O sutil absurdo da obra de Camus

Uma das leituras obrigatórias da disciplina de Leitura de Autores Modernos é O Estrangeiro (editora Record, 126 p.), do Albert Camus. Eu não sabia absolutamente nada sobre o livro além do fato de que ele é um desses livros considerados cults e difíceis de entender, mas já estava na minha lista de leitura por motivos de que marquei para ler algum dia todos os livros da coleção Mestres da Literatura Contemporânea - simplesmente porque sim.

Do que trata esse livro? Nele conhecemos a história de Mersault, um jovem nem tão jovem assim que um dia, do mais absoluto nada, mata um rapaz árabe. E essa é basicamente a história. Sério. O livro é curto, tem apenas 126 páginas, e Camus conta a história de mais ou menos um ano da vida de Mersault, desde dias antes do assassinato do rapaz árabe sem nome até o período de julgamento.

A história é absurdamente simples, mas há uma história dentro da história ~suspense~. Após ler esse livro eu entendi e tive de concordar com o porquê o pessoal chama esse livro de cult. Você vai se tornar cult se lê-lo? OLHA, NÃO. Até porque essa coisa de cult é bem ridícula, né? Mas digamos que ele te faz pensar e refletir de uma forma até então inédita para mim.

Antes de dizer o porquê disso, preciso contextualizar a obra: O Estrangeiro foi escrito no período do pós-guerra (final da Segunda Guerra Mundial), período esse em que o romantismo havia caído no desuso e o que estava em voga era o questionamento em busca de um sentido para viver. "Mas então o livro é existencialista!" Poderia ser, contudo o próprio Camus disse que não, não é. E por mais que um livro sempre deixe margem para diversas interpretações, é de bom tom respeitar a visão do autor.

O livro faz parte da Trilogia do Absurdo de Camus, que conta também com O Mito de Sísifo e Calígula. Na verdade, lendo um pouco sobre a vida do Camus, pude descobrir que o cara era metido a filósofo e adorava divagar sobre o absurdo da existência humana. Ainda mais em tempos de guerra, em que tudo era um absurdo e o absurdo em si próprio era uma forma de contestação. Em outras palavras, como diria Ricky Martin: livin' la vida loca.

E é isso o que Mersault, a personagem central do livro, faz: vive como se não houvesse consequências e como se nada realmente importasse. Ele não está nem aí pra nada. Na primeira frase do livro ficamos sabendo que sua mãe morreu. Literalmente, essa é a primeira frase do livro.

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames." Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

A partir disso Camus nos leva a conhecer sua personagem por conta de uma narrativa em 1ª pessoa que nos deixa com muita, muita vontade de quebrar a cara do Mersault. Mas não nos dá vontade de largar o livro. Isso porque Camus nos entrega uma escrita maravilhosamente apaixonante. Apesar do enredo, em primeira instância, simples, o cara conseguiu transformar uma mera história de assassinato e condenação em um dos livros mais aclamados do mundo.

Isso não é pra qualquer um.

O cara é TÃO sutil que você percebe perfeitamente o que ele quis dizer com essa história sem que ele nos diga, de fato, o que raios está apresentando ali. Camus quis mostrar o absurdo da vida humana que cai no tédio existencial e dele não consegue sair porque tudo parece aceitável, tudo parece passível de ocorrência, nada faz diferença.

Gostaria de tentar explicar-lhe cordialmente, quase com afeição, que nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. (p. 104) 

É aquela velha história de usar a culpa como manutenção da civilidade. Você é uma boa pessoa se se sente culpado. Não importa muito o que fez, desde que se arrependa. Você não pode ser melhor do que os outros, você tem de se sentir apenas mais um na multidão, se se destacar, se não se desculpar por existir, então você não está apto para viver em sociedade.

O livro fala isso? Sim, mas não. Não abertamente, mas é a conclusão na qual se pode chegar mediante uma reflexão - "ai, mas TEM QUE refletir?!", não, não tem. Mas duvido que você não reflita automaticamente lendo esse livro incrível.

A MÃE DO CARA MORRE: tá tudo bem.
ELE ARRUMA UMA NAMORADA UM DIA DEPOIS: tá tudo bem.
A NAMORADA QUER CASAR: tá tudo bem.
MAS ELE NÃO A AMA PORQUE O AMOR, ESSA COISA IRREAL: tá tudo bem.
ELE CONHECE NOVOS AMIGOS: tá tudo bem.
ALGUÉM QUER MATAR O AMIGO DELE PORQUE O CARA É CANALHA: tá tudo bem.
ELE MATA UM ÁRABE: tá tudo bem.
ELE É CONDENADO POR CONTA DISSO: tá tudo bem.

É um tanto faz como tanto fez que deixa a pessoa meio desnorteada.

Camus já virou amorzinho literário. ♥

Não é um livro pesado, não é de difícil compreensão. Mas é coisa de gênio literário falar pouco em tão pouco e sendo tão sutil.

Se recomendo a leitura? SIIIIIIIIIIIIIM, POR FAVOR! É uma leitura rápida, fluida e tranquila. A escrita do Camus é deliciosa e vale muito a pena ser lida. \o/

Em um quote:
No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos trinta ou aos setenta anos pois, em qualquer dos casos, outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. Afinal, nada mais claro. Hoje, ou daqui a vinte anos, era sempre eu quem morria. (p. 117) 

P.S.: Enquanto lia o livro lembrei perfeitamente de duas músicas maravilhosas: Bohemian Rhapsody, do Queen e A revolta dos dândis I, do Engenheiros do Hawaii. A do Engenheiros foi confirmada como sendo inspirada no livro, já BoRhap não - Freddie Mercury sempre se recusou a dizer de onde raios tinha tirado o enredo pra música mais incrível do universo -, no entanto as semelhanças entre música e livro são muitas e não há como ler um sem lembrar da outra e vice-versa.

~because I'm easy-come, easy-go, a little high, a little low; anyway the wind blows doesn't really matter to me~

Um comentário

  1. MAMA JUST KILLED A MAN, PUT A GUN AGAINST HIS HEAD PULLED MY TRIGGER NOW HE'S DEAD, MAMA UUUUUUUUUUUUUUUUUUUH

    Sdds Freddie <3

    Não acredito que um livro tenha que ter uma numero minimo de páginas, mas fico encucada/curiosa com esses livros de menos de 200 paginas. Claro que eu nunca consegui desenvolver uma história decente que passasse dos vinte, mas não parece meio incompleto? Sei lá haha acho que vou ler um dia pra ver "colé" a desse livro!

    beijo!

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