A casa dos espíritos

É raro acontecer eu terminar uma leitura e ficar tão extasiada a ponto de mal encontrar palavras para descrevê-la. Com essa, foi assim.

Há muito tempo pegava e retirava A Casa dos Espíritos da prateleira da biblioteca da faculdade, sem nunca tê-lo levado para casa. Dia desses, assistindo a um episódio de Gilmore Girls em que Rory faz um comentário acerca do livro, lembrei-me e fui procurá-lo na biblioteca municipal. Sem ter ideia do que se tratava a história, encontrei-o na prateleira de livros espíritas e o trouxe para casa.

Devo dizer que há tempos não lia um livro tão incrivelmente real quanto esse.
Não fazia ideia do porquê do título, de quem é a autora ou se ele realmente era um livro espírita ou apenas de terror. Como não sou de pesquisar resenhas antes de ler o livro em si (e detesto spoilers, por sinal), me vi surpresa com a história que se desdobrava em minha frente.

Muitos escritores latinos têm a escrita emperrada, mas isso não acontece com Isabel Allende, cuja escrita é extremamente solta, fluída, limpa. Eu pude facilmente visualizar as cenas, diálogos, personagens, histórias que ela descreveu em seu primeiro romance. Pude sofrer com as personagens, entender mesmo os mais tiranos (afinal, sempre há um motivo) e encher o livro de post-its para registrar quotes inesquecíveis depois. Isso é realmente raro.

Allende nos presenteou com uma narrativa fantástica (inclusive, a escritora está no roll dos escritores de realismo fantástico) sobre a família Del Valle - Trueba no período que vai de 1905 a 1975. No livro não fica claro o lugar onde a narrativa se passa, mas para quem conhece um pouco de história latino-americana, é óbvio que o local é o Chile, durante a época da "democracia" que virou ditadura. Apesar de ser uma saga aparentemente familiar, certamente a obra não pode ser resumida apenas a isso. É um grito de liberdade, um relato feminista, socialista e extremamente íntimo, com personagens atípicos (como a moça dos cabelos naturalmente verdes e olhos amarelos), situações "anormais" (como a clarividência das personagens femininas aliada a objetos movendo-se apenas com o poder da mente) e brutalidade cruel.

Não há personagem principal assim como não há narrador permanente. Há apenas um fluxo de palavras muito bem construído que nos faz sentir parte da narrativa, como um observador silencioso, atemporal e anônimo.

Em um quote:
"Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil, o transcurso da uma vida é muito breve e tudo sucede tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos atos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente."

Vale a pena ler? MAS É CLARO QUE SIM. Esse livro virou um dos meus preferidos da vida, tanto que já fiz releitura, ou seja. Me tornei fã da Allende, acabei pesquisando a história chilena, envolvi-me de tal forma que só posso dizer o seguinte: largue tudo o que está fazendo e vá ler esse livro incrível! ♥  

2 comentários

  1. Eu não li o livro, mas já vi o filme, é bem legal não sei se foi fiel ao conteúdo do livro, mas eu realmente gostei do filme.
    Agora despertou minha curiosidade, e como sou espírita vou ver se acho ele por aqui.
    Bjs

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  2. Já o li e é realmente muito bom. Definitivamente não é um livro "espírita" e sim espiritualista, mas que beira os melhores romances espíritas. Vai saber se ela -sem perceber ou sem querer assumir- psicografou a estória/história ou coisa parecida...rs
    É boa indicação mesmo.
    Beijo no coração.

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