Eu odeio Jean Piaget

Poderia ser o nome da minha autobiografia, mas é apenas o nome de uma antiga comunidade do orkut. 

— Mia, o que tu tá fazendo que não posta mais no blog? 
— Eu tô no final de semestre em 2 cursos, ou seja: muito ferrada. 

Eu não leio mais blogs. Não escrevo mais. Não consigo mais ver as minhas séries sem sentir um peso na consciência e ouvir a voz do além de Piaget me dizendo "percebe-se que essa moça ainda apresenta problemas com seu estágio operatório formal". 

Se você não sabe quem é Piaget, você é uma pessoa feliz. 

Se você sabe, então apenas lhe digo que: miga, dá cá a mãozinha porque eu sei muito bem o que é ser atormentada durante o sono por pesadelos envolvendo - mas não se limitando a - esse sorriso maroto do senhorzinho suíço e seu cachimbo. 

~apavorando as mocinhas da pedagogia~ 

Piaget é o carinha que começou uma coisa chamada Epistemologia Genética e que, não contente com sua vida de biologuinho, decidiu estudar as fases de crescimento das crianças e como se dá a aprendizagem. O problema é que ele fez esse estudo com uma amostra de crianças muito pequena e todas do meio rico da sociedade, isso lá pela época do início do século XX, ou seja: a forma com que uma criança rica e cercada de cuidados cresce não é a mesma que uma criança pobre e sem as regalias de uma rica se desenvolve. Aí que os parâmetros estavam bem loucos, mas estudamos isso até hoje porque na Pedagogia Piaget é tido como ídolo-mor, o grande vovô sábio que nos ensina a lidar com os estágios do desenvolvimento dos seres humanos.  

E, nas horas vagas, me faz ter pesadelos nada saudáveis - que misturam Freud também. 

Aí que tenho de entregar mais um trabalhinho sobre ele, Vygotsky e Skinner até semana que vem. Skinner é o carinha do estímulo-resposta que lidava com tudo na base do condicionamento, ou seja: aluninho fez algo legal, ganha estrelinha; aluninho puxou o cabelo da colega, vai pra o canto da sala pra usar as orelhas de burro. Vygotsky era esse lindo do nome mais difícil de todos - ah, esses russos! ♥ - que tinha uma teoria parecida com a do Piaget, porém muito melhor, porque se tratava do MEIO, do ambiente em que a cria cresce, e não apenas de coisas que estão em seu cérebro. Vygotsky = ♥ 

~seduzindo as pedagogas com frases de efeito~ 

Vygotsky não era apenas possuidor de um lindo nome que ninguém consegue escrever e de um sotaque russo maravilhoso, como também era um advogado que estudou Literatura e História e teve toda uma formação em psicanálise porque sim, porque ele podia. Mas o senhor Stálin não gostou nada disso porque teorias de Freud, essas coisas ousadas e, portanto, o carinha morreu bem novo, mas não antes de dizer uma frase que ecoou pelos séculos ~uuuuuh~ e chegou até a PUCRS nos dias atuais: nós nos tornamos nós mesmos através dos outros

MELHOR DESCULPINHA PARA SER BABACA, HEIN. 

— Poxa, mas por que tu fez isso? 
— Fui criado assim, cara. 
— Mas o que isso tem a ver? 
— Nada posso fazer,  tá na minha formação behaviorista. 
— Mas ser criado por babacas não é desculpa pra ser babaca. 
— Como o grande Vygotsky disse: nós nos tornamos nós mesmos através dos outros. Portanto, a culpa não é minha. 

Vygotsky = ♥ 

Mas nem só de teorias de aprendizagem vive meu semestre. Ontem tive uma prova dozinfernos pra qual estudei como se não houvesse amanhã porque a querida professorinha de Linguística passou o semestre inteiro falando sobre casamentos, vestidos de casamentos, como segurar um homem, como agradar a sogra e signos ao invés de explicar a matéria, que foi toda depositada no moodle e que todo mundo se virasse. 

A única coisa que pressinto que virará será a canoa, mas prossigo. 

A querida professora também fez um belíssimo discurso falando acerca de como surdos são pessoas preguiçosas por usarem língua de sinais ao invés de serem oralizados e falarem normalmente e apenas lerem lábios. E É POR ESSAS COISAS QUE EU NÃO CONSIGO GOSTAR DESSA PROFESSORA. Linguística é uma matéria cheia de potencial, mas não há como apreciar a aula com uma criatura falando coisas desse tipo. 

