Eu odeio Margo Roth Spiegelman

Por seu descaso.
Por sua mania de se achar o centro do mundo.
Por não dar a mínima para ninguém.
Por ser egoísta.
Por ser tão parecida comigo que dói.


Ler Cidades de Papel, do John Green, foi dolorido. Cansativo. Um processo de "ler-vinte-páginas-largar-voltar-a-ler-dois-dias-depois-querer-dar-tapão-na-Margo-largar-o-livro". A história é basicamente a seguinte: Margo um dia, mais ou menos um mês antes da formatura do Ensino Médio, resolve simplesmente fugir. PORQUE SIM. Aí chama seu vizinho (que era seu amigo quando criança), Quentin, à noite, vestida de ninja, apenas porque ela é Margo Roth Spiegelman (sério, o nome completo é repetido tantas vezes que o decorei; o que é meio uma vibe Gabriel García Márquez, que repetiu tanto os nomes de Florentino Ariza e Fermina Daza em O amor nos tempos do cólera que jamais esquecerei-os) e quer sair com ele numa grande despedida (após anos sem conversarem) sem que ele saiba que se trata de uma despedida e que no dia seguinte a menina iria desaparecer.


Quentin, como bom babaca garoto que é, assim que percebe que Margo Roth Spiegelman (aprendi a escrever esse maldito nome sem ter de verificar no livro, rá! pra vocês perceberem o QUANTO ele é repetido) sumiu, o rapaz entra em parafuso, achando que ela morreu, e começa a procurar pistas da menina pra tudo quanto é lado porque coitadinha, né, gente. A guria se mandou do nada (já tinha histórico de fugas), fugiu de sua vidinha quase-perfeita mais uma vez, de seus pais, de sua irmã pequena, de uma dezena de amigos e de tantas outras pessoas a quem ela não chamava de amigos, mas que se mostraram muito mais amigos do que os titulares no decorrer das páginas.

E aí que vocês me dirão: "mas Mia, se tu detestou tanto assim a guria, como me diz que se reconhece nela?" ENTÃO, MIGA, SENTA QUE LÁ VEM A HISTÓRIA.
Eu sou, sim, uma pessoa que surta. Sou bem o tipo de pessoa que sai correndo, fugindo das coisas, apenas porque sim. Quando comentei no fb que tava odiando o livro, o povo que já o tinha lido comentou que a Margo era uma bitch e blablabla. Nem discordo. Ela é mesmo. E eu também, só que não tanto porque me freio e muito.

Penso ao menos uma vez por dia em largar todo mundo de mão e sair por aí. E quando eu digo todo mundo, é todo mundo mesmo. Isso que a Margo diz no livro de sentir-se uma garota de papel numa cidade de papel, uma garota fictícia, composta a partir do que os outros pensam dela, numa cidade em que todos são assim, todos de papel, segurados por fios de náilon, isso eu sempre sinto, sempre senti. E acho que todo mundo sente-se assim um pouco, lá no fundo, nos dias blergh, nos dias mais ou menos.

O problema é quando a pessoa sente-se assim diariamente. Eu me sinto. Desde sempre. E isso faz com que eu tenha, sim, vontade de fugir pra qualquer lugar e ficar sozinha porque parece que todos estão se esforçando tanto, e eu também me esforço tanto e, poxa vida, não tá certo.

É aquela coisa de quando você pára pra pensar e não consegue encontrar ninguém com quem realmente conversar abertamente. Porque as pessoas não querem ouvir as coisas pesadas, as coisas profundas. Todo mundo quer ficar ali, na margem, na borda, no arco-íris com pôneis. E eu também. Porque nem eu aguento tanto drama. A vida de todo mundo é um certo tipo de drama, mas algumas pessoas escolhem lidar com as coisas de outra forma, de outro ângulo, porque nem tudo tem de ser um drama. Eu tento.

