Da série: coisas que não se deve pensar às 22h de uma quarta-feira

Sinto falta de quando não sabia de nada. Não saber de nada é um presente. Desmond, de Lost - sim, eu adorava Lost, foi a primeira série que acompanhei mesmo -, num dos episódios disse algo que fiquei anos sem entender e talvez só tenha entendido, de fato, agora: a ignorância é uma bênção.

Eu ignorava ser gorda, eu ignorava não ser bonita, eu ignorava o que é o conceito de beleza. Eu ignorava que as pessoas riam de mim porque me achavam estúpida. Eu ignorava meu medo de falar em público. Eu ignorava que deveria ter medo de falar em público. E, por ignorar tudo isso, era linda, deslumbrante e falava pelos cotovelos, como se estivesse sempre entre os amigos mais íntimos, mesmo que não conhecesse uma pessoa sequer no local.

Hoje eu gaguejo e suo frio numa simples apresentação de trabalho, sendo que convivo com meus colegas há 3 semestres.

Hoje eu tenho de emagrecer 10 quilos porque a balança disse que estou gorda, porque meus amigos dizem que estou gorda, porque meu médico diz que estou gorda. Então me olho no espelho e me vejo gorda, sendo que há alguns anos eu tinha bem mais do que o peso atual e me achava maravilhosa.

Até os 17 anos eu não sabia que era uma péssima desenhista, então eu desenhava. Eu não sabia que minha voz era muito fina para cantar e literalmente parecia um gato miando - como se não bastasse eu me chamar Mia -, então eu cantava, tinha uma banda, ia pra outras cidades me apresentar. Eu não sabia que tinha de me encaixar em uma categoria, que tinha de ser de direita ou de esquerda, rockeira ou patricinha, hipster ou indie, e, agora, deboísta - será que vocês podem parar com essa mania de definir tudo, for God's sake?! Eu não sabia de nada disso e simplesmente vivia a minha vida com uma autoconfiança invejável. E todos me adoravam porque eu não me importava. Mas como poderia me importar com aquilo que, para mim, não existia?

Eu não sabia o que era uma pessoa gorda ou uma pessoa magra. Eu não fazia diferença entre um 36 e um 42. A única diferença era o preço. Eu não sabia que tinha de comunicar algo muito profundo ou inovador no blog. Apenas fiz um e comecei a escrever, meio que sem objetivos, somente porque se tem uma coisa que amo fazer essa coisa é escrever.

E as pessoas começaram a ler meus escritos e passar meu link pra os outros porque diziam "nossa, que despretensiosa a forma como ela escreve, olha só que coisa engraçada", e eu ficava sem entender nada porque não estou tentando ser engraçada ou despretensiosa ou linda ou magra ou gorda ou um símbolo feminista de autoaceitação. Só estou sendo eu mesma.

Ou estava.
Até o dia em que comecei a ter pavor de falar em público porque aparentemente você tem de estar cem por cento certa do que fala e nunca dá para se estar cem por cento certa de algo, porque as pessoas vão rir e eu vou ficar desconcertada e vou ficar envergonhada e vou começar a conter lagriminhas. Até o dia em que desisti de Jornalismo e fui pra Pedagogia só porque me convenci de que seria muito aterrorizante ser uma jornalista e que eu não sirvo pra isso por não ser comunicativa o suficiente.

Sendo que claramente eu seria um desastre como professora infantil. Imaginem seus filhos sendo ensinados por mim. Pois é. Medo.

Hoje não sei mais direito quem eu sou. Só sei que gostaria de voltar a não saber e não me importar com isso.


And that sucks. A lot. 

8 comentários:

  1. senta que lá vem textão:
    ponto 1. vc é ótima. Ok, eu não te conheço pessoalmente nem te leio (te leio ficou bem esquisito mas continuemos) por muito tempo. Mas assim, do pouco que vi, que pessoa legal que vc é. De verdade. E pelo menos o meu feeling é de alguém super numa boa com as coisas e que vez ou outra encana forte com algum tema. E quem nunca?
    2. Ter que ser coisas é um saco. Tbm desisti de jornalismo por insegurança e por achar que "não dava grana". se arrependimento matasse etc. O fato é que ngm nunca tá 100% seguro de nada, só que alguns enganam melhor do que outros.
    3. minha mãe é professora infantil. E qdo eu era pequena perguntei pra ela: mãe, vc é maluca de ser professora. Oq vc faz qdo não sabe a resposta pra alguma coisa?? E ela disse: não sou super herói, filha. Sou uma pessoa. Se eu não sei, respondo "vou pesquisar e volto com a resposta pra vc amanhã". Eu nunca, nunca esqueci disso. Ngm é perfeito, ngm sabe tudo.
    Entendo perfeitamente vc porque sou do tipo que sorri qdo faz merda e depois vai chorar no banheiro se sentindo o último dos seres humanos e blablabla. Mas tô trabalhando nisso todos os dias.. Se todo mundo gosta mais de mim qdo eu sou somente eu, vai ver que algo certo estou fazendo.
    E vc sendo vc mesma, acho demais. Leio seu blog e queria ser sua amiga. Pq Mia só tem uma, só tem aqui.
    Nada de conter lagriminhas por causa de gente que quer ser dona da razão. E se um dia eu tiver um filho, numa boa que eu deixo ele ter aula contigo. bjs!

