Rory sou eu

Fazendo uma minimaratona de Gilmore Girls (série amor ♥), me deparei com este diálogo entre a Lorelai e a Rory:

— Isso é muito pequeno.
— A mochila não é muito pequena.
— Minúscula.
— Só leve os livros da escola e deixe os outros.
— Preciso de todos os outros.
— Você não precisa desses todos.
— Eu acho que preciso.
— Edna St. Vincent Millay?
— É meu livro para o ônibus.
— E o Faulkner?
— Meu outro livro para o ônibus.
— Então leve só um livro para o ônibus.
— A Millay é uma biografia. Às vezes, no ônibus, pego uma biografia e penso: "bem, não estou a fim de ler sobre a vida de alguém", então mudo para um romance. E se não quero o romance, troco de novo.
— E o Gore Vidal?
— É meu livro para o almoço.
— Então deixe o Vidal ou o Faulkner. Você não precisa de dois romances.
— O Vidal são ensaios.
— Aham. Mas o da Eudora Wely não são ensaios nem biografia.
— Certo.
— Então é um outro romance. Deixe.
— É um livro de contos.
— Isso é uma doença.
— Ha! Eu fiz tudo caber! Eudora, Vidal, Faulkner e Millay!
— Legal. Esqueceu seu livro de francês.
— Eu sei. Vou carregar meu livro de francês.
— Uhum. Você achou que o livro de francês já estava aí dentro. Você tem um problema.
— Não, eu não tenho.
— Tem que se curvar por conta do peso da sua mochila. 

Eu literalmente tive de pausar o episódio e anotar esse diálogo porque essa é a descrição da minha vida (mentira, a descrição da minha vida é mais como "ela não tem medo de falar o que pensa, só tem medo de apanhar na rua", mas finjamos que eu tenho duas vidas e que estou falando apenas e tão somente da vida de leitora agora).

Levo livros a qualquer lugar. Repito: qualquer lugar. Hoje fui ao dentista e levei dois livros: um do Hemingway (Adeus às armas) e um do Borges (Outras inquisições). "MAS PRECISA LEVAR DOIS? UM SÓ NÃO BASTA?" Precisa. Porque um é romance e o outro são ensaios. E se eu não estiver com vontade de ler um romance? E se alguma coisa acontecer, eu terminar de ler o romance e não tiver nada pra ler até voltar pra casa, vou ficar fazendo o quê? São questões muito relevantes para a pessoa leitora.

No mesmo episódio do diálogo, Rory é chamada na sala do diretor de Chilton - aquela escola só pra ricos e que ela estuda - porque, segundo ele, é um problema ela ser quieta, sentar na hora do intervalo com seu lanche e um livro. ONDE JÁ SE VIU NÃO SOCIALIZAR? Ele a chama de loner, uma pessoa antissocial, e a ameaça dizendo que ela não entraria pra universidade caso não passasse a socializar com os coleguinhas porque não bastava ter boa nota, a pessoa tem que ser pertencente a um grupo social.

~meus livros parecem muito tristes quando estão longe de mim~
Eu passei muito por isso durante toda a minha vida escolar - e passo até hoje, na verdade. Quando eu tinha meus 10 anos fui proibida de frequentar a biblioteca escolar, tudo isso porque as professoras achavam que eu lia demais pra minha idade e precisava socializar. Contudo, eu sempre fui cheia de amigos. Ser uma leitora assídua nunca me fez perder a amizade de ninguém, pelo contrário. Mas o fato é que passei todo o meu Ensino Fundamental sem poder entrar na biblioteca e, por conta disso, tive uma baita quebra no meu ritmo de leitura.

Só por curiosidade, esse foi o período mais "antissocial" que já tive. Risos.

Quando eu assisto algum episódio de Gilmore Girls me identifico imediatamente com a Rory porque ela é esquisita - no sentido fofo da palavra -, amiga da mãe - gente, se eu tenho amigos nesta vida, são meus pais -, conhece trocentas referências culturais antigas, que a maior parte do povo da idade dela não conhece, o que faz com que todo mundo fique com cara de olhar bovino perto dela porque ninguém entendeu a referência, ela tem amigos de todos os tipos, ela lê sem parar e sempre sonhou em ser uma jornalista/escritora. Basicamente um breve resumo da minha vida.

Aí eu tava vendo esse episódio e fiquei pensando: se a Rory se deu bem na vida mesmo carregando 5 livros na mochila diariamente e meio que evitando contato social porque, oi, a leitura tá mais interessante, por que eu não me daria, né? É. Caramba. Que mania as pessoas têm de achar que ler muito faz mal! Olha, não faz. Ano passado eu li mais de 120 livros e continuo tendo amizades maravilhosas, tenho namorado, tenho blog, tenho vida social. E tá tudo bem.

A vida toda eu fui vista como a esquisita, a nerd, a antissocial. Até hoje carrego essa fama, sendo que a verdade é que se algum dia eu quiser fazer uma viagem aleatória pelo mundo, tenho amigos em todos os lugares, em, literalmente, todos os continentes, que já cansaram de dizer que têm um lugar pra mim em suas casas o dia que eu puder ir pra lá. OU SEJA: vocês acham que se eu fosse realmente antissocial isso aconteceria? Eu acho que não.

