Cordilheira dozinfernos

Cordilheira
Daniel Galera
Companhia das Letras
176 páginas
Ano de publicação: 2008 
Sobre o que é: Anita é uma guria mimada e pedante que escreveu um livro e, por motivos desconhecidos, fez sucesso como escritora muito cedo na vida, no início dos vinte anos. Ela namora esse cara, vive com ele e eles têm uma relação legalzinha e estável. Mas isso não é o suficiente pra Anita porque ela quer ser "apenas a mulher de um homem", cuidar da casa e parir um filho pra ser a mãe que nunca teve. O cara não quer isso naquele momento porque HELLO, E NOSSAS CARREIRAS, ACALMA ESSE ÚTERO, MULHER. Mas ela quer porque quer. Então termina com ele, vai pra Buenos Aires lançar a versão argentina de seu livro e decide ficar lá por tempo indeterminado pra ter o útero "esporreado" por um argentino qualquer. E é aí que começa a confusão.

Por que ele é bom? Não é bom. Ponto.
Mas vou ser justa e dizer que ao menos a escrita do Daniel People não é tão enfadonha assim e a leitura flui com facilidade. Não fosse isso teria jogado o livro pela janela do ônibus nas primeiras 10 páginas.

Por que ele é ruim? Senta que lá vem a história.
Pra início de conversa o livro é narrado em 1ª pessoa na voz de uma mulher - a dona Anita. Aí que o senhor Galera é homem. Tô dizendo que um homem escritor não pode escrever como se fosse uma mulher? Não. A arte é livre e não deve ter limites pra criatividade do artista. Mas tô dizendo que é sempre delicado quando um escritor escreve um romance em 1ª pessoa sendo a voz narradora a de uma mulher. Isso porque o cara tem que ser MUITO BOM pra conseguir escrever uma personagem feminina e, ainda mais, se colocar no lugar de uma mulher sem cair em clichês e misoginia velada.

Pois bem.
O senhor People queria escrever uma mulher porque, segundo ele, as mulheres modernas são tão mais interessantes do que os homens... Aí ele escreveu a mulher moderna: que quer apenas ser a mulher de um homem. Ter o útero esporreado por um argentino desconhecido. E parir uma criança. Tudo isso enquanto desfaz de suas amigas quando estão em crise depressiva. Legal, né?

~pavor define~
Não, nada legal.
O livro é um festival de misoginia e abuso. Eu literalmente segurei o vômito várias vezes durante a leitura. O que é impressionante, dado o fato de este ser um livro bem fininho, não chegando a 200 páginas.
Quando senti que ele estava prestes a gozar, tentei mantê-lo dentro de mim como vinha tentando fazer toda vez desde que tinha parado com a pílula, mas era sempre a mesma coisa, ou ele ignorava meus protestos e usava uma camisinha ou ele tirava para fora e gozava em cima de mim. Segurei sua bunda com toda a força, cravei as unhas, mas ele venceu de novo, o desgraçado escorregou para fora e gozou na minha barriga. Enquanto ele buscava um lenço de papel para me limpar, me imaginei recolhendo a porra com os dedos para finalizar o serviço sozinha. (pág. 18) 
Você conhece alguma mulher que tenha feito isso? Que tenha dado o golpe da barriga? Vilãs de novela mexicana não valem. Pois é, eu não conheço nenhuma. Mas Daniel Galera escreveu a mulher moderna, a mulher atual, a mulher independente: que existe apenas em sua mente.

Mas o livro não fica apenas nisso. Anita, de fato, vai pra Buenos Aires e lá conhece um fã de seu livro que é simplesmente obcecado por ela: José Holden, um cara misterioso e esquisito. Em menos de uma semana estão morando juntos e o cara a trata como se fosse apenas uma sucessão de buracos que servissem a seu prazer. Ela adora isso porque finalmente está, como ela mesma diz, encarnando a mulherzinha que há algum tempo fantasiava ser. Cozinha pra ele, limpa suas roupas, sua casa e cuida de seu cachorro. E à noite lhe serve com o corpo sem que grandes explicações tenham de ser dadas.

Um dia, ela conhece os amigos de Holden: um grupo muito caricato e estranho. Com eles descobre que Holden faz parte de um tipo de seita literária: todos eles são escritores que incorporaram seus personagens em suas vidas, chegando ao extremo de matar pessoas ou ao próprio suicídio para fazer jus à obra.