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  2. As vezes parece que a vida é um eterno ensino fundamental II/ensino médio. Com todo mundo julgando todo mundo e apontando o dedo pro coleguinha diferente porque, meu deus, que horrível não se encaixar, não caber na caixinha. Eu acho que ser criança é um negócio muito mais simples, pois elas são exatamente o que o Desmond falou: ignorantes. No sentido se não se importar, também, sem importar com o que? Elas não conhecem nosso mundo. As crianças são de longe os seres humanos mais sinceros e reais, porque elas são a essência. As vezes dá vontade de ser uma eterna criança e tapar os ouvidos para essa realidade onde você não é você, você é as coisas que você tem, que você faz. Eu não sou a Ludimila, eu sou a fotógrafa, a menina de cabelo azul, a menina magra de olhos grandes, a quietinha, aquela lá de óculos. Igual eu li recentemente em O Pequeno Príncipe, que os adultos gostam de números, as pessoas não querem saber quem você é, querem saber o que você faz. E se você não faz, nossa que horror, vai morrer de fome.

    Faço das suas palavras as minhas: "Hoje não sei mais direito quem eu sou. Só sei que gostaria de voltar a não saber e não me importar com isso."

    Talvez eu tenha divagado? Talvez tenha saído um textão? Desculpa >.<

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  3. Eu também tive muitos desses problemas principalmente ao entrar na faculdade. ôh meinho escroto pra se viver, viu. O que me levou a comentar aqui foi o ato de você ter largado a faculdade de jornalismo. É o curso que estou quase terminando agora, e durante todo o tempo as pessoas me perguntavam até meio ofensivamente como eu seria jornalista sendo tão timida. "jornalismo é coisa de gente comunicativa!". Uma pena que voce nao ficou na faculdade tempo o suficiente pra perceber que não. Já trabalho na área há um ano, não deixei de ser timida, mas sei que sou uma boa profissional em aprendizado

    É um porre se importar com o que as pessoas falam/pensam. Em 100% do tempo o que importa mesmo é o que voce acha, como voce mesma falou durante todo o texto... Você nao sabia ou achava uma coisa, e pra voce o mundo era melhor assim. Fodam-se as pessoas/empresas/chefes/colegas/mundo~

    Abraços,

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  4. A minha resposta vai ser curta mas espero que pontual:

    Been there, done that.

    Tomar consciência das coisas é um caminho sem volta e pode ser aterrorizante. Mas depende muito do ângulo que tu percebe as coisas, Mia.
    Por exemplo, o "estar gorda". Será que não significa "não estar saudável", com excesso de carboidrato, por exemplo? Ou excesso de açúcar? Ou simplesmente todos esses fatores com a inclusão de metabolismo lento?
    O medo de falar em público: venero quem não tem esse medo. Mas uma coisa é estar num grupo de amigos tidos como íntimos e falar abertamente. Outra coisa é estar falando para um público conscientemente desconhecido. Requer ou prática ou dom, e não tem problema admitir não ter nem um nem outro.

    E se importar com o que os outros pensam não deve ser levado como algo a ser totalmente evitado. O que os outros pensam PODE SER no mínimo rapidamente ponderado para saber se é aplicável ou não. Sempre fui chamada de mangolona no colégio e hoje entendo que era aplicável naquela época, e hoje não mais. Pronto! Vida que segue :)

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  5. Mia, me vi tanto,TANTO, TANTO nesse post, que você nem imagina. Lembrei de um EU passado que não se importava ou apenas não pensava sobre várias coisas da vida, e era muito mais feliz, sem tantas neuras, medos, inseguranças e enfim.

    No final, isso de pensar demais tem dois lados. O lado que a gente usa pro nosso bem e pra ser pessoas melhores - e o lado ruim, que a gente acaba pensando toda hora em como se "enquadrar" e se importando sempre com o que os outros estão pensando. Vai da gente saber balancear as coisas, pena que justamente essa é a parte mais dificil, haha

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  6. MIA DO CEU! Me vi em cada linha que você escreveu, desde quando você fala sobre Lost ser a primeira série que você acompanhou mesmo até... bem, até todo o resto! Um exemplo disso é nos comentários de blogs... Eu sempre saia comentando por aí, era espontâneo e eu tinha uma facilidade absurda em fazer amigos online. Aí meio que rolou alguma coisa que eu devo ter deixado passar, mas aí agora eu fico cheia de medo de enviar um simples comentário. Escrevo, reescrevo, apago, desisto e por aí vai. Era tão simples chegar e comentar. Era tão simples abrir o blog e escrever. Eu sei que esses são exemplos bestas, mas era tão simples fazer qualquer coisa!! Essa complicação de coisas deve ser o que chamam de vida adulta :(

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  7. Oiee! Para tudo! Que texto "tapa na cara" da sociedade HAHAHAHA. Adorei. Mas sabe, essas duras doses de realidade nos fazem criar uma casca mais grossa para enfrentar o que tivermos que enfrentar. Entao, eu realmente sei que incomoda esses olhares em cima da gente.. e no's volta e sempre tendo que se adequar ao que os outros querem. Mas MEU! Temos que parar, nos olharmos no espelho, acreditarmos o quao linda e suficientes no's somos! =)

    http://www.verdadeescrita.com/o-dia-em-que-eu-cansei-de-viver-de-passado/

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  8. Eu já tive essa sensação inúmeras vezes na minha vida. Já entrei e saí de uns 6 cursos.
    Mas ó, uma hora a gente se encontra. Tô com 27 anos na metade da faculdade de arquitetura amando tudo.
    Mas, acho que saber quem somos de fato, nunca.

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Wink .187 tons de frio.