Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Anteontem um rapaz foi baleado e morreu no ônibus.
Eu realmente não gostaria de falar sobre isso, mas parece que não consigo, neste momento, escrever sobre outra coisa. O rapaz foi assassinado sem motivos, sem reação. Sei que os jornais estão dizendo que houve reação, mas não houve. O rapaz, pelo que entendi, era deficiente auditivo. E fazer uso de libras para tentar entender o que diabos estava acontecendo virou sinônimo de reação a um assalto, aparentemente.

O rapaz tinha a minha idade. 21 anos. Também estudante. Morava perto da minha casa. Era freguês na lancheria da minha avó.

Eu não conhecia o rapaz, mas não pude esquecer sua morte. Não pude esquecer que, 5 minutos após sua morte, outros rapazes que também estavam no ônibus, ao meu lado, falaram, revoltados, que onde já se viu morrer justamente no ônibus em que eu estou; poderia até ter morrido, mas não quando eu tô aqui; que saco, vou demorar pra chegar em casa agora, tá tarde e o sangue respingou.

Não pude esquecer que instantes depois todos estavam mexendo em seus smartphones, enviando mensagens em seus whatsapps, compartilhando bobagens em seus fbs e com uma cara de tédio profundo, como se nada houvesse acontecido.

Eu fecho meus olhos para dormir e vejo sangue. Eu saio na rua para pegar um ônibus e tenho medo de ser a próxima. Hoje me recusei a pegar um ônibus para ir ao dentista: foi uma caminhada de quilômetros, simplesmente porque eu estou com medo.

É uma verdade incontestável o fato de que a violência está cada vez pior e a impunidade anda solta por aí. Mas creio que a verdade mais cruel, o que mais me assusta, o que tem assombrado meus sonhos, são as vozes daquelas pessoas, estudantes como eu, como o rapaz que morreu, que estavam irritadas não porque um jovem foi morto na frente delas ou porque houve uma tentativa de assalto, mas sim porque ele tinha de morrer quando elas estavam no ônibus, só para que chegassem atrasadas em casa.

Eu não sei quem robotizou a população. Não sei como lidar com pessoas que postam no fb, quando um jovem é morto, uma mensagem dizendo "mais um estudante morto, descanse em paz" no intuito de ganhar likes, ao passo que, fora de seu mundinho virtual, para seus companheiros de ônibus e de tragédia, reclama em algo e bom som que o desgraçado tinha de morrer justamente quando ele estava no ônibus, que a grande tragédia era que ele chegaria atrasado em casa e, ainda por cima, com a roupa manchada de sangue. Eu vi. Eu ouvi. E não consigo esquecer.

Não consigo lidar com esse exército de robôs que invadiu as redes sociais. Um exército forjado no ponto certo para comover as massas virtualmente, mas que não esboça compaixão alguma na vida real. Pessoas de coração frio que usam a tecnologia para significar suas vidas cada vez mais inúteis e vazias.

Vamos todos pagar de bonzinhos nas redes sociais e desviar de uma pessoa ferida, à beira da morte, na vida real porque, nossa, que coisa nojenta que é o sangue. Mas as pessoas precisam saber o que aconteceu, então vamos falar disso no fb, vamos mandar mensagens sobre isso no whatsapp, vamos fingir que nos importamos para que haja provas de que ainda temos um coração bombeando sangue em nosso peito, para que haja provas de que ainda somos humanos, para que não descubram que fomos robotizados e aqui dentro há apenas engrenagens que funcionam perfeitamente, feito um relógio suíço.


6 comentários:

  1. Que post triste, Mia, mas extremamente verdadeiro, infelizmente. Sinto muito mesmo por você ter presenciado a morte de uma pessoa, mas sinto mais ainda que isso aconteceu com esse jovem, ou com qualquer um, pra ser sincera. Sinto muito mesmo. E me dói profundamente perceber que isso já está tão comum e banalizado que a maioria das pessoas não compreende o que realmente significou aquilo. Uma pessoa deixou de viver, um jovem, uma vida acabou naquele instante. Mas ta todo mundo tão ocupado pensando em si que eles esquecem de enxergar.
    Pra ser realmente sincera, eu não assisto jornais e coisas parecidas porque esse tipo de notícia me afeta muito, eu choro, eu fico triste, eu não compreendo o mundo, tenho vontade de sumir daqui, não tenho nem palavras. Novamente, sinto muito por essa violência existir, sinto muito que nem todos consigam enxergar os outros, a dor dos outros. Sinto muito.

