Um dia do mundo

Há 3 anos eu estava no Ensino Médio, no último ano, e achava que a vida era muito difícil - me lembrou o facebook, logo pela manhã, com seu mau hábito de reavivar memórias que desejamos esquecer. Há 3 anos eu estava no Ensino Médio e voltava cedo para casa após cuidar da biblioteca da escola nas horas vagas. No máximo às 17h estava de pijama. Hoje cheguei às 21h no meu bairro - e isso apenas porque o professor cancelou a aula e eu não tive ânimo para assistir à palestra do dia - e me deparei com ele no escuro: um caminhão bateu num poste e o derrubou em cima de uma casa logo na entrada da Estalagem. Sem feridos.

Mas o fato é que a falta de energia e o bloqueio da rua por conta do poste caído, do caminhão atravessado e dos homens do conserto fazendo seu trabalho fizeram com que o ônibus em que eu estava não pudesse passar e tivesse de dar meia volta. Porém não antes de que todos os passageiros descessem para fazer um longo percurso até suas casas no mais completo escuro.

A noite escura me fez tremer. Meu bairro não é conhecido por ser calmo e sem índice algum de criminalidade. Eu, no alto de meu um metro e meio, respirei fundo, pedi à Hécate que me fizesse ser como a noite escura, imperceptível, que me envolvesse com seu manto feito de céu e de estrelas para que fosse a noite e a noite fosse eu. Iniciei a volta para casa. Um, dois, três. Os passos contados. Cada barulho ao meu redor, cada respiração de qualquer cachorro que passasse por mim, me fazia estremecer. Pisei firme. Ainda havia seis longas quadras para atravessar.

Quando finalmente cheguei em casa, - minha casa, a que fica na última rua do bairro, distante de tudo, envolta no completo breu e protegida pelo brilho da lua - após vinte minutos de caminhada e medo, fez-se luz. Tirei meu manto feito de noite e pude soltar a respiração, sentar e jantar com meu pai, que me esperava com um prato quente e um suco recém feito.

Nesse momento percebi: não havia luz porque meu pai a absorvera toda em seu cuidado meticuloso para com sua filha universitária.


Crônica escrita para o projeto "um dia do mundo" idealizado pelo escritor russo Górki, em 1935, para que escritores de todo o mundo descrevessem com a maior precisão um dia daquele ano, 27 de setembro.  #27S2016

6 comentários:

  1. Ótimo texto! Vc escreve mto bem 😍❤

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  2. Estou encantada pela forma como escreveu. Sua crônica é simplesmente cativante.

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  3. Gente, você escreve maravilhosamente bem, escreve da forma que desejei escrever por toda minha vida, se tivesse um livro(tem?) eu o devoraria sem pensar. Parabéns pelo trabalho.
    beijos!

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  4. que blog maravilhoso, que texto maravilhoso! arrasou :)

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  5. Confesso que fiquei triste quando descobri o projeto porque já era dia 28 :(
    *Colocando alarme pra lembrar daqui um ano*
    Eu tenho uma paixão enorme por contos que mostram o dia-a-dia real do autor, meu coração até pula mais forte. E que amorzinho seu pai <3

    Novembro Inconstante

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  6. Imagino o medo que deve ter ficado até chegar a sua casa.
    E toda aquela apreensão foi esquecida após encontrar seu pai né! ♥
    Beijos, Aline
    Verso Aleatório

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Wink .187 tons de frio.