Cíclica

Hoje chorei durante todo o caminho para a faculdade. Chorei por meu país, chorei pelo futuro de meus amigos, chorei pela incerteza que me espera na esquina. Com o golpe legitimado não há como saber se conseguiremos nos formar, se os programas estudantis como ProUni e Fies continuarão a existir. Não sabemos sequer se seremos atacados na rua apenas por sermos jovens. 

Pode parecer exagero, mas não é. Ontem, quando me encaminhava para a CCMQ a fim de fazer um trabalho fotográfico para o jornal em que trabalho me vi, repentinamente, em meio a algo terrível: cerca de 10 PMs correndo, surgindo do mais absoluto nada, sacudindo jovens que estavam apenas conversando na praça, revistando a todos, intimidando. Me olharam: "o que tu tá fazendo aqui? pra onde tu vai? o que tem na bolsa? é protesto?", e eu, uma jovem estudante de Jornalismo, tive de explicar que estava com a câmera na bolsa porque trabalho como fotógrafa e estava apenas em minha jornada diária, moço, não estou protestando. 

Mas queria estar. 

Queria, porque essa cena me lembrou exatamente tudo o que meus pais sempre disseram da ditadura: que, quando jovens, tinham de dar explicações para os homens da lei sempre que passavam por certas ruas da cidade. Há quem diga que tudo isso é exagero, que não estamos num golpe, que é tudo legitimado pela Constituição. Será? Não é o que parece. 

Ainda ontem um grupo que estava protestando contra o Temer na Cidade Baixa (Porto Alegre, o bairro dos poetas, dos bêbados e da juventude que está tentando se encontrar) foi violentamente reprimido pela polícia. Uma colega do jornal que lá estava fotografando relatou que houve, inclusive, bombas de gás lacrimogêneo. E aí, não poderemos protestar? Não poderemos sair nas ruas mais? Não poderemos nem ao menos cumprir nosso dever como jornalistas e registrar este infeliz momento histórico pelo qual o Brasil está passando? 

Portanto, choro. 
Choro porque não sei o que nos resta. Choro porque meio século após o início de uma ditadura, já se pode sentir os pútridos ares de outra. Choro porque o povo sofre, mas não perde a poesia, não perde a candura, não perde o samba, não perde a esperança. Choro porque me sinto, profundamente, brasileira. 

~Elis e os grandes artistas deste nosso Brasil ainda, infelizmente, nos representam~

3 comentários

  1. Ah, eu sinto o mesmo que você, Mia. Só de pensar no que nos aguarda a partir de agora, já me dá um aperto no coração. Tento pensar positivo e torcer para que em 2018 ainda reste uma esperança nesse país, mas que é difícil, é, já que fizeram um golpe tão descaradamente. :(

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  2. Compartilho do mesmo sentimento que você cara Mia... Tempos difíceis esses que chegam :( http://naotomocaf.blogspot.com.br/

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