O cabeludo do ônibus ataca novamente

Estava eu ouvindo Queen no fone de ouvido e lendo A montanha mágica, do Thomas Mann - um lindo livrinho de nada mais, nada menos que 900 páginas; sim, eu sou claramente masoquista por carregá-lo por aí - tranquilamente durante uma tarde chuvosa num ônibus indo no sentido Viamão-PoA. O veículo, praticamente vazio, seguia vagarosamente seu caminho e eu também assim seguia minha leitura. No banco ao meu lado estava minha sacola de frutas - sou uma senhorinha e não saio de casa sem umas bergamotas, bananas e maçãs; sim, isso é sério - que ali ficaria por motivos de: a. não queria ninguém ao meu lado; b. não estava ocupando um espaço realmente útil já que havia mais de 50 assentos vazios no ônibus. 

De repente, percebo que uma mochila gigante foi colocada em cima da minha sacolinha de frutas. Olho pra o lado e tem um rapaz, provavelmente saído de uma fenda temporal, com uma camisa rolê branca extremamente justa e uma corrente espalhafatosa pendurada ao pescoço. 


Olho bem pra cara daquele malandro, tiro meu fone de ouvido e pergunto: "Quê?!". Ao que ele, num sorriso de quem acha que está arrasando, diz: 
— Tu não lembra de mim? 
— Não. 
— Tem certeza de que tu não lembra de mim? 
— Tenho. 
— Pois eu te conheço de muuuuuuuuuito tempo. (risadinha + piscadinha marota) 

O que a dona Mia fez? Dona Mia disse um categórico "Okay", colocou seu fonezinho de ouvido de volta, abriu seu livro e decidiu não dar papo pra maluco, ao menos não dessa vez, porque chega de atrair maluco e ser didática com eles, né, Mia. 

Mas o protótipo de BeeGees não se deu por vencido. Não... Ele precisava tentar novamente! Então, decidiu me cutucar. ME CUTUCAR. Eu, delicadamente, tirei o fone de ouvido novamente, fechei o livro e olhei pra cara dele. Ao que ele, muito atrevido, disse: 
— Tu não lembra de mim mesmo? 
— Não lembro, não te conheço e nem pretendo conhecer. E se tu não sair daqui agora e tirar tua mochila de cima da minha sacolinha, eu vou gritar. 

E voltei a ler o livro e ouvir minha musiquinha, como se nada tivesse acontecido. Ele esperou. Esperou mais um pouco e um pouquinho mais. Tirou sua mochila gigante, a colocou no banco da frente e ficou ali, me observando e falando sozinho. Até que, eventualmente, foi embora porque né, eu estava decidida a não dar papo pra maluco (e com o coração na mão porque ser mulher é terrível, especialmente em transportes coletivos). 

Eu realmente não lembrava dessa criatura, mas então lembrei: ele é o cabeludo do ônibus, uma entidade - vinda, obviamente, do inferno - que há 4 anos me fez mudar de horário de estudo só pra não ter de pegar o mesmo ônibus que ele, já que o maldito me seguia loucamente, mapeou meus horários e, inclusive, convenceu uma amiga minha a dar meu número pra ele. 

Só espero não cruzar com ele novamente porque, olha, dessa vez não vou trocar meus horários, não. Vou começar a gritar ASSÉDIO, SOCORRO! e, sei lá, morder a pessoa. 

Me enviem só pensamentos bons, hein. Necessito. 
CHEGA DE ATRAIR MALUCO, já deu disso, perdeu a graça, universo! 


~grupinho do amô pra gente se apoiar durante o BEDA~

6 comentários:

  1. Ser mulher realmente não é fácil.. Gostei da sua atitude. Aprendi com ela. Espero que nunca aconteça comigo, ma já sei que ficar constrangida não ajuda em nada.
    Beijos

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  2. Mia, que situação assustadora! Confesso que ri um pouco da forma como você descreveu o cabeludo maluco, mas isso não quer dizer que ele não deva ser perigoso, né? E você está certa, tem mesmo é que fazer escândalo e não abrir espaço para esse tipo de gente!
    Ser mulher é terrível nesses momentos de transporte público; normalmente, eu faço um carão, sabe? Uma cara de poucos amigos e, nossa, ai de quem falar comigo de forma ~engraçadinha~.
    Tô te mandando good vibes e pedindo aos céus que esse louco nunca mais cruze o seu caminho!
    Beijos

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  3. Nossa, que tenso!!! Tomara que você nunca mais cruze com esse maluco, mas se cruzar, pede o RG (com certeza ele vai te dar, pq: louco) e desce na primeira delegacia no caminho pra prestar queixa e pedir uma ordem restritiva. Eu hein!!!

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  4. Eu estava lendo e achando tudo bem ~normal~ até chegar nesta parte:
    "Eu realmente não lembrava dessa criatura, mas então lembrei: ele é o cabeludo do ônibus, uma entidade - vinda, obviamente, do inferno - que há 4 anos me fez mudar de horário de estudo só pra não ter de pegar o mesmo ônibus que ele, já que o maldito me seguia loucamente, mapeou meus horários e, inclusive, convenceu uma amiga minha a dar meu número pra ele. "

    O__________________________________________O''''''

    Fiquei com muito medo do maluco por você. Ser mulher não é nada fácil :(
    Bjuxxxxxx

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  5. Mulher, que situação. Que pessoa doida. Sério, rolou um medinho daqui por você - ser mulher não está sendo fácil desde a pré-história mesmo. Mandando good vibes porque a vida ja tá muito difícil sem perseguidor maluco dentro do sagrado transporte coletivo de todo dia.

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  6. Devorei seu texto de tão bem escrito. Mas, ri da sua desgraça, me perdoa. Ai que engraçado, tu tens um admirador secreto bem do doido! Hahahahhaa

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Wink .187 tons de frio.