Da pior viagem de ônibus do mundo

Quinta-feira véspera de feriado.
Também conhecida como: os portões do inferno.

Porque todos sabemos que quinta-feira véspera de feriado as coisas tendem a ser meio... peculiares. Especialmente quando eu estou envolvida. Afinal, reunir bizarrice é comigo mesma.

Consegui sair mais cedo da faculdade. Terminei a prova e fui-me embora (pra Pasárgada) pra parada pegar o ônibus lotado que me conduz diariamente até minha linda e silenciosa casa. No outro dia, sexta-feira, eu iria viajar e, por conta dessa minha rotina maluca não havia feito a mochila (quem precisa de mala quando se tem uma mochila de caveiras cor-de-rosa numa vibe emo 2005 forever, né mesmo?!) ainda. Tinha de chegar em casa, tomar banho, arrumar a mochila, comer e dormir para estar acordada e pronta no outro dia pela manhã, quando meu namorado me buscaria para curtimos o feriadão bem longe dessa confusão (e dessa gente que não se respeita, tenho quase certeza que eu não sou daqui ♪).

Eram 21h e eu estava alegre e saltitante na parada de ônibus esperando por minha condução e felicíssima, afinal, chegaria cedo em casa (e se você acha que isso não é cedo, lhe direi apenas que: chego em casa meia-noite e meia diariamente, miga, ou seja, chegar lá pelas dez da noite, que era a ideia, é cedo pra caramba, sim). Um rapaz - que aqui será chamado de nazista - apareceu lá e começou com uns papos estranhos sobre a supremacia alemã. E eu me fazendo de louca porque OI, ESTAVA EU SOZINHA NAQUELA PARADA COM UM FÃ DE HITLER ME PAQUERANDO LOUCAMENTE, SOCORRO.

E o ônibus não vinha.
Passou-se uma hora e nada. Passou-se duas horas e nada. O nazista não saía do meu lado tagarelando sobre Hitler e todas as conquistas alemãs e me passando toda a genealogia da família dele. E eu só pensava que TOMARA DEUS QUE ELE NÃO DESCUBRA MINHA ASCENDÊNCIA JUDIA (não completamente, mas em partes; aliás, eu tenho partes de tudo quanto é coisa no DNA: espanhol, inglês, judeu, polonês, russo e chinês, mas para facilitar o processo fui criada apenas de acordo com os costumes ingleses de ser, porém, pra um nazista, isso não é relevante, ou seja).

O nazista falava e eu só fazia cara de olhar bovino e tentava desvirtuar a conversa para, sei lá, balonismo. Obviamente isso não funcionou e o rapaz já estava me convidando para sair com ele (HAHAHAHA JAMAIS), No que eu mostrei a minha aliança e disse o que já havia dito, mas ele havia se recusado a ouvir: sou comprometida, bjs. No que o nazista responde perguntando:
- Mas tu mora com ele?
- Não.
- Só namora?
- É.
- Ah, então não tem problema.

QUE.MEDO.


No que chegou meia-noite e meia o ônibus apareceu. Eu já estava morrendo de medo e, por isso, corri em direção à porta e consegui entrar, finalmente. Aquele ônibus lotado, cheio de gente suada que claramente desconhece o conceito de banho ou álcool em gel ao menos, assim como desconhece o movimento de abertura de uma janela, porque estava tudo fechado e todos se recusavam a abrir uma fresta que fosse por motivos de tá frio. DANE-SE O FRIO, TEM 80 PESSOAS NESTE ÔNIBUS RESPIRANDO O MESMO AAAAAAAAAAAR, mas enfim. Prioridades.

Após mais ou menos 1h e meia de viagem o ônibus começou a esvaziar e eu pude finalmente sentar num canto. O nazista havia pegado o mesmo ônibus que eu, mas não havia me incomodado durante o trajeto por motivos de: sou pequena, sou uma hobbit, ao passo que ele é gigante, portanto pude me encolher num cantinho onde ele não coube e teve de ficar afastado, aleluia.

Quando consegui sentar o dito cujo tentou se aproximar pra reavivar o papo. E se aproximou. Sentou ao meu lado e começou com o blablabla de "tu é a guria mais interessante que já conheci, adoraria sair contigo pra tomar algo e conversarmos sobre outras coisas etc." e eu não sabia mais como me livrar dele.