Aí cê pensa: a guria tá lá no meio de um monte de escritor maluco que VIVE a obra porque acha que essa é a forma mais real de ser um escritor: viver aquilo que se escreve, transpor as barreiras da ficção. Um belo dia, Holden pede pra que Anita o mate porque seu personagem morre no final do livro, imolado ao deus da literatura lá nas Cordilheiras. Se Anita fará isso ou não, não vou contar. Mas o fato é que: PERTURBAÇÕES. MUITAS. O livro é extremamente perturbado. E não, eu não julgo uma obra por ter personagens perturbados, mas todo esse desenvolvimento de ritual ao deus da literatura rola em apenas 70 páginas. As outras 100 são de pura misoginia e nojeira escrita, provavelmente, apenas para chocar.

É o antigo debate: até que ponto a literatura pode ir sendo apenas arte e não crítica ou mesmo parte do escritor? Galera, no livro, diz que:
A questão é que ninguém fica dois ou três anos escrevendo alguma coisa sem um propósito muito secreto e particular. Mesmo os livros ruins nascem de uma necessidade muito íntima. (p. 97) 
Não sei qual foi o propósito dele com esse livro, mas não quero acreditar que ele apenas quisesse retratar a mulher moderna como submissa, como uma pessoa que mais cedo ou mais tarde se dará conta de que o que necessita, na verdade, é de um filho, um marido e uma casa. Ser apenas e tão somente a mulher de um homem.

Se eu recomendo a leitura? NAAAAAAAAAAAO, pelamordadeusa, não! Mas, assim, se você quiser não serei eu a lhe impedir. Porém, pra mim isso não é um bom livro. Porque isso tem vários nomes: maternidade compulsória. Machismo. Patriarcado. Misoginia. Mansplaining. Mas não literatura.

Em um quote: 
Os argentinos se reproduzem por osmose, garantiam meus amigos que já tinham passado pela escruciante experiência de tentar seduzir uma argentina. Volta e meia eu trazia essa teoria à mente apenas para tentar afugentar a imagem que me perseguiu durante todo o voo para Buenos Aires, a de um homem meio narigudo, magro e atlético, com corte de cabelo estilo mullet, a barba por fazer, cheirando a cigarro, sussurrando cafajestadas em castelhano e despindo seu belo casaco de lã imitado de alguma grife nova-iorquina para então montar em cima de mim e meter com força até esporrear o colo do meu útero e então desaparecer da minha vida. 

16 comentários

  1. Oi Mia,
    Já ouvi muita genta falar bem do Daniel por causa de Barba Ensopada de Sangue, mas mesmo assim, tinha achado a sinopse meio viajante. Esse é o problema de alguns escritores nacionais, querem ser viajantes/filosóficos demais!
    Valeu pela dica de ficar longe de Cordilheira.
    Abraços,
    André, do Garotos Perdidos

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  2. Adorei a resenha e definitivamente odiei a indicação. Obrigado, passarei longe. Numa sociedade tão misógina e machista não precisamos de mais...nem na literatura.

    Abraço;

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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  3. Uau... Eu ouvi falar muito bem do autor e de repente me deparo com a sua resenha que me faz repensar em várias coisas, principalmente o fato desse livro ter sido publicado pela Cia.
    Quer dizer, o catálogo da editora é tão interessante - ainda mais no selo principal que não entra na minha cabeça que eles lançaram um livro assim tão ruim. Não estou dizendo que você está errada, a editora pode ter cometido um equívoco com esse livro, mas me parece que foi uma ideia boa (muito) mal aproveitada... Assim, deixa eu me explicar pois eu não li o livro e estou julgando pela sinopse e seus comentários...
    Me pareceu que o Daniel quis colocar a mulher atual sendo o que ela quiser ser. Se ela quer ser apenas uma mãe, dona de casa e todas essas coisas, ok se for ela a decidir. Eu acho que temos que parar de pensar que ser uma mulher moderna é ser contrária a tudo isso. Acho que a modernidade existe em poder fazer essa escolha por si mesma e não por uma imposição de valores da sociedade. Não serve para mim ser dona de casa nem nada desses esteriótipos, mas conheço algumas mulheres que querem sim ser isso - e por escolha própria.
    Dito isso, parece que ele não soube colocar essa questão na escrita e ficou parecendo completamente o oposto disso. Acho que muito piora pelo fato da narrativa ser em primeira pessoa... Colocar em terceira pessoa poderia ter melhorado um pouco, afinal o autor tem que ser muito bom para conseguir pensar como um personagem do sexo oposto sem ficar somente nos clichês. Na maioria dos romances as autoras femininas transformam os caras em muitos clichês ao contarem seu ponto de vista - eu não me importo pq adoro romance, adoro um cara dos sonhos, mas nesse caso acho que piorou e muito a questão do livro.
    Como disse, acho que foi uma ideia interessante mas que não soube ser usado nem o tom e nem a narrativa correta, o que acabou se tornando nesse desastre que me pareceu o livro.
    Beijinhos,
    Lica
    Amores e Livros

