Da efemeridade da vida

Minha avó morreu.
E algumas pessoas podem dizer que é meio incoerente eu escrever um texto sobre isso já que nos últimos anos não tivemos muito contato. Mas eu realmente gostava dela. Eu não gosto de muitas pessoas (quase ninguém, na verdade), mas eu amava minha avó. Ainda guardo as bonecas que ela me deu na infância, assim como boas memórias de bolachas de Natal e de vestidos de crochê que ela fazia para minhas bonecas (e, claro, eu nunca disse a ela que tenho horror a bonecas, para não magoá-la).

A última coisa que ela me disse foi que meu cabelo estava horroroso e que, quando jovem, também havia deixado alguém cortar seu cabelo, que era enorme como o meu antigamente, e havia ficado como eu. E fez piada por eu namorar um rapaz tão alto assim (apesar de dizer que o achava muito bonito e que combina comigo, dando sua bênção). Ela estava morrendo em cima de uma cama e ainda tinha bom humor para fazer piadas. Esse é o tipo de pessoa que minha avó era: alguém de bem com a vida, apesar dos pesares. E esse é o tipo de pessoa que eu sempre quis ser, mas nunca consegui, porque esse é um tipo único de pessoa que não aparece muito na Terra.

O que me consola é que ela era espírita e, portanto, deve estar em um lugar tranquilo, afinal ela era uma ótima pessoa e certamente tem amigos no mundo espiritual que devem estar recebendo-a com muito carinho, tenho certeza.

A última vez que ela veio aqui em casa foi há um ano, no meu aniversário passado. Após isso ela não pôde mais vir, já que a doença a impossibilitou de caminhar pelos cantos sem passar mal. Apesar de seus trocentos netos/bisnetos, ela nunca esqueceu de um aniversário meu e isso me diz mais do que a convivência que não pude ter nos últimos anos com ela. Nesse dia ela tirou a única foto que tenho com ela, a única que restou, ao menos.

É ridículo pensar que estou escrevendo um texto sobre minha avó que ela nunca lerá, mais ridículo ainda pensar que talvez outras pessoas fiquem tristes por eu estar triste ou talvez pensem que eu tenho a necessidade absurda de compartilhar cada momento de minha vida, inclusive um que não me pertence. Mas não. Esse texto é apenas um lembrete de que uma pessoa incrivelmente querida, bem humorada e boa partiu deste mundo. Se eu, que escrevo sobre qualquer bobagem, não escrevesse sobre alguém tão importante assim, nunca me perdoaria. Ela foi um ser humano que sofreu muito (MUITO), mas possuía uma qualidade que espero ter aprendido a ter: resiliência.

É uma pena que vocês não tenham-na conhecido.

3 comentários

  1. lamento pela perda de sua vó, lembro de quando perdi a minha, desejo felicidades e força . abraços.

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  2. "uma pena que vocês não tenham-na conhecido"
    Depois de ler, acho que concordo. E acredito que ela vá fazer muita falta. Que esteja em paz.

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  3. (adivinha como cheguei aqui?) :)

    Ai Mia, não é ridículo escrever pra alguém que nunca vai ler, é bonito.
    Eu vivo escrevendo pra minha avó e acredito que, de alguma maneira, ela pode ler sim e saber que ela deixou muitas saudades.

    Espero que sua vovó esteja muito bem, onde quer que esteja.
    Beijos. ♥

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