Até que tive a bela ideia de DORMIR. Fechei os olhos e fingi ter caído no sono ali mesmo e assim fiquei até que, 1h depois, ele desceu do ônibus.

Nisso já era em torno das 2h da manhã e eu tava apavorada porque esse ônibus, que costuma ir super ligeiro durante a noite, não chegava nunca e eu ainda tinha de chegar em casa, tomar banho, arrumar as coisas e dormir para estar linda, cheirosa e pronta para a manhã do dia seguinte - ou do mesmo dia, no caso.

E nem falo do pavor do perigo porque a essas alturas do campeonato eu nem pensava nisso que é pra não entrar em desespero.

Quando o ônibus finalmente chegou na altura de dois bairros de distância do meu, num trevo (se você não sabe o que é isso, é um tipo de cruzamento muito louco que vai para todos os lados e a pessoa pode simplesmente escolher seu destino e ir pra todas as direções com seu veículo; também é muito bom para fazer pactos com o demônio, mas isso eu já não recomendo - ou sim), o motorista se vira, olha pra o cobrador e fala:
- Tá a fim de dar uma voltinha?
- Pra onde?
- Sei lá, vamos decidir!
- Vamos!
- Pra esquerda!

Havia três pessoas mais eu no ônibus e, gente, eu tava caindo de sono, mas naquela hora despertei e dei um grito que deve ter quase matado todo mundo do coração porque o motorista freou, o cobrador derrubou as moedas e todos me olharam com cara de espanto, ao que o motorista disse:
- Calma, moça, daqui a pouco chegaremos lá.

Pois bem, eu não podia descer daquele ônibus em plena madrugada, então tive de permanecer e esperar que o motorista se decidisse a chegar no meu bairro. Enquanto isso eu apenas observei o mundo à minha volta e a escuridão da mata porque, vejam bem, eu moro no final da cidade, início dos matos e fazendas. Aí que o tal motorista se dirigiu a um bairro até então desconhecido para mim que é puro mato. MUITO MEDO NAQUELE MOMENTO, já imaginei mil formas de morrer pelas mãos do motorista e do cobrador, que claramente eram serial killers matadores de meninas durante a madrugada, que tomavam sangue e faziam altas orgias no meio do mato descampado.


Após cerca do que pareceu uma infinidade - mas foi "apenas" mais uns 40 min - o motorista se dirigiu ao meu bairro. ALELUIAS, UMA SALVA DE PALMAS, EEEEEEH! \o/ E pude, enfim, chegar em casa e explicar pra meus pais que, olha, tô bem, tô viva, mas esse motorista vai ouvir e muito porque certamente o denunciarei, blablabla, whiskas sachê.

Mal tive energia para falar isso e caí na cama. O banho ficou pra de manhã, meia hora antes de sair, assim como a arrumação das coisas que consistiu em pegar as primeiras peças que caíram do guarda-roupa e colocá-las distraidamente dentro de uma mochila.

Mas o importante é que sobrevivi pra contar a história da pior viagem de ônibus do mundo.

9 comentários:

  1. Nossa senhora, Mia, achei que você ainda foi calma demais. Se fosse eu, já teria ligado pra todo mundo, chorado, morrido do coração, sei lá. Na verdade, eu acho que nem chegaria a entrar no ônibus, porque já teria morrido naquela conversa com o nazista, meu coração simplesmente não ia aguentar tanto medo, porque gente doida é uma coisa e esse ser claramente tem uns parafusos a menos. Embora seja uma história meio dark, ri com a maneira que você contou e graças aos céus que nada aconteceu né!!! E que motorista louco pra "passear" numa hora dessas af maria.
    Beijoss

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  2. me sentindo o pior cerumano do mundo por ter reclamado tanto do meu fretado com gente falando. sério... o que foi essa noite do terror? rolou até um mini hitler O_o" esses jovens de hoje tsc.

