Walter Mitty sou eu

São 3h e pouco da manhã e eu acabei de voltar de uma festa. Não sou uma garota de festas. Nem sociável eu sou. Quer dizer, sou um bichinho do mato que mora na cidade por descuido do destino. Mas há alguns dias minha resolução de vida tem sido “viva o presente”. Porque eu sou ansiosa. Pra caramba. Traço trocentos projetos. Minha agenda (aquelas de papel ainda, nada eletrônico) é sempre lotada de conjecturas, post-its, marcações, projetos, linhas do tempo. Porque pessoas que possuem ansiedade PRECISAM ter as coisas sob controle. Nem todo mundo entende isso. Acham que é pesado demais, mas nem é. Só fica pesado quando a vida exige coisas muito além do que o emocional suporta. Mas na prática a ansiedade vive de poucas horas de sono, muitas horas de leitura, meditação, escrita, corridas e trabalho/estudo. Foco.

Mas há alguns dias tive uma crise tão forte de ansiedade que meu estômago embrulhou. Não conseguia comer. Não conseguia dormir. Não conseguia parar e ler um livro sequer ou assistir a um filme. Nem a meditação estava adiantando. Aí eu percebi: hora de mudar a abordagem e começar a agir.

Há pessoas que têm pavor de planejar coisas. Eu sou uma delas. Mas faço isso justamente porque me perco facilmente em qualquer linha que esteja seguindo por conta da maldita ansiedade que me faz ficar acordada à noite. Porém, na prática, a coisa funciona mais ou menos assim:

Se nada der certo tenho tais opções:

  1. Montar uma confeitaria; 
  2. Montar um sebo; 
  3. Escrever livros que sejam, de fato, publicados; 
  4. Casar, ter filhos e aquele blábláblá todo de família de comercial de margarina; 
  5. Juntar-me ao circo e exercer meu dom natural de palhaça ou equilibrista. 

Mas na realidade eu provavelmente nunca vá seguir esses planos. Há um alfabeto de planos justamente para isso: pra que eu possa ignorá-los solenemente e escolher fazer outra coisa que não entrou na lista. É mais ou menos como funciona minha lista de meta de leitura no Skoob: há vários livros marcados lá, mas na prática não tenho vontade de ler nenhum deles realmente, mesmo que estejam ao meu alcance e que os tenha marcado na tal lista há mais de ano. OU SEJA: eu faço planos apenas para aloprá-los e para me manter tranquila pensando que estou no controle quando na verdade estou  apenas brincando de pique-esconde com o destino.

A ilusão de ter o controle faz com que eu não me desespere e consiga manter um nível socialmente aceitável de esquisitice. O que é bom, mas nem sempre, porque como no filme de Walter Mitty (A vida secreta de Walter Mitty): viver sonhando/planejando sem nunca, de fato, concretizar as coisas não dá lá muito certo. QUER DIZER, até dá, né. Mas aí a pessoa viverá duas vidas: a real e a imaginária. O que é meio triste, pra falar a verdade.

~nessa vibe~

Se tem uma coisa que esse filminho me ensinou foi que por mais tentador que seja planejar o futuro e tê-lo como um bote salva-vidas, pensando que se nada der certo ele está lá, é muito mais legal fazer as coisas realmente sem tanto mimimi. Walter Mitty era um cara que planejou demais e nada fez. Ficou quase vinte anos no mesmo emprego, fazendo as mesmas coisas, vivendo a mesma vidinha e deixando os planos como bote salva-vidas. Até que um dia chegou um momento em que ou ele agia ou nada. Era basicamente a sua única oportunidade. E ele a agarrou.

Eu preciso fazer isso. Preciso viver mais e pensar menos. Pensar nunca dá certo no meu caso, como todos os que acompanham este blog já devem ter percebido, risos. NUNCA É UMA BOA IDEIA. Eu faço planos, sim. Porque eles me dão a ilusão de estar no controle e isso é ótimo. Mas agora meus planos não são mais de longa data. Meus planos são de metade do dia. Metade por metade. “Se tudo der certo nessa metade, então me concentrarei na outra.”

Porque não é o que será preciso amanhã. É o que é preciso agora.


É a festa com as amigas. É saber lidar com um gato furioso que pulou no meu colo querendo atenção. É adquirir habilidades de entretenimento com pessoas que nunca d’antes vistas. É o improviso planejado. É a vida em si. A quintessência.

Agora, por exemplo, eu preciso tratar de arranjar o sono e dormir.
Depois, veremos. Tudo a seu tempo.
Inspira.
Expira.
Ufa.

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Wink .187 tons de frio.