O para sempre é o nosso hoje

Há um ano eu estava machucada por tantas coisas diferentes, por tantas perdas estranhas de pessoas que pensei que sempre estariam ao meu lado, estava com o coração esmigalhado em pedaços tão pequenos que pensei que nunca mais conseguiria reconstruí-lo.
Mas consegui.
Pensei que jamais teria uma estabilidade emocional.
Mas tive.
Pensei que a única opção que me restava era uma morte teatral.
Mas o destino me apontou outro caminho.

Há dois anos, nesta mesma época, eu também estava despedaçada. Sempre pelos mesmos motivos, sempre na mesmíssima época. Uns chamam isso de inferno astral, outros de carma. Eu chamo de lei de Murphy mesmo. Mas a verdade é que eu sempre consegui reconstruir minha vida. Aos trancos e barrancos, mas consegui.

A diferença é que fazer drama perdeu a graça.
O roteiro ficou manjadíssimo.
Só mudam as personagens coadjuvantes, mas as situações - e muitas vezes os diálogos - são sempre as mesmas. BORING.BORING.BORING.

Se antes passava dias chorando por perdas iminentes, hoje deixo rolar algumas lágrimas, coloco meus tênis de corrida e saio sem destino algum porque essa peça não vale a pena o drama. Não vale a pena a dor de cabeça. E sei que o futuro me reserva perdas ainda mais dolorosas.

Aí eu recapitulo minha vida, meus textos nos meus trocentos blogs, e percebo que mesmo antes de entrar nesse ciclo vicioso eu já havia previsto tudo. Vejam bem que eu não sou vidente, apesar da minha fama de bruxa. Mas sempre que pensei no meu futuro me via sozinha. Rodeada de pessoas, sempre com muito apoio moral, mas sozinha. Sempre me vi mais como Summer do que como Tom. Mais como Robin do que como Ted.

Eu já fui a Summer. Já me desfiz de pessoas do mais absoluto nada apenas porque sim, porque ó, que enjoativas as pessoas podem ser, ó, eu nasci para ser sozinha e abandonada, funciono muito melhor só com meus livros e pessoas aleatórias.
Eu já fui a Robin. Já olhei pra o futuro e vi um about:blank, vi uma incontrolável vontade de correr, de ser livre, de fazer trocentas coisas ao mesmo tempo, de ser uma jornalista conceituada e, para tal, não poderia formar laços emocionais fortes, porque não teria parada na vida.


~e se você leu até aqui e acha que este é um texto sobre relacionamentos amorosos, você não entendeu absolutamente NADA, filhote~

Mas de vez em quando aparecem pessoas que permanecem. Pessoas que me fazem pensar em criar raízes, me permitir ter estabilidade, planejar um futuro. Amigos de quem doeria estar muito longe. Gente tão querida que me faz pensar eu ser sociável, em minimizar os sonhos e adequar minha realidade.

São essas pessoas que apesar de todos meus rompantes de rebeldia quando saio gritando LIBERDAAAAAAAADE pela casa, essas pessoas que me pegam pela mão e dizem que tudo ficará bem, essas raras pessoas que me fazem pisar no freio e permanecer apesar de todos os pesares. São essas que fazem a vida valer a pena.

E que me fazem lembrar que eu não posso reclamar da efemeridade da vida porque, afinal de contas, eu sou uma das pessoas mais efêmeras de todo o Sul.

Aí quando passo por situações de perdas como a que estou passando agora, de novo e outra vez, lembro que nem posso reclamar de verdade porque estou apenas cumprindo com o que planejei para mim há tantos anos. Que estou apenas seguindo o caminho que eu mesma tracei.

Pessoas sempre morrerão. Irão embora. Mudarão de ideia. Assim como eu. Nada é eterno além da impermanência. Ou, como Freddie Mercury cantou: o para sempre é o nosso hoje. 

2 comentários

  1. Eu senti exatamente a mesma coisa. E uma das pessoas que se foi era exatamente uma dessas que ficavam. Acho que tu leu sobre ela no meu blog, naquele post godzilístico. Pode não ser minimamente parecida com a dor de perder um familiar, mas dores por dores quem sentiu uma sentiu todas.
    Fique triste se quiser, porque faz parte. E conta com meu apoio pro que tu precisar :)

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  2. Texto incrível, Mia. Ao contrário de você, eu sempre me vi mais como Tom ou Ted, mas acabei descobrindo que sou mesmo é uma mistura de todos os quatro.
    Sinto muito pela sua perda, desejo toda força.

    Beijo

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