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  4. Gente que resenha é essa? Confesso que fiquei apaixonada demais, mas odiei o livro quem sabe não lerei mesmo.
    Beijinhos

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  5. Se você tivesse postado apenas esses trechos, Mia, eu já teria odiado o livro. hahaha
    Isso parece filme c do Nicolas Cage que nem eu [que adoro ver um filme ruim/do Nicolas Cage] veria. Muito por esses vários níveis de machismo como também pelo modo como ele escreve.

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  6. viiish, e eu sempre vejo as pessoas elogiando o trabalho do autor... :o tenso isso...
    de qualquer forma,apesar dos pontos negativos que você mencionou,gostaria de fazer essa leitura, mesmo prevendo que eu terei raiva com ela...
    bjs...

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  7. Olá, ainda não conhecia o livro e depois da sua resenha não quero lê-lo. Onde tá a mulher moderna que o autor quis mostrar aí, gente?!! Tive um sentimentozinho de vergonha alheia quando terminei a leitura da resenha.

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  8. Olá,
    Gente, fiquei chocada com o que podemos encontrar por aí!
    Adorei a resenha mais do que sincera e concordo com várias das críticas que fez acerca da obra. Como ele quis retratar a mulher moderna com esse comportamento da personagem?!?
    Sinceramente, não sei. Obrigado pelos alertas.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  9. Não é muito o tipo de leitura que eu estou procurando para mim no momento, mas o enredo não deixa de ser interessante.


    http://laoliphant.com.br/

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  10. Adorei sua resenha, soube passar tudo sobre o livro, e sinceramente com toda essa apresentação vou riscar o livro de minha lista.rs. Já tinha me interessado por ele, mas agora vendo melhor, é um livro que eu abandonaria logo.

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  11. Oii!

    Essa me parece a semana de indicações de livros para passar longe. Todos os outros que vi tem uma história bem parecida com esta, porém ainda foi escrito por mulher. Por exemplo, em um deles, a mulher chega a ser estuprada e acaba gostando. E eu me pergunto: como assim???

    Passarei longe!!

    Beijos

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  12. Nossa. Inclusive até baixei esse livro no meu Kindle esses dias pra trás. Mas depois dessa resenha fiquei meio embasbacada. Com certeza não vou ler!

    Obrigada! ♥

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  13. ECAAAAA! Acho que ele não tem muito contato com as mulheres modernas (ou até mesmo as não modernas).
    Esse é um livro que eu definitivamente não lerei, provavelmente irei joga-lo pela janela logo no primeiro capítulo.

    Beijos
    http://www.mundoinvertido.com/

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  14. Caraca, que plot de merda.

    Eu entendo que tem mulher que quer ser dona de casa e ter filhos. As mulheres podem querer isso. Não tem nada de errado nisso. Mas porra, falar que isso é uma mulher moderna? Ah, vá pr'aquele lugar.

    E esse livro me cheira a male tears, apenas. O cara mesmo fala que não se escreve um livro por nada, e ele queria mulheres submissas e blá blá blá. Pra mim é isso.

    Beijinhos.

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  15. Pior que conheço mulher que faz isso, especialmente 1, a moça em questão ten uma penca de filhos 1 de cada pai e vive de pensão, existe sim, mulher não é um ser angelical que nao comete maldades, tirem isso da cabeça, assim como homens, todos nós temos nossas peculiaridades e maldades dentro de si.

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  16. Geeeente, como assim? Que livro mais doido e COMPLETAMENTE PERTURBADO. Espero que eu nunca encontre ele por aí dando sopa, pois sairei correndo haha
    Beijos <3

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