Tento tanto que estou há 2 anos sem abandonar pessoas, sem fugir de coisas, de situações, encarando tudo de frente, whatever happens. E se você acha isso muito simples, lhe direi uma coisa: NÃO É SIMPLES, NÃO. É horrível e há dias em que eu sinto algo me incomodando o rosto, vou ver e são lágrimas (bem discretas, que não sou de escândalo), assim, no meio do ônibus, durante a viagem, dormindo (!!!!), em qualquer lugar em que eu esteja. Porque dói. Dói ser uma pessoa que enxerga o mundo como uma construção de papel segura apenas por fios de náilon meio desgastados. Dói ter esses impulsos de abandonar pai, mãe, irmãos, namorado, amigos, todo mundo e viver sozinha, sei lá como ou onde, nas montanhas, provavelmente. Dói me esforçar diariamente para ser uma pessoa responsável e fazer planos e seguir, de fato, esses planos. Dói TER DE acordar diariamente às 5h da manhã pra pegar um ônibus em poucos minutos e ficar sufocada entre sessenta pessoas apertadas num mesmo veículo, com cheiros estranhos, sorrisos estranhos, conversas forçadas, suores estranhos, hálitos matinais e odor de mortadela temperada com queijo. Dói TER DE voltar pra casa apenas perto da meia-noite (ou, às vezes, até mais do que isso), ter 4 horas de sono e olhe lá porque no outro dia tem mais. E mais pessoas. E mais sorrisos. E mais "fingir que tá tudo bem, the show must go on". Não fugir. Concentrar. Há pessoas legais, há pessoas que fazem valer a pena. Mas nem sempre.

Os fios são finos. Um dia, podem partir.
E haja novelos para refazer as amarras.

Então, sim, eu entendo Margo Roth Spiegelman. E, por isso mesmo, a odeio. A odeio da mesma forma com que odeio todas as pessoas que abandonam aqueles que preocupam-se com elas. A odeio da mesma forma com que odeio todas as pessoas egoístas demais. A odeio da mesma forma com que odeio todas aquelas pessoas fracas que recusam-se a dominar seus instintos e ter uma vida normal porque, queridas pessoas, todo mundo tem ímpetos de sair correndo e se eu consigo permanecer, se eu consigo cultivar relacionamentos estáveis e amizades que duram décadas, se eu, a pessoa mais emocionalmente instável que conheço, consigo me mandar calar a boca e seguir em frente porque isso não é depressão, isso é a vida, isso é mimimi, isso é drama queen I was born to be, então Margo Roth Spiegelman também conseguiria.

Não há perdão para aqueles que desistem.

É muito difícil ir embora – até você ir embora de fato. E então ir embora se torna simplesmente a coisa mais fácil do mundo. 

5 comentários

  1. Odeio Margo Roth Spiegelman também. Mas não acho que tu seja parecida com ela... Tá, você se conhece melhor do que eu, mas só do fato de você ter essa consciência, de tentar, de encarar o mundo aí fora já te faz mi vezes melhor do que ela.
    Porque ela é uma covarde a uma hipócrita, que fica tão ocupada com sua auto-piedade e seu sentimento de "papel" que ela não percebe o que tu mesmo já falou, que todo mundo chega num ponto alguma hora em que quer apenas desistir de tudo e sumir. Eu já tive muito disso e olha que não tenho - nem nunca tive - motivos pra fugir, minha vida é maravilhosa mesmo com todos os percalços e... Ela não presta. Ponto.

    Tu pelo menos ainda tem salvação! Eu acredito (:

    Boa sorte guria!

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  2. adorei esse post pq, dos livros do Green, esse é o que eu menos gosto. não conseguia de maneira alguma me identificar com os personagens, e sua resenha - ou "reflexão"? - me fez enxergar bastante coisa bacana que eu não tinha visto. gostei muito, vou dar uma chance pro filme!

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  3. Eu amei o livro e o filme cidades de papel, não entendo como algumas pessoas dizem que não gostaram...

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  4. Okay, antes de ver seu post, visitei vários outros, e cara, EU ME SINTO EXATAMENTE ASSIM, ler Cidades de Papel foi como encarar minha própria realidade, percebi como sou fdp com os outros, como sou idiota ao ponto de deixar as pessoas, fugindo de tudo e de todos, EU ODEIO MARGO ROTH SPIEGElMAN PELO SIMPLES FATO DE SER COMO EU (também decorei o nome dela) comigo foi o mesmo processo de ler 20 páginas, parar, QUERER MATAR MARGO, depois ler novamente. Foi como se Green estivesse jogando na minha cara exatamente o que eu sou e estivesse dizendo dentro da minha cabeça "Para de ser idiota!". Em relação ao Q, CARA, SÉRIO COMO ELE É UM BABACA ASSUMIDO COM ORGULHO! Enfim, esse foi um dos livros que já tive a honra de ler, e me identificar no lugar de leitora. Muito interessante seu post!

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