Feminista em construção

Eu já terminei namoro por conta do feminismo.

Estava aqui tentando lembrar quando foi que me tornei feminista. Quer dizer, eu não me considero uma GRANDE feminista. Ainda há muitas coisas que precisam ser mudadas para que eu chegue no estágio que almejo. Há muitas coisas que falo e logo em seguida me corrijo porque "não, isso não é verdade, estou apenas propagando o machismo". Acontece. Porque fomos criadas para isso. Mas estou aprendendo aos poucos. Baby steps.

Há uns 4 anos eu tinha esse namorado. Moço bonito, moço educado, moço "de família". Que um dia descobriu que eu lia o blog da Nádia Lapa, Cem Homens, onde ela contava, basicamente, suas aventuras sexuais, cujo propósito era pegar 100 homens em um ano. Lembro que lia esse blog quase que diariamente logo que o descobri e que minha iniciação no feminismo se deu através dele. Até ali eu não tinha muita noção das coisas. Mas meu namorado da época disse as seguintes palavras: "quem lê esse tipo de blog é tão vadia e vulgar quanto a mulher que o escreve".

Terminei na hora.

Porque eu não sou vadia. Muito menos vulgar. E, sinceramente, não acho que a Nádia Lapa o seja. Ela resolveu dormir com vários caras, mas e daí? Isso a torna vadia? Isso a torna vulgar? Não. Isso apenas faz com que ela seja uma mulher com uma sexualidade desperta. "Mas pra ter uma sexualidade desperta não precisa transar com todo mundo." Verdade. Mas cada um faz o que quiser, ué.

E o que é ser vadia, afinal? Se ser vadia é ter total controle sobre seu corpo, suas vontades e seus atos, então esse é meu objetivo de vida.

Eu mesma nunca tive um relacionamento casual. Aliás, digo mais: nunca transei por vontade própria. Sim, com vinte e um anos de idade e alguns namorados no passado, eu nunca transei por vontade própria. Já passei por estupro, e talvez algumas pessoas considerem isso como "fez porque quis", como já ouvi muitas vezes. Mas não. Só quem já passou por isso sabe. Mas a verdade é que nunca transei por vontade própria mesmo com namorado algum, nem com ficante, nem nada do tipo. Nunca tive one night stand. E não sou menos feminista do que a autora do blog citado acima por conta disso. Só tenho uma sexualidade ainda reprimida por culpa de diversos fatores psicológicos. Normal, ué. E o feminismo fez com que eu me desse conta disso, fez com que eu tivesse esse esclarecimento de que não há nada de errado comigo por, até agora, não ter ido pra cama com cara algum consensualmente. Assim como não há nada errado numa mulher ir pra cama com cem homens em um ano. Desde que ela queira, claro. Porque o que realmente importa é que a vontade da mulher seja respeitada. É o corpo dela. É o meu corpo. Eu não sou uma vadia por ler textos eróticos. Ela não é uma vadia por escrevê-los. Somos todas mulheres, mas, antes de tudo, somos seres humanos que possuem, sim, desejos, vontades, necessidades. Nada mais justo do que satisfazê-los.

O feminismo me custou relacionamentos, sim. Mas me deu poder sobre mim mesma, sobre meu corpo. Me fez entender que homem algum pode definir o que é ser vadia ou não. Que homem algum pode me dizer o que fazer, o que ler, o que vestir, o que comer, o que beber ou a que lugares ir. Que homem algum merece estar a meu lado se não respeitar minhas escolhas, se não me tratar como igual.

O feminismo me fez "perder" pessoas, mas ganhar amor próprio.

 

