A luta continua

Para mim o dia da mulher sempre foi o dia da minha mãe.
Dona Laura, pisciana pura, divide seu dia com o dia internacional da mulher. Coisa que acho muito justa, por sinal. Eu não tenho a melhor das relações com minha mãe porque, bem, somos pessoas muito diferentes. Ela é pisciana - e eu realmente acho que isso diz muita coisa, mas caso não diga para você, explico: ela é sentimental, propensa ao drama e tem sentimentos fortes de rejeição e abandono. Eu sou aquariana: racionalizo tudo, penso demais, enlouqueço a mim mesma de tanto pensar e provavelmente enlouqueço a todos ao meu redor quando entro em horas de silêncio quase catatônico apenas porque, oh, estou tão absorvida por meus pensamentos... Não sou melhor ou pior que ela, apenas sou astrologicamente diferente. Socialmente. Fui criada por ela, sim, mas numa sociedade muito mais livre em comparação àquela da qual ela fez parte quando jovem. Mas admiro minha mãe. Muito.

Minha mãe aos 16 anos foi obrigada a se casar com o cara que a estuprou. Sim, obrigada. Isso porque naquela época (anos 60) ela morava numa cidadezinha do interior sulista, ainda regida fortemente pelas leis patriarcais que fizeram com que tantas mulheres padecessem por séculos. Um dia um cara a estuprou e meu avô simplesmente obrigou minha mãe a casar-se com ele porque, afinal, ele não toleraria uma desonra tamanha em sua casa, não toleraria uma filha desvirginada e solteira.

Ela casou, teve 2 filhos num intervalo de 2 anos. Apanhou praticamente todos os dias durante esse casamento. Era basicamente uma criança que fora obrigada a ter outras duas crianças com o verme desprezível que a violentou. Até que um dia a violência foi maior do que a de costume e ela foi arrastada pela rua, pelos cabelos, esfolada, humilhada de todas as formas possíveis. E foi aí que ela saiu de casa.

Não sei se vocês estão familiarizados com a história das mulheres no Brasil, mas nos anos 60/70 ser uma mulher separada não era uma coisa lá muito aceita pela sociedade, ainda mais em cidades interioranas. Ainda mais se a mulher tivesse filhos. Minha mãe prestou queixa na delegacia, mas o cara, que era rico, apenas contratou um bom advogado e tudo ficou por isso mesmo. Ela tentou voltar para a casa dos pais, mas não conseguiu, porque ninguém queria a vergonha de uma mulher separada em casa. Vergonha. Desespero. O estereótipo de vagabunda que abandona a família. Porque "uma mulher tem que aguentar tudo pelo seu casamento". A maior das mentiras, a mais brutal delas.

Minha mãe, que não havia conseguido completar seus estudos, com duas crianças de colo nos braços e ninguém disposto a ajudá-la foi trabalhar como auxiliar de cozinha num restaurante na cidade grande, Porto Alegre, e lá aprendeu aquilo que faz tão bem até hoje (muito bem, por sinal) e que me ensinou a fazer: cozinhar. Desdobrando-se entre cuidar dos dois meninos ainda pequenos, cozinhar para pessoas na capital do estado e estudar para tentar completar ao menos o primeiro grau, minha mãe levou sua vida por anos dessa maneira. Até que um dia conheceu meu pai e, bem, o resto é história.

Fui criada com esse exemplo dentro de casa. Essa história nunca foi escondida. Há muitas pessoas que não gostam quando eu falo de violência contra a mulher, de estupros, de assassinatos, de machismo. Mas é necessário falar. Não é silenciando que conseguiremos uma vida bonita de comercial de margarina. É deixando os holofotes iluminarem os bastidores que talvez consigamos mudar essa realidade desumana em algumas gerações futuras. Eu acredito que sim.

