Tá bom, mas pode ficar melhor

Se eu tô feliz com o tema de redação do ENEM deste ano - a violência contra a mulher -, com a questão citando a Simone de Beauvoir e mais um monte de coisas lindas que teve? Tô, sim. Mas não sou iludida. 

Sim, é ótimo que esse seja o tema de uma redação que atingirá boa parte dos jovens brasileiros, é ótimo que eles tenham de fazer uma reflexão bem construída acerca disso, porém não é o suficiente. Muitos podem simplesmente escrever o que lhes for conveniente e sair da prova fazendo tudo o que disseram ser errado na redação. Não basta uma prova. Não basta uma redação. Isso tem de ser tema dentro das escolas. 

~aí vem a história de que quem tem de fazer isso são os pais, a família, e não a escola. pois bem. como estudante de pedagogia, digo que cada vez mais as crianças têm aprendido coisas no ambiente escolar do que em suas próprias casas. as famílias se envolvem pouquíssimo na educação de suas crianças. tá certo? não. mas é o que temos. então, vamos trabalhar com isso. fora que, mesmo que as famílias realmente se envolvessem na educação de suas crianças, ainda assim a escola deve ser o lugar em que aprendem não apenas a ler e a escrever, mas a agir como um ser humano que respeita os outros seres humanos, não importando o gênero alheio.~

E não apenas no Ensino Médio. Tem de ser desde o maternal. 
Afinal de contas, quem nunca ouviu, após se queixar pra professora que o coleguinha lhe empurrou, que ele apenas gosta de ti e não sabe como demonstrar? Toda menina já ouviu algo parecido. Somos criadas para não discutir a violência, somos criadas para pensar que os homens são brutos, fechados e agressivos e que demonstram a paixão através da violência. Isso é uma mentira. 

Temos de parar de dizer às crianças que é normal e aceitável puxar o cabelinho da coleguinha, que não se pode reclamar porque "são crianças, isso é da idade". Aí o menininho fofo cresce e repete o ato lá no Ensino Médio, no cursinho, na universidade. "Mas eu gosto dela, eu respeito dela, é só o meu jeito, sabe como são as mulheres, a gente tem de ser firme às vezes." É o que o menininho fofo - já quase adulto agora - diz. É o que a sociedade diz. Mas ele não é machista. Capaz. E, se se deparar com uma redação como a que está tendo agora no ENEM, escreverá com toda a razão que a violência contra a mulher tem de parar, que é um caso grave, que é um absurdo. 

Porque ele pensará na violência em escalas grandiosas. Pensará em casos de polícia, em esfaqueamento, em coisas que aparecem no jornal. Jamais se colocará no lugar de agressor porque o que ele faz, de acordo com o que sempre lhe foi ensinado, é apenas ser firme. 

E é por isso que não, eu não me conformo com apenas um tema de redação. É um passinho minúsculo perto do que realmente deve ser feito. 

Só estarei satisfeita no dia em que todos os currículos escolares tiverem, obrigatoriamente, uma disciplina contra a violência e acerca de questões feministas, desde a pré-escola. Só estarei satisfeita quando puder abrir a LDB - Leis de Diretrizes Básicas - e me deparar com vários artigos acerca de como educar o aluninho fofo para que não se transforme num monstro que defende o feminismo na internet, mas dá uns sacodes violentos na namorada porque está apenas sendo firme

É só uma prova. Ainda há muito a ser feito. 

8 comentários

  1. Eu não sei não, Mia. Eu acho super positivo o fato do ENEM propor uma reflexão e trazer a Simone, Paulo Freire, falar do MST, enfim, propor uma reflexão acerca da nossa sociedade e criticando as tantas coisas erradas que são aceitas com naturalidade. E qual não é a surpresa de gente RECLAMANDO que teve feminismo na prova do ENEM? Que estão tentando empurrar 'goela abaixo' uma doutrinação MARXISTA só por trazer pensadores que são de esquerda? Aliás, isso que me incomoda nesse país, tudo que não é conservador associa-se ao PT(???) e por consequência (???) ao comunismo (???), e as pessoas continuam alienadas criticando o fato de uma prova trazer temas que deveriam ser discutidos desde a pré-escola, afinal, feminismo não é só "não matar mulheres", mas respeitar a coleguinha e entender que não há "instintos" que fazem os homens maltratarem as mulheres ou agirem como superiores, mas isso é resultado de uma construção social - que deve ser desconstruída.

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

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  2. Olá! Olha, eu achei super legal a redação do ENEM ser sobre a violência contra mulheres, acredito que foi importante tratar um tema do qual muitas pessoas, acredito eu, não esperavam. E com certeza muita gente será reprovada por nem saber como tratar do assunto.
    Mas, por outro lado, acho triste. Acho triste demais que isso ainda tenha que ser debatido, que ainda exista esse tipo de coisa e que as pessoas ainda tenham que pensar sobre isso.
    Mas discordo de você numa coisa. Acho que isso de transformarmos a sociedade para que ela deixe de ser machista é algo que cabe aos pais/família ensinar, não à escola.
    Claro, os professores não podem ensinar qualquer coisa que pregue a desigualdade entre os sexos, a escola não pode ficar isenta de incentivar a reflexão sobre a ideologia feminista ou outras filosofias importantes para compreender a sociedade atual.
    Porém, quem deve ensinar mesmo e criar as crianças rumo a uma sociedade melhor é, prioritariamente, a própria família, dentro de casa, na minha opinião.
    Beijos!

