Reflexões de um observador de minhocas

No ano de 1827, quando me encontrava em completo desespero mental, percebi que deveria relatar os pensamentos impróprios de minha mente para que - somente por esse modo - eu pudesse ter um controle sobre o que penso e o que quero e chegar a uma linha mediana de pensamento. Tudo começou em uma bela tarde primaveril em que eu, já há muito cansado de ser eu mesmo, decidi que questionar a vida deveria ser a minha ocupação, de modo que passei a questionar tudo a partir do momento em que o decidi, começando por questionar à minha própria decisão e a mim mesmo.

Pude perceber então que os pensamentos eram feridas abertas que nem sempre sangravam. Não sangravam pelas gazes mentais que a sociedade - e meu irmão Pedro - haviam posto para estancar o sangramento. Arranquei-as e tive uma hemorragia de pensamentos. Nisso minha mente pôde contemplar a luz. Não a luz da morte ou de qualquer túnel que alguns espiritualistas afirmam ver, mas pude ver a luz da verdade. E essa luz afirmava que tudo era mentira.

Em meu estado confuso e ensanguentado fui parar no que parecia ser uma cerca de uma casa antiga, rodeada por um jardim de hortaliças e estátuas decapitadas. Caí de joelhos perante uma pequena minhoca que saía de um buraco e comecei a admirá-la, pensando em como seria simples se eu fosse uma minhoca e não tivesse consciência de que a verdade é uma mentira. Foi quando eu a vi. Maria. Uma moça desajeitada, de cabelos desgrenhados, mas altamente atraente por sua espontaneidade. Na verdade nunca cheguei a descobrir seu verdadeiro nome, feito que ela era muda. Ou ao menos nunca falou comigo. Prefiro acreditar que ela era muda. Não quero descobrir que ela não quis falar comigo por eu parecer um lunático ao observar minhocas no chão.

Foi aí que eu me dei conta: se a mentira é uma verdade e a verdade é relativa, então a verdade é que não há verdade e que não há vida. Há apenas um conjunto de afirmações que nos fazem pensar e ter a ilusão de que vivemos e de que temos de fazer certas coisas quando não temos de fazer nada especificamente, porque tudo depende do nosso padrão social - ou como Pedro me diz sempre, do nosso status de família da granja. Então, em um impulso de iluminação mental, eu acordei. Não era mais um observador de minhocas, a moça - que não era Maria, mas sim, Joana - não era muda. E Pedro, bem, este continuou a ser o mesmo idiota de sempre. Porque a verdade é o que fazemos dela, é o que acreditamos ser. Não é uma invariável. Mas eu gostaria que fosse. Assustaria menos.


~grupinho do amô pra gente se apoiar durante o BEDA~

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