8 comentários

  1. Esse texto veio na hora certa.
    Me considero uma "feminista em construçao" e assim como você, vez ou outra tenho certos pensamentos machistas simplesmente por ter crescido rodeada por uma familia assim e acima de tudo, preconceituosa. Demorou muito pra eu me desvincilhar das ideias pelas quais fui ensinada em casa e hoje em dia eu posso dizer que não tenho absolutamente nenhum preconceito que eu tinha antes e sou muito mais mente aberta do que era a uns três anos.
    Só que aí eu conheci um cara.
    Assim como o seu ex, bom moço, de boa família, tudo o que eu sempre sonhei pra mim, que me conquistou num piscar de olhos.
    Mas aí, depois de seis (sim, SEIS) meses de namoro ele acabou se mostrando aos poucos a pessoa mais machista que eu ja conheci em toda a minha vida.
    Tudo pra ele é motivo pra chamar de puta. Desde as meninas que usam short bem curtinho até as meninas que ficam com mais de um cara por mes (sim, por mes!). E pior ainda: ele tem um preconceito ENORME com quem vai a festas. Do tipo que nao se mistura, nao chega perto, do tipo que olha torto simplesmente pelo fato de que a pessoa gosta de se divertir.
    Eu sempre fui muito reservada, não gosto de roupa curta, sou extremamente caseira e nunca fiquei com alguém sem sentir nada pela pessoa. Mas porque eu não quero. Porque eu nao gosto. Talveeez, bem talvez, porque fui ensinada desde sempre que isso é errado. Mas eu nao acho errado, e nem sequer julgo ninguém por essas coisas, até porque são minorias as pessoas que nao gostan de festa e as meninas que nao usam roupa curta. E olha que esses sao só alguns dos poucos preconceitos que ele tem.
    Ja brigamos muito, eu ja expliquei, ja falei, ja fiz de tudo pra ele entender e mudar esse jeito de pensar. Mas entra por um ouvido e sai pelo outro. Ele é o namorado perfeito, nunca me obrigou a nada, satisfaz todas as minhas vontades, me mima, me ama. É um cavalheiro, um princepizinho. Mas frequentemente quando estamos tendo uma conversa maravilhosa ele me solta um comentario extremamente machista e eu me sinto MUITO ofendida, obviamente. Ai começo com o que ele chama de "discurso desnecessário".
    Só que eu ainda nao contei o pior: ele odeia que eu saia com as minhas amigas, sozinha. Isso obviamente nunca me impediu, entao ele ja nem fala nada, mas fica estranho o resto da semana. E ja chegou a me dizer que terminaria comigo se eu fosse sozinha a uma festa de roupa curta.
    Não, eu nao terminei, embora tenha vontade.
    Sim, eu o amo.
    E sim, eu sei o quanto eu estou errada em nao terminar.
    Eu sei que nunca conseguirei conviver em uma mesma casa com um cara assim.
    Mas eu ainda tenho a esperança que um dia eu consiga fazer ele mudar esse jeito dele.
    Todas as minhas amigas falam pra eu cair fora antes que seja tarde. Será mesmo que eu nunca vou conseguir mudar esses pensamentos nele?
    Nosso namoro é perfeito, e ele anda evitando comentarios machistas quando esta junto comigo, e talvez por isso que eu venho adiando o término. Mas eu sei que ele ainda pensa mesmo que nao diga.
    :(

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  2. Venha cá. Vamos nos abraçar. Concordo com tudo o que tu falou. Fiz um post ano passado ou no outro (não lembro) sobre o feminismo e basicamente era um feminism loading como nomeei o post porque lá que vez que outra eu dava risada de piadinha machista. Hoje em dia, eu já fecho a cara. Falo que não. Mostro o outro lado. Meus amigos, na zuera, falam que eu vou começar com o discurso. E vou mesmo. Pelo menos eles entendem qual é que é.

    Gosto de me chamar de puta lacrada. Por motivos óbvios. Pego vários, mas sou lacrada. E por opção, viu? Meu objetivo de vida é mandar na minha vida. Se isso é ser puta ou vadia ou frígida ou fria pros outros, so be it. Não nasci pra explicar minhas fodas ou a falta delas pra ninguém não. Nem pra explicar fodas, nem leitura, nem preferência, nem nada.

    E segue em frente, porque o feminismo é lindo. A sororidade também. E por isso, tamo juntas. <3

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  3. "O feminismo me fez "perder" pessoas, mas ganhar amor próprio"

    Clap clap clap!

    Maravilhosa! <3


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  4. *aplaudindo*
    Mulher empoderada é outra coisa! Adorei o texto e concordo com absolutamente tudo! Sempre me incomodei com essa história de chamar as mulheres de "vadia" como um insulto. Porque minha liberdade sexual tem que ofender?
    Eu costumava morrer de vergonha até de conversar sobre sexo com qualquer um, só falava com as amigas mais chegadas e cheia de eufemismos. Hoje eu sei que não devo ter vergonha da minha liberdade. Meu corpo, minhas regras e aí de quem diga o contrário. Sim, posso ter virado a pessoa que quando abre a boca pra falar de machismo recebe algumas reviradas de olhos, mas não é assim que começa? A revolução vai ser linda <3

    Beijo!

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  5. Eu concordo com vc em boa parte.
    Eu não gosto de me declarar FEMINISTA por que eu não estou 100% de acordo com tudo o que é declarado sobre feminismo. Eu sou adepta de muitas praticas, muitos projetos e me coloco em uma posição de exigir igualdade e de não exigir estereótipos de nenhum dos lados, mas tb não gosto de afirmar incontestavelmente que eu sou feminista... então sim, talvez eu seja um feminista em construção.