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    1. Mas não existe uma lei pra isso. Ninguém, nem o Estado, pode interferir na forma como uma família educa uma criança, pois cada família tem suas crenças e sua moral. Porém, a educação deve ser a mesma para todos, ou seja: dá pra modificar a educação, então partamos daí.

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    2. É verdade, na situação atual o caminho é modificar a educação na escola. Mas num futuro (provavelmente utópico hahaha), quem sabe as pessoas aprendam a rever seus valores dentro da família, independente de religião ou qualquer outra coisa.

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  3. Minha amiga que fez o ENEM me disse algo que eu não tinha percebido (por ser lerda): o ENEM além de testar conhecimento, serve pra educar e conscientizar. Eu concordo com tudo o que você falou, e ainda assim meu coração não se aguentou de orgulho em ver um tema infelizmente tão atual e necessário ser inserido numa prova desse tamanho. Acredito que muito machinho de bosta escreveu o que tinha que escrever e depois foi pra internet fazer chorume. Mas acredito que muita gente que sabe sobre o assunto, que se interessa, até mesmo quem não se interessa muito, teve que fazer mais um momento de reflexão pra poder escrever a redação. É como o Think Olga falou: eles não deram abertura pra dizer que existe ou não, eles falaram sobre a persistência da violência. Ou seja, não cabia argumentar contra.

    E sabe, foi tanta porcaria na internet semana passada que eu realmente gostei de ver isso no final de semana. Foi como respirar ar limpo e fresco depois de horas em lugar poluído, sabe? Foi bom.

    Beijo!

    Obs.: adorei o layout?!!?!!!!! Agora quero mudar o meu. =((

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  4. Vou transcrever o que escrevi num comentário quanto a isso:

    Só não escreve que feminismo superluta contra a violência contra a mulher porque não vejo nenhuma dessas feministas de sovaco colorido fazendo nada efetivo pra isso. De tanta merda feminista que eu leio por aí, a mais famosa é "matar os homens" e dizer que eles "são mulheres incompletas" porque têm o cromossomo Y no lugar do X - faltou uma perninha.
    Se isso ajuda na violência contra as mulheres eu não sei, mas todo o caso eu levo um canivete no meu chaveiro, just in case.
    A luta contra a violência contra a mulher, ao meu ver, está dispersa, sem foco e sem rumo. Umas querem lutar pra dar pra todo mundo e arrancar o feto do útero após o primeiro vômito. Outras querem andar peludas porque se acham mais livres assim mas recriminam as que preferem se depilar. Outras querem direitos absolutamente iguais até aparecer uma barata voadora. Outras querem que leão coma legumes (não literalmente). Sabe? Umas querem dizer que feminismo é de esquerda, outras querem que feminismo seja neutro, outras querem ver o circo pegar fogo.
    Acho que POUQUÍSSIMOS que fizeram o ENEM têm capacidade de argumentar sobre a violência contra a mulher porque a base de discussão que eles tiveram foi praticamente o Facebook... Já no aguardo de pérolas como "molher ten que lavar loussa" e "uzômi tem que morre tudo".

    Fim da transcrição.

    Eu concordo que a doutrina ANTIVIOLÊNCIA (contra a mulher, o homem, as crianças) pode vir da escola. Educação de casa? Importante, mas não temos ainda aquele pai que manda a filha fechar as pernas e o filho comer todas? Não existem pais que pregam a desigualdade e falam pro filho não se misturar com gente branca ou negra? Imagina um pai repetindo por anos dentro de casa que os brancos devem as almas para os negros? Imagina um menino ouvindo por anos que mulher decente é assim, assim e assado e o que fugir desses padrões é isso, isso e aquilo?
    Mas um problema sobre a doutrina escolar é que o professor perdeu seu valor e sua autoridade. Professor fala, aluno responde, professor baixa a cabeça = Pátria Educadora 2015.
    E o que não vem a nosso favor? Político que se preocupa mais com o próximo apartamento de 4 milhões (Lula) ou com a próxima conta na Suíça (Cunha) ou em estocar fucking vento (Dilma) ou no próximo documentário da própria vida (ex-BBB Jean Uílis) do que com políticas sociais de peso e pensadas pro futuro a, NO MÍNIMO, médio prazo.
    Completando a bola de neve o fato de que nós brasileiros estamos simplesmente cansados de tanta coisa que já nem tentamos mais. Podemos até pensar, mas aí vemos que tudo pode ir contra e que nem sempre lutar por uma causa põe comida na mesa.

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  5. ai, não sei se acho esse passo tão pequeno assim. concordo totalmente que só uma redação não vai ser capaz de transformar as coisas, falta muuuito pra isso acontecer. mas achei bem legal e importante essa visibilidade que o feminismo recebeu na prova, a causa atingiu um número bem grande de pessoas como algo sério e que deve ser levado em consideração, estimulando a reflexão mesmo. sei lá, realmente é pouco, mas achei que foi um super começo!

    (ah, adorei o banner novo. ficou uma graça!)

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  6. Mia, eu concordo com seu ponto de incluir na escola noções básicas de como ser uma pessoa civilizada - é claro que isso falta pra muita gente.
    Mas que fiquei orgulhosa com o tema do ENEM, fiquei. Só isso não vai mudar a questão, mas quem sabe não planta uma semente na cabeça de algumas pessoas? Tô achando lindo!

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