O escolhido foi você

Ansiedade.
Se eu tivesse de definir o livro de Miranda July, “O escolhido foi você”, em apenas uma palavra, certamente a palavra seria essa. Já no primeiro parágrafo fui jogada num tipo de furacão verbal, na vida bagunçada de uma mulher à procura de si mesma, à procura da entonação certa, da pontuação certa, da postura certa, da aceitação do ser. Não, não há nada de metafísico nisso – muito embora minha primeira impressão foi de que ela estivesse precisando de uma boa dose de terapia de regressão – mas é um fato incontestável que dona Miranda July escreveu como escreve uma pessoa mergulhada apenas em si mesma.

Já nas primeiras páginas ela escreve:
No meu mundo paranoico, toda lojista acha que estou roubando, todo homem acha que sou prostituta ou lésbica, toda mulher acha que sou lésbica ou arrogante, e toda criança ou animal vê meu verdadeiro eu, e ele é mau.

July, ao escrever isso, não apenas passou aos leitores a impressão de uma ansiedade eterna, mas também conseguiu descrever perfeitamente a angústia pela qual passa praticamente toda mulher desde tempos imemoriais: a mulher é sempre vista como o mal, como o ser demonizado, como a versão humana da serpente que induziu Adão e Eva ao pecado original (aliás, questiono tal pecado: por que seria pecado querer ter conhecimento? Oras, que horror!).

Certo dia, em meio ao marasmo aterrorizante que a vida de escritora pode provocar, Miranda telefona para um anúncio que havia lido a respeito de uma jaqueta de couro à venda e, num átimo de impulsividade marota, pergunta à pessoa do outro lado da linha se a mesma estaria interessada em responder algumas perguntas acerca de sua vida. Apenas porque sim. Com remuneração, claro.

Eu estava escrevendo um roteiro na casinha. Escrevia na mesa da cozinha ou em minha antiga cama com seus lençóis baratos. Ou, como sabe muito bem qualquer um que tenha tentado escrever alguma coisa nos últimos tempos, esses eram os lugares em que eu preparava o cenário para escrever, mas em vez disso ficava procurando coisas online. Parte disso poderia ter a ver com uma das personagens do meu roteiro, que também estava tentando fazer alguma coisa, uma dança, mas em vez de dançar ficava procurando danças no YouTube. Então, de certa forma, a procrastinação era pesquisa.

Foi um golpe de sorte, basicamente. Uma bela intuição, eu diria. Mas seja lá o que tenha sido, funcionou: afinal, por conta disso pude ler um livro incrível, nu, exposto, que fala da história de várias pessoas aleatórias. Pessoas reais, não personagens moldados ao gosto do público alvo.

Na primeira entrevista nos deparamos com a história de Michael, um senhor aposentado que estava passando por uma mudança de sexo:

Miranda: Como era a sua vida antes de você se assumir?
Michael: Eu tentava ser como todos os homens e escondia o fato de que por dentro eu me sentia uma mulher. Eu sabia disso desde criança, mas por muito tempo tive um medo enorme de me assumir. O movimento para que os gays saíssem do armário me ajudou a entender que eu não devia agir daquela maneira.


Logo em seguida temos a história de Primila, uma senhora indiana que estava vendendo roupas étnicas de seu país não por necessidade – afinal, a senhora era muito rica – mas para ajudar uma vila indiana que precisava de coisas básicas que não tinham como adquirir. Há Andrew, o adolescente recém-formado no Ensino Médio que cria girinos no jardim. Tem também Beverly, uma senhorinha que poderia ser facilmente chamada de crazy-cat-lady. Adorável, eu diria. Beverly tem trocentos gatos, pássaros, bodes e cachorros. E mais do que isso não contarei acerca das personagens reais desse livro porque, sinceramente, quero que vocês leiam-no.


Quem é ou já teve pretensão de ser jornalista sabe que pessoas assim não escrevem apenas para os outros – escrevem para si mesmas. Escrevem para registrar fatos, sim, mas sempre tratam de incutir um ou outro detalhe acerca de suas vidas, acerca de suas percepções íntimas a respeito do assunto. Divagações. Um toque de mestre. Um “quê” que faz toda a diferença. A assinatura do artista. “O escolhido foi você” não foge à regra. Miranda July conta, sim, uma parte da história de outras pessoas, mas leitores atentos perceberão que os outros ali estão apenas como plano de fundo, como escapatória da realidade – escapar da realidade com a realidade alheia. É a história de uma escritora que não consegue terminar seu roteiro e decide, impulsivamente, entrevistar pessoas aleatórias escolhidas no uni-duni-tê, em anúncios de vendas de um jornal local. Mas as personagens reais que são entrevistadas são tão interessantes que ler seus depoimentos me fez pensar o que aconteceria se ao invés de colocar minha proteção diária contra pessoas (fones de ouvido + um livro sempre aberto) eu colocasse um sorriso no rosto e dissesse a coisa mais básica de todas: olá.

A mensagem que “O escolhido foi você” me passou é a de que não podemos escrever sobre o que não conhecemos. Quer dizer, podemos se formos um Edgar Alan Poe da vida ou alguém tão talentoso. Podemos escrever sobre situações que não vivemos, mas precisamos tê-las conhecido por intermédio de outros e o sentimento tem de ser real, tem de ser vívido, tem de ser conhecido. De outra forma, tudo se torna artificial demais, feito para vender, para agradar massas, para ser minuciosamente aceito. Miranda July não escreveu esse livro para ser aceita. Escreveu para, talvez, tentar aceitar a realidade de todas as pessoas que se aventuram na arte da escrita: você só sai de um dilema de letras saindo do papel e indo para a vida real.

É muito mais do que um livro sobre a formação de um roteiro. É muito mais do que um livro sobre pessoas comuns e tão lindamente singulares ao mesmo tempo. É um livro que nos faz pensar o que teríamos para contar se alguém nos perguntasse “qual foi a época mais feliz da sua vida?”. É um livro real, feito com pessoas reais e para pessoas que precisam de uma dose de realidade em suas vidas.

Vale a pena ler? Eu li esse livro em pouquíssimo tempo, menos de um dia. Não por ele ser um livro cheio de fotografias (lindíssimas), mas porque ele é envolvente. É incrível ler partes das vidas de outras pessoas e pensar que, poxa vida, todos têm suas peculiaridades, inclusive nós. É bonito. Faz refletir pra caramba. E para mim livro bom é aquele que faz refletir.

Em um quote:
Ocorreu-me que a história de cada pessoa interessa demais a ela própria, então quanto mais eu ouvia, mais ela queria falar.

1 comentários:

  1. Eu adorei esse livro, demais. Me deixou curiosa essa perspectiva que ela tomou de colecionar as histórias das pessoas - indivíduos absolutamente comuns, mas que merecem ter suas histórias contadas, por que não? Miranda trata a narrativa com leveza e, ao mesmo tempo, intensidade. Ela se aprofunda, mas num limite respeitável. Gostei tanto que comprei mais livros dela.
    Abraços.

    http://ninagaldina.tumblr.com/tagged/blog

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Wink .187 tons de frio.