Só sei que quando ela disse isso recolhi minhas tralhas e saí batendo a porta, porque não discutirei com uma senhorinha de quase 70 anos, mas me recuso a ouvir que surdos são pessoas preguiçosas e que, abre aspas, se eu tivesse um filho surdo jamais usaria libras com ele, mas faria com que ele lesse lábios e fosse oralizado, porque eles sabem falar perfeitamente, só são preguiçosos, fecha aspas. 

~nem Lestat aguenta mais este semestre~

Portanto, sei lá eu como fui na prova. Só sei que amiga me deu chocolate e tenho respirado chocolate pra me acalmar - e é por isso que tô gorda, mas enfim. 

Também teve, nessa semana, coleguinha revoltada e louca das ideias dizendo que quem lê muito, quem tá sempre com um livro na bolsa, é alienado. Coleguinha olhou pra mim no momento em que disse aquilo e meu sangue está fervendo até agora, mas não tenho tempo pra escrever realmente sobre - escreverei quando acabar o semestre, claro - e apenas a olhei e disse um QQQQQQ porque não está sendo possível. Me deixa ler meus livrinhos em paz, filhote. O conceito de alienação não tem nada a ver com isso. MAS SORRIO E ACENO, porque chega de polêmicas. 

Em algum momento de 2011 prometi a mim mesma que a Mia do futuro seria uma pessoa que sorriria pras ofensas, agulhadas e indiretas mais diretas impossível ao invés de sair dando tapas na cara da pessoa e gritando QUALÉQUIÉ, VADIA pra quem olhasse torto. Devo dizer que tenho cumprido essa promessa firmemente e, ó, sou uma lady agora. A pessoa me fala uma coisa dessas e eu apenas olho e sorrio, mas por dentro arranco sua cabeça com um machado. 

Claro que a vida era muito mais divertida antes, mas em tempos em que tudo vira um processo é melhor fazer a britânica, segurar minha xícara de praticar o sarcasmo. :) Humor sutil mode on.

Mas que sinto Murphy aloprando comigo e gritando um NÃO TÁ SENDO CONTIDA, QUERIDA? ENTÃO LIDE COM ISSO, sinto.


Enquanto isso recebi lindos e-mails de leitoras preocupadas comigo e só tenho a dizer que: 'cês são umas lindas, mas me sentiria culpada se as respondesse agora porque TRABALHOS, PROVAS, FINAL DE SEMESTRE. Recebo lindos comentários aqui e não posso respondê-los porque PRECISO TIRAR NO MÍNIMO UM 8 EM TODAS AS DISCIPLINAS e isso tá me deixando bem louca, se querem saber.

Mas ao menos tá dando pra fazer algumas leiturinhas durante os intervalos de um polígrafo e um pedido pra morrer pra não ter de matar as coleguinhas, e num desses intervalos descobri a maravilhosidade de dona Anne Rice e estou numa linda relação de amor com as bruxas Mayfair. ♥

Fora isso, tive de desmontar o roupeiro porque houve um lindo problema de mofo surgido do além que estragou metade das minhas roupas, portanto meu quarto tá em processo de arrumação há uma semana e sem previsão de melhoras.

Ou seja: tá pouco de obstáculos, manda mais.

Agora licença que tenho de terminar mais um trabalhinho pra sexta. :) 

3 comentários:

  1. O meio ambiente, as pessoas deste ambiente e a predisposição cerebral acho que elencam a tríade que define a nossa personalidade. Não dá pra dizer que uma pessoa vire emo DO COMPLETO NADA. Para todo mofo tem que ter umidade → vale isso pro teu armário também.

    Agora, a mulher falar que surdo é preguiçoso deve ser porque ela não aguenta ver os programas de Jesus Cristo com o cidadão fazendo linguagem dos sinais atrapalhando a visão completa da paródia. OU provavelmente esse cidadão apareceu naquelas minimicrotelinhas no canto inferior direito e tapou a tua professora bem sentada no auditório.

    E a coleguinha te chamando de alienada, avisa que é mais interessante ler do que assistir à Fazenda ou qualquer programa de subcelebridade da TV aberta, que aliás alienam bem mais do que livro. :P

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  2. Mia, o que se estuda em Linguística?

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    1. Basicamente: aquisição da linguagem. Como o ser humano aprende a falar, como se dá o processo, o que o motiva, muita coisa de neurociência e psicologias também e mais os fonemas e a estrutura da língua.

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Wink .187 tons de frio.