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  6. Acho lindo e extremamente triste o que você e algumas meninas nos comentários disseram. É lindo que todas se esforcem pra aprenderem mais e lutarem pelos seus direitos, ser feminista é realmente algo libertador e se sentir parte de um grupo de mulheres que estarão lá pra apoiar o que quer que você decida fazer é melhor ainda.
    Me sinto muito triste porque você e as outras não tem naturalmente a liberdade de pensar que poderiam fazer o que quisessem com o seu corpo, falar o que quisessem, mesmo antes de saber o que era feminismo. Eu tive a sorte de ser alguém sexualmente livre e acho revoltante quando essa sociedade machista faz qualquer mulher se sentir fechada para o próprio prazer. Também me deixa muito triste o fato de que não importa o quanto entendamos o assunto, o quanto o amor romântico nos prende em situações em que não deveríamos nos sentir presas.
    Enfim, não acho que o feminismo faça você perder quem quer que seja, você só ganha a capacidade de julgar quem e porque faz mal na sua vida, e decidir se vale a pena continuar a insistir na pessoa é de sua total escolha e responsabilidade.
    Parabéns pelo texto, você é uma ótima escritora e eu adorei esse blog
    xoxo, Regina Kadov
    http://femfizeumesma.blogspot.com/

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  7. Eu não me considero uma grande feminista. Acho até que tenho certas nuances machistas, do tipo, achar que mulher que anda na rua quase mostrando os peitos e com shorts mais curto do que a própria vagina estão, sim, querendo mostrar-sem-mostrar porque querem ser provocantes e mostrar que fazem sexo, que estão no cio e querem sexo, que querem que os homens queiram fazer sexo com elas, etc.

    O conceito de a mulher querer igualdade com os homens é que nem demagogia comunista: tudo muito bonito na teoria. Porque na prática estamos nós lá chamando o homem pra matar barata, abrir vidro de conserva, consertar o carro e a tomada da torradeira, cortar pelanca da carne...

    Concordo no que diz respeito à sexualidade das mulheres ainda ser vista como promiscuidade negativa. Ninguém pergunta pra guriazinha quantos namoradinhos ela tem. E ninguém fala pros gurizinhos que eles não podem ficar com qualquer uma, não podem namorar qualquer uma, não podem andar com tais roupas, etc. Eu, quando terminei com meu primeiro namorado e tive um segundo namoro fracassado, resolvi fazer "carnaval". Foram 4 anos pra ter toda a experiência que os quase 5 de primeiro namoro não me deram e digo só me arrependo dos homens em si, mas não da experiência que tive com eles.
    Mas claro, foi só a informação vazar pra me tacharem de puta em círculos de conhecidos.

    Digo isso porque particularmente penso que o feminismo está muito ligado a sexo.

    O berço do feminismo não são os direitos igualitários com os homens, mas sim de poder fazer muito sexo e ser chamada de pegadora fodona, de rainha, ser o orgulho do papai e ser aplaudida na roda de amigxs.

    O mimimi sobre tipo de roupa, sobre objetificação e etc é tudo uma consequência, pois percebemos que o que envolvia sexo favorecia necessariamente aos homens. Ou alguém aí lendo esse comentário acha que tem alguma mulher interessada em comprar cerveja Itaipava com aquela brunete peituda usando a saia da prima de 12 anos? Ou vocês acham que as mulheres vão tomar Itaipava pra se sentirem brunetes peitudas? Tipo, LOL

    Meu conselho pra ti, Mia, é que tu pegue leve nessa modinha feminista. Nem tudo é machismo. Expressões como "tem que ser macho pra fazer tal coisa" não é machismo. Dizer "tem que ter peito pra fazer tal coisa" não é ofensa às mulheres com seios pequenos. Ouvir "princesa", "linda", "gostosa" na rua SIM, isso É machismo e merece uma resposta. Aquela passada de mão na bunda É SIM machismo e merece uma resposta. Não ter o nosso "NÃO" obedecido É SIM machismo e merece uma resposta.

    Vamos com calma no feminismo. Hoje em dia até pedido de desculpas ofende.

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  8. Eu sei lá, sabe... Acho que o feminismo anda tão distante da causa pela qual foi pensando defender... Tem deixado de ser uma ferramenta de igualdade de direitos para tornar-se uma mera arma de combater machismo ou para a promiscuidade em tantos outros casos. E o que tem sido pior: tem feito muita mulher acreditar que evoluir é ser julgada como homem, ignorando completamente que há nisso uma regressão absurda, jogando no lixo toda sua superioridade para ter o instinto burro do macho... Enfim... Feminismo nunca passou perto da promiscuidade que vem sendo vendida como liberdade sexual.
    E repito o que sempre digo: não há bicho mais machista que a própria mulher. Entendedores entenderão.
    Por fim, educação é a única solução para o fim do machismo e não o feminismo distorcido.

    Beijo no coração.

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