Antissocialidade é um transtorno psicológico. Não é só porque a pessoa não curte estar com muita gente na volta que ela seja antissocial. Ela pode ser introvertida. Ela pode ser tímida. Ela pode ser desconfiada. Ela pode ser traumatizada. Ela pode estar entediada, com sono, irritada... As opções são quase infinitas. Mas as pessoas têm mania de rotular todo mundo. Só porque uma pessoa anda cheia de livros e não é muito de jogar conversa fora em ambientes de trabalho e/ou estudo, já é rotulada como antissocial.

AI.QUE.SACO.

É só meu jeitinho Rory de ser. Me deixem.

Este era pra ser um post sobre os livros que tenho carregado atualmente na bolsa, mas por motivos obscuros de cólica + anestesia + um canal aberto, acabou se tornando o que se tornou. Uhul. 

4 comentários

  1. Eu vim aqui humildemente comentar no post de ontem que eu tanto esperei, mas não consegui comentar no dia, daí eu me deparo com esse e: OHMYGOD! Minha obsessão por Gilmore Girls me faz soltar gritinhos histéricos sempre que eu vejo um post bem abordado sobre a série ou alguma coisa dela. Ignoremos o fato de que eu quis abraçar o computador.

    Enfim, esse é o episódio que eu te sugeri lá no Twitter esses dias, e o enredo dele é tão bom que sempre que eu quero assistir algum episódio aleatório de GG, acabo apelando para o Like Mother, Like Daughter. Além dessa cena incrível, que também define a minha vida (atualmente não ando carregando tantos livros, mas já fui assim e voltarei a ser), toda a questão da introversão o hobby solitário da leitura é digna de observação. Sem contar que Lorelai acaba sendo arrastada para a loucura do Headmaster Charleston e isso acaba num momento fofo e raro entre ela e a Emily. AMOAMOAMO.

    E o Michel? Gotta love Michel.

    - Michel, come pick me up?
    - I'm already here.
    - Put Carol on the desk and come pick me up.
    - I'm not speaking to Carol, she ate my lowfat cheese.
    - Michel, come pick me up and I'll buy you some cheese.
    - Lowfat cheese.
    - Lowfat cheese.
    - Lowfat american cheese.
    - Lowfat american cheese.
    - And a merengue cookie.

    Assisti tantas vezes que decorei as falas, sorry. Life's short, talk fast.
    Para o motorista princesa agora! o/

    ResponderExcluir
  2. Somos todas Rory, essa que é a verdade.

    Eu sempre fui assim também, de carregar livro pra todo canto, de ser a nerd do meu grupo, de preferir ler a ir pra balada. E nada disso comprometeu minha vida social ou habilidade para fazer amigos. Sou bem realizada, socialmente falando, e não sinto falta de nada desse tipo.

    Outro dia tinha um baile pra ir e, advinha? Fiz a Rory e levei o Kobo dentro da bolsa. Minha mãe disse que eu tinha um problema, tipo a Lorelai, mas eu disse que tinha que me precaver. Lembra que a Rory levou um livro pra'quela festinha do pessoal da Chilton, foi pra uma sala ler e acabou levando um beijo do Tristan? Pois então. Foi meu raciocínio, haha (só não teve beijo do Tristan, HAHA).

    Fica tranquila, Mia. As Rorys vão dominar o mundo - um livro por vez.
    Beijo, beijo!

    ResponderExcluir
  3. Vou adotar essa filosofia pra minha vida! Pra que carregar um livro na mochila, se posso carregar três? (E-books são amigos nessas horas.) :D

    ResponderExcluir
  4. Depois as professoras não querem passar atestado de imbecil e dão vexame na rua dizendo que são desvalorizadas. (generalizei)
    Proibir uma criança de entrar na biblioteca porque "TEM QUE SOCIALIZAR" é o mesmo que o diretor chegar pra professora e dizer que ela não pode entrar na sala dos professores porque tem que cortar as unhas. Antes te dessem uma orientação como: "alugue UM livro, mas procure não ler o tempo inteiro para não prejudicar a sociabilização". Algo assim, sabe? Algo estratégico que não castrasse o que tu gosta de fazer em detrimento do que essas pôpi sabem perfeitamente que não faz lá muita diferença no futuro - os coleguinhas do Fundamental (eu mesma só guardei uma, a que faleceu de câncer).
    O único porém de se comparar à Rory é: ela é um personagem. A Sra. Paladino concebeu a Rory numa idealização de garota inteligente demais para a própria idade, assim como concebeu a Lorelai como a mãe solteira que, de camareira, passou para administradora de um hotel em 20 anos de trabalho.
    Mas não que a Rory, como personagem, seja tipo uma super-heroína. Acredito que ela seja uma amálgama, o que não a faria perder todo o encanto ♥

    ResponderExcluir