Ode ao realismo

estou muito cansada para 
escrever um poema bonito.
um poema com rimas, 
com encantos, 
um poema poético. 

estou demasiado cansada. 
incontrolavelmente cansada. 
cansada e com tonturas. 
cansada e com as pernas bambas. 
cansada da estética, do querer ser, do hosting. 

há pressão em minha fronte 
como se a fronte fosse, de fato, fronte 
de batalha. 
como se a vida fosse o eterno atirar-se de um canhão. 
ser um homem-bala. 
atingir a outros para, 
quem sabe, 
voltar todo estropiado 
apenas para servir de mais munição 
e salvar uma guerra que não é sua. 

eu não sou o inimigo. 
nem você. 
mas sou meu próprio algoz. 
sou eu quem escava minha sepultura. 
sou eu quem contratou o padre, 
quem obteve extrema-unção, 
quem jogou-se do penhasco 
e descobriu ter asas. 
fez-se de passarinho e voou. 
fez-se de águia e arrancou suas penas. 
apenas para ter o prazer 
de vê-las crescer novamente. 

sou meu inimigo 
quando me atiro 
em coisas que jamais saberei 
se são verdadeiras, 
se são fantasias,
se são efeitos colaterais, 
se são amor. 

sou a lança 
que perfura minha carne, 
que mata minhas dores, 
que alimenta o verme 
que eu mesma criei. 

3 comentários:

  1. Escrevi e apaguei esse comentário uma porção de vezes. Acho que qualquer coisa que eu acrescentar aqui depois desse poema, vai ser pouco. Incrível como sempre, Mia. ♥

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  2. Ah, mas eu amei tanto esta poesia (tão criativa)...!

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Wink .187 tons de frio.