Não dar sorte ao azar.

      E se Murphy me ferrar nessas respostas... tchê, ele terá problemas, hahahaha

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  3. BAH HAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHHAHHA MORRI, ADEUS
    Guria volta pra igreja, esses perrengues acontecem porque tu é a bruxa possuída por Lúcifer!

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    1. Titio Luci = <3
      Povo da igreja = </3
      HAHAHAHAHAHA

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  4. Menina do céu, que dia! Quanta correira, quanta loucura, quanto maluquice! Ainda bem que você é forte, eu não sei se teria sobrevivido para ver o final dessa saga. Um beijo!

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  5. Miiiiiia, de deus (ounão). Como tu conseguiu uma façanha dessas? Tô rindo horrores aqui, do relato. É capaz de tu ter saído naquelas fotos que a galera posta nas redes sociais do pessoal cruzando os portões nos últimos segundos. Que dia, viu?
    Um abraço. Tu escreve muuuuuito. hahaha

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  6. Mirian Sodré, oh pessoinha mais azarada hein, pelamordedeus!!!! Hahahahahahahahahahahah ri litros aqui, e eu a senhorita zen no ENEM.

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