Hello, darkness, my old friend


Sonhei com você. Sonhei que você morava dentro de um poço, a vários metros de profundidade da superfície. Não, não era bem um poço, mas a entrada era parecida. Era no subterrâneo, me entende? Não, eu também não sei de onde tirei isso, mas apenas me ouça. Sonhei que você morava dentro da escuridão quase completa, debaixo da superfície, e que, para te ver, eu tinha de entrar lá também. Então você explicava como chegar até lá, não só para mim, mas para várias  pessoas que, após alguns metros de profundidade, desistiam por medo do escuro, por medo de serem surpreendidas por alguém tentando se esconder lá dentro, por medo de serem abraçadas pelo abismo, pela terra remexida, e nunca mais voltarem. Você explicava que o importante não era levar comida, lanterna ou velas, mas sim uma escada porque precisaríamos subir de volta eventualmente. Você falava e mostrava e exemplificava e todos tentavam e diziam que nunca te abandonariam, mas abandonavam porque quem cometeria a loucura de se enfiar debaixo da terra apenas para te ver? Quem aceitaria ter um quase enterro em vida, passear por um buraco de terra remexida só porque de lá você se recusava a sair? Apenas eu. Eu fui, mas não quis ficar. Eu queria te trazer pra cima, te mostrar a luz do sol, sair de toda aquela umidade, do meio das minhocas, daquela semivida que você vivia. Mas você não quis. Você queria que eu ficasse lá com você, apreciando a vida por uma janela de 558 metros de profundidade. E talvez seja isso que você queira. Talvez você realmente queira que eu mergulhe nesse seu abismo intolerante, profundo e escuro. Mas como eu posso fazer isso se a vida lá fora me chama, se eu ouço os pássaros a cantar e quero respirar outros ares, sentir outros toques, outras mãos e tons de vozes? Eu quero que você venha comigo, mas você quer o seu poço, está apegado ao fundo dele, tentando cavar cada vez mais terra para se esconder das pessoas e principalmente de si mesmo. Você quer a morte em vida e eu quero viver para morrer com a desconfiança de ter escapado do poço profundo que é o vazio existencial que carrego dentro do meu peito, tão trancado, tão obscuro, tão silencioso. 

5 comentários

  1. Quando a gente passa muito tempo na escuridão ficamos cegos ao ver a luz.Isso assusta algumas pessoas. Tem gente que não percebe que a cegueira é momentânea e se apega lá com o fundo do buraco.
    Tão mito da caverna...

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  2. de alguma forma me identifiquei, por vezes a própria escuridão se torna tão aconchegante, porem solitária.
    ter com quem dividir é o suporte necessario para permanecer e uma justificativa para nunca sair.

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  3. É difícil reconhecer que precisamos sair do poço. As vezes sabemos disso, mas estamos tão fundo nele que não acreditamos ser capazes. Quando aparece alguém com a escada, temos de escolher sair ou ficar...

    Parabéns pelo texto!

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  4. Você se sente assim e fala sobre os sentimentos como se fosse alguém, ou é realmente alguém que tem te afundado?
    Ultimamente tenho passado por momentos tensos por causa da depressão :/

    Não sei se você lembra de ter me recomendado Queen em um projeto musical que eu estava preparando... Quinta-feira a postagem sai :3
    | A Bela, não a Fera || Turma da Mônica e o Escotismo|| FB Page A Bela, não a Fera|

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  5. Que post excelente, me identifiquei com ele por lembrar de pessoas que "moram" no poço ou de momentos que eu era essa pessoa, só aceitando companhia se fosse no escuro e bem escondido do mundo lá fora. Pelo menos levando em consideração o que já vivi, eu diria que sair do poço é sempre a escolha mais acertada...

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