1º experimento de um artista entediado

Dobro. 
Sou o intervalo entre as dobras. 
Me desfaço. 
Me renovo. 
A alma, amorfa, retilínea, cintilante, 
junta forças na rotina 
que altera 
meu instante. 

Não sou. 
Já fui. 
Serei? 
Não sei. 

Pelos paralelepípedos de uma estrada decadente 
caminho. 
Gostaria de deslizar, mas para isso seria preciso muito mais do que um caminho de pedras pontudas, maduras, sujas e cinzas. Seria preciso um farfalhar de seda branca, suave, anônima, vindas das mãos de pessoas que ninguém sabe quem são; nem elas se sabem. E eu, me sei? Não sei, não, senhor. Sei que em minha mente ideio um repouso milenar em vestes cristalinas, num corpo imaculado, puro, intocado por mãos de ferro, por mãos de aço, por minhas mãos que já se desfazem ao cair da noite, tão cansadas e frias e escondidas em luvas tão cinzas quanto as pedras que me ferem os pés. 

Deturpei minha alma na primeira dobra. 
Treze anos e me dobrei. 
Não por força ou por vontade, 
mas por apatia, 
por sobrevivência. 
Me dobrei para poder existir, 
para permitir uma existência, 
para acreditar no fim. 

Deturpei minha alma na segunda dobra. 
Dezoito anos, nem tão jovem assim. 
Não por amor ou por saudade, 
não por carinho, 
mas por medo de existir. 
Por vontade de sumir. 
Por um evitar da dor. 

Deturpada. 
Errada. 
Amorfa. 
De tantas dobras 
já sou um origami. 

Pena que o artista estava alternando estilos. Sou o começo de uma criação, um teste de dobras. Mas não rasgo, não. Apenas mancho minha singeleza triste com suores de digitais que não me pertencem. 




Para ler ouvindo: 





~grupinho do amô pra gente se apoiar durante o BEDA~

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Wink .187 tons de frio.