Ponte para Terabítia, ou o porquê de eu não fazer amigos em ônibus

Eu sou o tipo de pessoa que não se contém.
Não consigo. Sou sensível. Não pareço sê-lo quando, numa conversa qualquer, esbravejo, falando de revoluções, vinganças e coisas do tipo, mas sou, de fato, extremamente sensível. Rio à toa. E também choro. Muito.

Abandonando as boas regras de composição frasal: sou chorona. Se algo me toca lá no fundo, se algo encontra aquele cantinho que procuro deixar no oculto - mas que parece cada vez mais em destaque, infelizmente  -, meus verdes e grandes olhos já ficam rasos d'água e não consigo conter o aperto que sinto na garganta. O choro vem. Choro quieta, é verdade. Sou o tipo de pessoa que chora silenciosamente, mas abundantemente.

Há uma pequena lista de coisas que me fazem chorar:
1. Crianças.
2. Velhinhos.
3. Abandono.

São apenas três coisas, mas elas são tão frequentes em minha vida que acabo sendo uma pessoa chorona - o que não combina nada com o resto da minha personalidade, mas culpo a lua em câncer por isso. A culpa, afinal, sempre será das estrelas.

O fato é que apesar de eu já ter assistido ao filme e, portanto, conhecer a história, a leitura de Ponte para Terabítia (editora Salamandra, 160 páginas) me foi... pesada. Sim, pesada é a melhor palavra para descrevê-la. O livro, que é basicamente a mesma coisa que o filme (sim, finalmente tivemos uma adaptação cinematográfica fidelíssima!), conta a história de Jess, um menino de dez anos que tem um sonho apenas: ser o corredor mais rápido das 3ª, 4ª e 5ª séries juntas. Sonho esse que ele vê desfeito quando uma garota desengonçada, meio hippie, esquisita, chega à escola. Leslie. Jess não sabe como reagir perante Leslie, afinal, ela mal chegou à sua escola e já ganhou de todos os meninos na arte de correr durante o recreio! Ele sente-se humilhado, porém aquela garota começa a aproximar-se dele, afinal, ele foi o único que não riu dela. E assim começa uma amizade, o tipo de amizade que muda uma vida.

O livro me fez refletir sobre duas coisas:
a) Escolhas: aquelas crianças tinham uma vida bem tensa (uma deixada de lado pelos pais - não exatamente, porque havia muito amor, mas os pais, escritores, não tinham muito tempo para ela -, outra numa pobreza desgraçada compartilhada por várias pessoas na mesma casa), mas decidiram ver as coisas de outra forma, decidiram usar a imaginação para escapar da realidade e isso sempre me será algo lindo porque, olha, nem sempre é recomendável dar a cara à tapa na vida. Às vezes precisamos do mundo mágico de uma criança para conseguirmos lidar com o dia a dia. E isso é o que falta em muitos adultos: a capacidade de abstrair e ver a realidade (por pior que seja) com outros olhos.
b) Seguir em frente: porque as adversidades da vida raramente se anunciam. Coisas ruins simplesmente acontecem e ou lidamos com elas e as deixamos ir (no caso de perdas) ou simplesmente nos afundamos em tristeza, em uma perspectiva de Samara Morgan (eternamente no poço e arrastando mais e mais pessoas para lá). É necessário saber seguir em frente e aí está mais uma coisa na qual crianças são boas. É algo que precisamos reaprender. Deixar de lado o que já não mais será, tirar algo bom do que se foi para sempre e reciclar a vida. É necessário. Para todos.

É um livro bonito demais. E triste. E inspirador.
O tipo de livro que faz pensar "o que raios estou fazendo com o que restou de mim?". 

Feche os olhos, mas mantenha a mente bem aberta. 

E é por isso que eu não faço amigos em ônibus: sou chorona. E leio em qualquer canto, especialmente durante as 4h de viagens de ônibus que faço diariamente. Todos me olham desconfiadíssimos, afinal, a moça está chorando, a maquiagem está borrando! E eu lá, deixando lagriminhas escorrerem pela face enquanto leio sobre coisas que me tocam profundamente. Ninguém entenderia. Então abraço meu livro, dou um suspiro e viro a página. Porque a vida continua. E nem tudo são lágrimas. 

5 comentários

  1. AHH, esse filme! ♥

    Não digo livro pq ainda não tive a coragem necessária para embarcar nessa aventura - não depois de ter chorado a vida quando assisti ao filme. Estou com o livro no Kobo há pelo menos um ano, mas ainda não senti que é o momento certo pra ler - ainda mais depois que você disse aí no seu texto que o filme é uma reprodução fiel do livro, então prevejo mais lágrimas a caminho. D:

    Também sou dessas que carrega um livro pra todo canto, ônibus principalmente. Já passei por algumas leituras e lágrimas no coletivo e, sim, o pessoal sempre olha engraçado pra mocinha emotiva sentada na janela. Mas tudo bem, é a vida, e não me importo muito com o julgamento alheio, rs. Afinal, tô ali sentindo coisas que eles não fazem nem ideia. (:

    Um beijo!

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  2. Eu não sei o que é pior, ser pega lendo um livro aos prantos ou dando gaitadas.

    Porque dando gaitadas já fiz. No ônibus. Ainda olhei pros lados como quem diz "cês não tão rindo DISSO aqui??"

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    1. Faço isso também. O tempo todo.
      Por isso as pessoas me olham com desconfiança, Amanda. Não basta eu chorar. Dou gargalhadas altíssimas também. Às vezes, ambas na mesma viagem. OU SEJA. hahahaha

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  3. Não faço amigos no ônibus porque não quero e não gosto hahaha como não consigo ler dentro de ônibus/carro eu aproveito pra ouvir música e dormir, porque dormir é sempre bom! Esse livro tá na minha lista do desafio literário desse ano, porque amei o filme por mais dolorido que ele seja e quero muito muito muito ler agora hahaha
    Beijo!

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  4. Muito amor por esse filme! Volta e meia ele está passando na tv aberta e volta e meia estou assistindo e chorando tudo de novo. Só depois de algum tempo pude ler o livro e é tudo muito triste, sempre. Um soco no estômago! Acho que nunca vou me acostumar...

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