O caso do rabiscador de livros

Uma das minhas leituras obrigatórias é O Estrangeiro, do Camus. Fiquei toda empolgada porque havia colocado, durante as férias, esse livro na minha lista de leituras que pretendo fazer antes de morrer. Não fazia ideia da história que nele há, claro, mas assim que peguei o livro o abri e me deparei com isto: 


Para quem não está conseguindo entender essa primorosa caligrafia, está escrito: "A medida em que fui lendo este livro fui me enfraquecendo.", e sem crase mesmo porque a querida pessoa rabiscadora de livros desconhece o conceito de acentuação.

Desanimei na hora, obviamente, porque né? COMASSIM TU FOI TE ENFRAQUECENDO CONFORME LIA ESSE LIVRO, PESSOA? Não sabemos. Só sei que virei a página e me deparei com um dos começos de livro mais estranhos e desalentadores que já li até hoje:

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames." Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. 

E é assim que começa o maravilhoso livro que enfraqueceu o carinha rabiscador de livros e que, por acaso, é uma leitura obrigatória deste semestre.

Estranhamente o livro está sendo delicioso até agora e não me enfraqueci nem um pouco, apesar da tenebrosa afirmação do rabiscador. Contudo, o fato é que: quase todos os livros que eu pego na biblioteca da faculdade vêm com várias anotações desse rapaz. Como eu sei que é um rapaz? Estudei grafologia por anos, só porque sim. Como eu sei que as anotações em todos os livros são dele? Porque a letra é a mesma.

Esse rapaz escreveu no livro do Borges, no Pedagogia do oprimido, do Freire, nos livros da Isabel Allende, até no do Kundera ele escreveu. E só faz escritas inteligentes e introspectivas. Como se deixasse pistas para que algum usuário da biblioteca as achasse e procurasse por ele.

Não que eu vá fazer isso, porque né? PARÂMETROS. Tenho mais o que fazer da vida.

Mas que estou curiosa pra saber quem é o rapaz que tira exatamente os mesmos livros que eu - lembrando que apenas esse do Camus é leitura obrigatória, os outros todos são leitura de lazer mesmo -, porque né, pelamor, não está sendo possível. É como se houvesse um comentarista anônimo em todos os livros que leio, risos.

Se você conhecer um rapaz da PUCRS com essa maravilhosa (cof, cof) caligrafia, diga-lhe que: FAÇA UM BLOG DE RESENHAS E PARE DE ESCREVER NOS LIVROS DA BIBLIOTECA, CARAMBA!

6 comentários

  1. Nossa senhora, esse parece um dos mistérios que eu iria atrás para descobrir. Estou aqui pensando em todas as pessoas que eu conheço e que estudam da PUCRS, porque essa pessoa deve ser no mínimo interessante com todas essas anotações.
    E com esse começo de livro, já digo que PRECISO ler!
    Beijos.

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  2. Ai gente, livros rabiscados não dá. Mesmo que sejam comentários inteligentes, se quer tanto tem post its né.
    A letra é linda mesmo! Mas fiquei com medo de ler, não quero ser enfraquecida (ou melho, quero sim). Já vou skoobear. :)

    Beijos.

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  3. Não gosto de rabiscar em livros, mas fico super intrigada pelas pessoas que os fazem!

    Esse não parece ser um livro leve, e cada história tem um efeito diferente em cada um né? Mas poxa, agora até eu queria encontrar esse moço, e olha que eu nem sou do Sul...

    Beijo!

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  4. Primeiro: eu me sinto confusa com relação a comentários em livros. Já peguei livros assim e achei fantástico ter o olhar de outra pessoa, uma presença extra na leitura. Íntimo e intimidador. Já me irritou também, embora eu não seja tão purista.

    Segundo: esse livro é uma inspiração, uma referência para as minhas histórias. E talvez, esse comentário misterioso faça bastante sentido. Enfraquece mesmo, mas é só porque incomoda sendo tão fora do lugar comum. Ao mesmo tempo banal e devastador.

    Na verdade, só comecei esse comentário para dizer que é uma leitura maravilhosa.

    Até.


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  5. Adoro livros com rabiscos. Dedicatória, comentários referentes ao livro, etc. Torna a história muito mais unica. <3

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  6. Mas deixa o cidadão escrever nos livros! Pra mim seria uma surpresa ler um livro usado cheio de glosas.
    Ultimamente eu tenho pensado em sublinhas os livros. Estou tentando terminar Xangai Baby e já pensei em ter um lápis em algum momento da leitura. Agora nunca mais vou achar o que eu queria ter sublinhado.

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