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  2. Ai, Mia. Nem sei o que te falar. Eu sinto muito isso, o tempo todo. Que as pessoas querem aplausos por compartilhar um vá em paz no facebook, mas ao mesmo tempo reclamam que o trânsito tá lento porque "mataram mais um, né?".
    A cada dia eu ando mais aterrorizada. Eu sempre tive medo de andar na rua, então acabo pegando o ônibus. Se tenho que andar na rua, ando olhando pra trás a cada vinte passos.
    Domingo mataram um na entrada da minha universidade. Foi uma execução, na verdade, mais de dez tiros. Segunda tentaram sequestrar duas professoras de outra universidade. E hoje meus amigos me repassaram fotos e vídeos e relatos de um cara que entrou, mega drogado, numa sala de aula DA MINHA UNIVERSIDADE, dizendo que estava "louco" e ia matar todo mundo (tudo está certo, ele foi preso). E tudo o que eu sinto é medo. Medo, medo, medo. Não penso no trânsito ou se vou chegar dez minutos atrasada, eu penso que pode acontecer comigo, com a minha irmã que está em POA, com meus amigos, minha mãe. E eu quase choro só de imaginar.
    Que merda. De verdade.

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  3. Te falei que li a notícia minúscula no jornal e, quando vi que era ônibus indo pra Viamão, senti que tu tava nesse ônibus, mas sem ter certeza.
    Eu não faço ideia do que é ver uma pessoa ser baleada na minha frente, ou atrás de mim, ou no mesmo ônibus que eu.
    Mas eu sei o que é a expectativa de SER baleada, porque quase fui assaltada e reagi verbalmente (pedindo que, por favor, não me assaltassem).
    Agora, o fato de seres insensíveis terem se borrado de medo durante o assalto, sequer terem tido levado seus smartphones, para depois postarem no Facebook o que aconteceu e ainda terem reclamado que houve uma fatalidade, só deixa ainda mais evidente a rotina de crime que estamos vivendo. É "só mais um". E ninguém comemora quando prendem bandido, porque sempre tem um socialista de merda dizendo que "ele não teve oportunidade", ou uma Maria do Rosário pra dizer "coitadinho, ele é pobre".
    SER POBRE NÃO JUSTIFICA SER UM CRIMINOSO. Nem ser rico, como os caras de pau da cúpula de um certo partidinho aí que foi toda pra Papuda, saiu e, puxa vida, o "herói do povo" volta pra prisão. Irônico.
    Não bastou o governo dar casa, dar comida, dar sessenta prestações pra pagar por um carro, dar PRONATEC, dar bolsa de estudo, cota racial? Ainda assim o cara tem que fazer a mãe perder o Bolsa Família porque não vai pra escola, mas sai de noite pegando numa arma comprada na Vila Cruzeiro e assalta as pessoas sob efeito das drogas (que querem descriminalizar o consumo pessoal, hahhaha).
    Tá tudo de cabeça pra baixo e, sinceramente, minha sobrinha tem dois anos de idade, mas quando fizer 30 quem sabe já não haverá um pouquinho da tão temida ORDEM nesse país.
    Tem gente que tem nojo de sangue. E tem quem tem nojo de seguir as regras.

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  4. Poxa Mia, nem sei o que dizer depois desse seu post.

    Só sei que está difícil, está puxado viver nesse mundo. Ficar rodeada de gente que não se importa, que não tem empatia está difícil demais. Estudei na Puc, e aqui em Cwb ela faz divisa com uma favela enorme e, vira e mexe, saía alguma notícia de tiroteio, alunos e moradores mortos, um horror. Mas o quanto eu ouvi de gente reclamando dos mortos (!) é de tirar do sério. Sabe, como se a morte de outra pessoa fosse uma mera inconveniência na rotina dos outros, como se não fosse nada demais uma pessoa perder a vida por causa da violência urbana.

    Sinto medo quando ando sozinha na rua, quando ando de ônibus. Sinto medo quando minha irmã vai sozinha ali na esquina, sabe? Fico pensando nos meus pais saindo de casa e só posso rezar para que, no final do dia, todo mundo volte bem. Tá difícil, muito difícil.

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  5. Mia, no dia que aconteceu acho que vi você falando algo no fb e já tinha me chocado, mas agora, lendo com mais cuidado, é mais que choque, é tristeza ao pensar que esse mundo tá doente e que não tem mais jeito. :/

    Se as pessoas fossem mais solidárias, talvez tivesse jeito e se tivesse mais amor no coração né, aquele velho clichê.

    Quando a morte de uma pessoa incomoda alguém que chegará um pouco mais tarde em casa, eu não sei mais o que esperar da vida.

    Vou ficar de cá torcendo - e farei uma oração, porque sou dessas - por todos nós e nossa segurança.
    Um beijo. Se cuida! <3

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  6. Tem coisas acontecendo do meu lado, que também me assustam.
    Tentar dormir e esquecer as cenas não tá dando certo. Meu cérebro me trolka mostrando sangue e armas. Te entendo.
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Wink .187 tons de frio.