Toda forma de carinho tornou-se fetiche

Eu sou uma pessoa carinhosa.
Mentira. Eu sou uma pessoa seletivamente carinhosa. Atenciosa. Apenas com quem quero (ou seja: pessoas que podem ser contadas nos dedos, literalmente). Sempre gostei de andar de mãos dadas, braços entrelaçados e fazendo brincadeiras bobas ao caminhar. É um tipo de intimidade carinhosa que gosto de ter com aqueles que conseguem fazer com que eu me sinta a vontade. (O que é algo bem difícil para uma pessoa introvertida.)

Aí que estava eu ontem caminhando pelas ruas (sim, ruas) da faculdade com minha colega/amiga de mãos dadas. Porque sim, ué. Era noite, estávamos no intervalo e decidi que precisava de um ar porque "muita gente na sala, preciso de ar puro" e quase que a arrastei pra fora (risos) para não ir sozinha (porque pessoas; sério, gente, pessoas, eu não lido bem com 99% da humanidade). Peguei a moça pela mãozinha e lá fomos passear na floresta enquanto o lobo não vinha.

No que uma coisa aconteceu: certa moça passou por nós e começou a rir da cena. Sim, a moça olhou para nós, passou por nós e riu de nós. Riu porque estávamos de mãos dadas. Riu porque deduziu que éramos um casal lésbico.

Não é a primeira vez que isso me acontece. Como eu disse antes: tenho poucos amigos, mas trato-os como irmãos; ando de mãos dadas, abraço e brinco sem dificuldade alguma. Fora que, sinceramente, nunca me importei com a opinião alheia.

Quando estava no fundamental ainda tinha fama de lésbica na escola por conta desse comportamento. Porque, aparentemente, duas meninas não podem ser carinhosas uma com a outra sem que haja conotação sexual. Toda forma de carinho tornou-se fetiche, tornou-se piada, tornou-se gatilho para preconceito.

Eu não sou lésbica. Nem bissexual. Sou hétero. Nunca fiquei com meninas, nunca senti atração por moça alguma. Mas já fui e continuo sendo tachada de lésbica porque sou, sim, carinhosa com minhas amigas. Talvez seja por conta do meio em que me encontro. Passei mais da metade de minha vida (até agora) convivendo com uma comunidade evangélica. E, neste momento, estudo numa faculdade católica, onde há (muitas) pessoas preconceituosas, sim.

Aquele riso (uma gargalhada abafada) de ontem não foi o único que ouvimos durante o percurso. Houve olhares, risinhos disfarçados, rapazes olhando-nos com desejo e toda sorte de julgamentos precipitados.

Eu não tenho problema algum em ser considerada lésbica ou bi ou whatever.
Mas eu tenho um sério problema em manter a calma perante o preconceito alheio.


(Porém, minha vontade é de voltar no tempo e arrancar a cabeça daquela criatura a tapa, mas me controlo.) 

6 comentários

  1. Putz. Se fosse apenas o fato de achar que são lésbicas, então tudo ótimo. O que tem de errado né?
    Mas deixar tão nítido um preconceito por duas garotas que nem sequer conhece... é. o. CÚMULO!

    E qual foi sua reação diante da querida homofóbica?

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  2. Mia, eu já passei por situações parecidas, em que colegas faziam esse tipo de comentário porque eu era sempre muito carinhosa com minhas amigas e elas comigo, o que nunca foi nada além do normal para mim. E olha, é irritante. Imagino como deve ser para as garotas homo ter que ouvir que a relação delas é "fetiche de homem" e ver meninas sendo chamadas de lésbica como se fosse um insulto (?). Preconceito a gente vê por aqui.

    Beijo

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  3. Que desagradável, Mia. Espero que tua amiga tenha ficado de boa também. O problema é que, em quesito de maturidade de estudante, uma universidade não fica muito atrás de curso preparatório pra vestibular. Um casal hétero dando um (s)celinho na porta da sala de aula e o comentário seria "GET A ROOM!" ou algo do tipo.
    Duas meninas de mãos dadas é um prato cheio. Mas não necessariamente pelo fato de que homossexualismo é engraçado. Na verdade não é. É novidade pro povo ver em nossa cultura pessoas do mesmo sexo tendo mais intimidade carinhosa (não pornográfica) na rua. As pessoas infelizmente ainda se perturbam porque salta aos olhos e ainda não é visto com a mesma naturalidade.
    Mas também tem a questão das meninas poser do colégio, que só querem mesmo é chamar atenção, assumir uma postura. Talvez por isso a guria passou por vocês e riu. Queria quebrar a pose de vocês, como se vocês quisessem assumir alguma coisa.
    É triste ver que a nossa cultura, na verdade, é de cuidar da vida dos outros :/

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  4. Tenho uma amiga que é igual a você, Mia. Ela adora andar agarrada comigo e com outras amigas e nunca tive vergonha. Sabemos que somos hétero e não temos preconceito nenhum. Infelizmente isso ainda é muito normal. Infelizmente preciso dizer que você teve sorte por só terem dado um risinho, quando muitos por aí ainda morrem por isso :/
    Acídia 28

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  5. Mia, tenho a leve impressão que se eu te conhecesse não conseguiria te levar muito a sério, porque eu ia te achar muito fofa, em relação a quase tudo e como tu se porta. Acho tão bonito.
    Não me leve a mal, viu, rs.
    Até.

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  6. Miaa #MiaMiga
    Amor meu, alegria das minhas noites de faculdade! Eu já tive cabelo curte (sim, tu sabe) então eu andava de mãos dadas com a minha amiga (morena, cabelos longos e lisos, bundão) e me olhavam (eu, cuturno, jeans e regata, cabelinho milico hmmm) e me tiravam pra lésbica, e eu podia bater o pé e dizer "Não, eu gosto é de homem!" que não adiantava.
    Mas, é a vida! No fundamental eu não podia abraçar e acarinhar as minhas coleguinhas que elas diziam "Qualé, ta me estranhando" e eu ficava assim /(._.)\ ok ok
    Os tempos passaram, mas nada mudou, e acabou que aquela menina preconceituosa nos tirou pra homossexual, mas sabemos que não somos e isso é que importa.
    Corte as unhas e segure a raiva. Mumu te ama <3
    E faz propaganda do meu blog aee u..u
    http://murysdiary.blogspot.com.br/

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