Fui ensinada a nunca depender de homem algum. A ser a melhor em tudo o que fizesse para que ninguém me maltratasse, me batesse, me fizesse sentir inferior ou acuada. Aprendi que sempre devo colocar meus estudos como prioridade, que não devo confiar em pessoas, especialmente homens, que devo cuidar de mim mesma e saber o que é certo ou errado por meu próprio julgamento. Que devo saber fazer escolhas. E nunca me deixar dominar. Desde a tenra infância aprendi a como me defender, aprendi a lutar (literalmente), aprendi a estar sempre de tênis para correr se algo acontecesse. Pode parecer um exagero todo esse preparo, toda essa preocupação, mas não é. O que aconteceu nos anos 60 com minha mãe acontece diariamente com milhares de mulheres ao redor do mundo inteiro. Não é uma realidade isolada. A história dela poderia ser a história de qualquer mulher. Porque é real, é verdadeira, é, infelizmente, comum.

Por isso mesmo acho digno minha mãe dividir seu dia com o dia internacional da mulher. Ela é a representação fiel do porquê haver um dia para nós, mulheres. Não desejarei um feliz dia da mulher para ninguém porque isso simplesmente não faz sentido. Enquanto houver motivos para que tenhamos um dia só nosso, um dia apenas para lembrarem que somos seres humanos e que sofremos violências diariamente, não seremos felizes.

A luta continua.
Minha mãe continua.
Eu continuo.

~imagem daqui

5 comentários

  1. Mia, me dói inteira pensar que vivemos num mundo assim. Fico muito triste, recentemente li um texto que dizia mais ou menos assim: odeio ser feminista porque odeio ver esse mundo e etc. E exatamente isso, como eu gostaria de ver um mundo totalmente diferente e é por isso que sou feminista. Mesmo quando viram a cara porque sou "revoltada" demais ao falar dos machismos diários e quase imperceptíveis (que são besteira pras outras pessoas), mesmo quando tantos deslegitimam essa luta, até quando minha família fica contra mim. Eu sou feminista porque eu tenho esperança e acredito, sim, que é possível tudo isso mudar. Por isso, eu luto e lutarei até o fim.
    Obrigada por compartilhar isso, obrigada por existir e que os ventos que soprem daqui pra frente tragam as mudanças.
    Beijos

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  2. Que post maravilhoso! Tua mãe é uma inspiração mesmo. E você. ^.^

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  3. É uma pena que ainda hoje existam famílias que pensam como a família da sua mãe pensava nos anos 70. Não vejo motivos pro dia da mulher ser comemorado, primeiro pelo dia ter sido criado em cima de uma data que foi de profunda tristeza. Segundo: porque os homens, que passam a o ano todo xingando e humilhando as mulheres, nesse dia resolvem dar uma de ''amo as mulheres'' e saem dando flores e parabenizando todo dia. Terceiro: todo dia é nosso dia!
    Sua mãe é uma guerreira, mesmo não a conhecendo, tenho muito orgulho dela. Ela deu a volta por cima e mostrou que mulher não tem que suportar tudo pelo casamento.
    Lindas palavras, Mia.

    http://compartilhando-historias.blogspot.com.br/

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  4. Mia, sua mãe é linda. Deve ser linda pessoalmente, não duvido, mas é uma pessoa linda. Ter vivido tudo isso, ter sobrevivido a tudo isso e continuado a viver é incrível. Meus olhos foram enchendo de lágrimas enquanto lia seu post - não consigo conceber tamanha maldade, sabe? Poxa vida, fico pensando por qual motivo tamanha crueldade existe, fico irritada pensando nisso! Sabe, queria mesmo viver em um mundo em que o feminismo não é necessário, mas infelizmente vivo em um em que ele é essencial. E por isso continuamos.

    Um beijo, Mia. ♥

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  5. Eu sempre fico sem palavras com os seus textos. Mas esse me deixou com um sentimento de vazio. Eu passei alguns minutos de silêncio refletindo sobre as mulheres que ainda vivem do jeito que a sua mãe vivia, e eu vejo que as coisas mudaram pra muitas, mas pra outras mulheres não. Isso me deixa com esse sentimento de vazio.

    Regina K,
    http://femfizeumesma.blogspot.com.br/

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