O Jorge Luis que não é Borges

Meu pai e eu fazemos aniversário com apenas 5 dias de diferença - o que significa que ele é tão aquariano quanto eu. Como bom aquariano que é, me ensinou a ser livre, a me defender, a jamais deixar alguém me colocar pra baixo e, o mais importante: meu pai me ensinou a ler e a escrever.

Era o meu aniversário de 3 anos e meu pai me disse que iríamos ao centro de Porto Alegre para comprar o meu presente de aniversário. Eu fiquei maluca com aquilo porque, wow, o centro de PoA parecia grande demais para mim - coisa que parece até hoje -, e eu estava apavorada e ansiosa para escolher o meu presente. Chegamos na loja e meu pai me deixou escolher o que eu quisesse. QUERO UM CADERNO E MUITAS CANETAS PRA APRENDER A LER E A ESCREVER. Eu já sabia o alfabeto básico e o meu nome, mas não sabia, de fato, escrever. Okay, uma criança de 2 anos não tem que saber essas coisas, mas eu sou a filha caçula. Meus irmãos já estavam no Ensino Médio quando eu estava aprendendo a andar. Eu os via indo pra escola, lendo, fazendo os temas e queria entrar naquele universo mágico em que as pessoas se comunicavam em silêncio através de desenhos no papel.

Meu pai concordou e me deu não apenas um caderno e algumas canetas, mas vários livros de alfabetização através de contos de fadas e histórias tipicamente brasileiras, como a Iara e o Saci.

Voltei pra casa orgulhosa porque agora eu era uma menina com livros, canetas e um lindo caderno em branco pronto para ser preenchido com meus garranchos. Ninguém levou aquilo a sério. A família toda riu e disse que eu era uma criança estranha - e era mesmo. Só meu pai levou aquilo adiante. Ele sentava comigo e me ensinava a juntar as letrinhas, a aprender os fonemas, a ler os livrinhos de história e, não contente com isso, me ensinou também a escrever histórias. Ele me sentava numa cadeirinha e ia escrevendo histórias, sempre me perguntando o que aconteceria em seguida. Meu pai me estimulou a usar a imaginação e me inseriu no universo mágico da literatura.

Eu nunca frequentei a pré-escola, creche ou seja lá como vocês chamem a escolinha, fui direto para a 1ª série, mas fui educada em casa, basicamente. Antes de eu dormir, meu pai me contava histórias de mulheres fortes, que não se deixaram ser comandadas por homens, mulheres como Joana d'Arc, Margaret Thatcher e Elizabeth I. O resultado foi que, ao chegar à escola, eu já sabia de basicamente tudo o que estavam ensinando, e nunca tive problemas escolares por conta disso.

Eu já dei o feliz dia dos pais ao meu pai, portanto este não é um texto para parabenizá-lo. Este é um texto para registrar que sou o que sou por conta dele. Adquiri o amor pela literatura com meu pai e o amor pela gastronomia com minha mãe.

Por conta dele eu nunca tive medo de expressar a minha opinião. Por conta dele eu comecei a me aventurar no mundo da literatura através de clássicos como O Conde de Monte Cristo. Por conta dele eu tive o apoio moral para me jogar no feminismo. Por conta dele eu estou aqui hoje. Meu pai = melhor pessoa.

~meu pai lendo Borges e seu livro dos seres imaginários no ônibus~ 

4 comentários:

  1. Sempre fico emocionada lendo homenagens de dia dos pais, dia das mães e coisas desse tipo porque fico muito feliz de saber que o mundo é feito por pessoas tão legais. A gente passa tanto tempo focada nas ruins que acaba esquecendo que as boas estão sempre em maior número que as más. E pessoas boas criam outras pessoas melhores ainda, e precisam ser celebradas <#
    parabéns pro seu pai!
    beijo

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  2. Que texto lindo, Mia! Fico bastante emocionada lendo relatos pessoais sobre influência, principalmente dentro da própria família. Eu não comecei a ler e escrever tão cedo como você (um ano depois, acho), mas meu pai cumpriu seu papel na minha alfabetização e na transmissão de valores, e as minhas tias na introdução à leitura. E eu só consigo ser grata por mim, e por saber que outros são tão afortunados como eu à sua própria maneira.

    Feliz dia dos pais para o seu papito! E muito sucesso na sua carreira com a literatura (AMEI o post anterior a próposito, sou a maior defensora de literatura escrita por mulheres e não poderia ter dito melhor). Beijinhos! :*

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  3. Que linda homenagem, Mia. Um pai dedicado como todos deveriam ser, querendo o melhor para a filha, mas o melhor que venha de dentro para fora.
    Acho que ele deita todas as noites e, quando pensa em ti, vem uma frase:

    "My duty here is done". :)

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  4. Sua Homenagem foi linda, gostei bastante, vi muito da minha relação com meu pai nesse texto, eu e ele somos arianos com 4 dias de diferença. Então aqui em casa quem mais me compreende de todos é ele e vice-versa.kkk

    Quando puder da uma passadinha lá no blog =D
    http://falandosobrealgo.blogspot.com.br/

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Wink .187 tons de frio.