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  3. Que horror, Mia! D:

    No teu lugar acho que eu teria dado uma surtadinha básica. A começar pelo projeto de nazista te paquerando no ponto do ônibus no meio da noite, AHH. Gente, que abuso e que terror. ODEIO quando estou sozinha no ponto de ônibus e vem algum cara passar conversa. Já me sobe o sangue pq, claro, tô sozinha significa tô disponível, e, segundo, por motivos de medo, muito medo de ficar sozinha com elementos estranhos no ponto do ônibus.

    E nesse momento tenho que confessar: sou a paranoia em pessoa, então seu estivesse no ônibus quando o motorista e o cobrador resolveram passear, certamente teria chegado nesse pensamentos sobre serial killers e coisa e tal. (Explicação do trevo, MELHOR explicação).

    Se cuida aí! ♥

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  4. Puxa, Mia. Fui lendo seu relato achando a cada parágrafo que não tinha como ficar pior e: ficava pior. Eu não me imagino nesse cenário sem ter feito pelo menos umas 500 ligações para os meus pais ou meu irmão pedindo peloamordedeusvemmebuscar, logo na fase 1 com o nazista. Considere-se sortuda por ter se safado dessa como ninja. E bom feriado!

    Beijinhos.

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  5. Ai meu Deus eu não sobreviveria pra contar a história porque provavelmente estaria até agora chorando de pânico embaixo da cama.
    Odeio o ônibus que preciso pegar pra ir embora porque é muito fácil disso acontecer nele. Os motoristas são uns malucos que correm como fórmula 1 e as vezes, ficam falando sozinhos uns papos muito estranhos. :||

    Que bom que foi apenas um enorme susto, que o nazista 'deixou' você dormir e que o motorista não te abandonou no meio do mato. Só espero que você o tenha denunciado, só pra ele largar de ser bobo.

    Beijos.

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  6. QUE. MEDO.
    Só de pensar em estar num ônibus depois da meia noite já me dá calafrios. Eu sou a pessoa mais cagada pra andar de ônibus de noite. É foda ser guria de apartamento criada e leite ninho e pera nesses momentos, mas é que, não me entenda mal, eu volto de van da faculdade só pra não ter que pegar dois ônibus pra voltar pra casa.
    Além disso, que coisa chata ter que fingir que tá dormindo só pro cara se ligar que você não tá a fim. Cara esse muito bizarro, pra ser sincera.

    Beijos!

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  7. QUE. PAVOR.
    Depois esses motoristas aí fazem greve porque se acham megacompetentes e mal pagos, mas se atrasam, dão rolê com pessoas dentro do ônibus e parecem ser incapazes de se importarem MENOS.
    Agora, quanto ao nazista... das duas uma, ou eu teria fingido que não falava uma sílaba em português e teria perguntado se ele fala inglês e se sabia falar alemão e pediria pra ele falar em alemão, ou eu virava pra ele e perguntava "você já aceitou Deus na sua vida? Deus está em toda a parte, como nessas árvores, naquelas estrelas, tudo a nossa volta é Deus, nada de Shiva, de Buda, de Alá e Deus nos livre considerarmos Mun Rá" e dominaria a conversa com um monte de merda religiosa sem pé nem cabeça.
    Com louco se responde com loucura.
    E dizer que não quer sair com um cara porque é comprometida, Mia? WROOOONG! Tinha que dizer "não, obrigada". Ah, por quê? "Não estou com vontade". Ah, mas tu tem namorado? "Eu tenho". Tu mora com ele? "MORO, CARALHO, ELE TEM TRÊS METROS DE ALTURA E TRABALHA NA POLÍCIA FEDERAL, É UM LOUCO CIUMENTO QUE JÁ ATÉ COLOCOU DETETIVE ATRÁS DE MIM!" ← nesta frase acrescente olhar insano de lambuja ♥

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  8. GENTE QUE HORROR! Esses caras não tem casa não? Família? Não tem mais o que FAZER? Credo! As poucas vezes que peguei o último ônibus fiquei com medo é do cara bater tamanha a velocidade que ia, cheguei a fazer em 10 minutos um caminho que geralmente dura 30/40 só porque o cara queria MUITO ir pra casa hahaha


    mas que horror, pelo menos passou! E eu espero que você aproveite a viagem!

    Beijo!

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  9. Na hora que o motorista mudou de caminho eu ja começava a rezar porque certamente isso daria em merda kkkkkk

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Wink .187 tons de frio.