Você já ouviu a palavra de Jodorowsky hoje?

Um ladrão, parecido com Jesus, sai pelo seu povoado, usando apenas uma tanga de panos amarrados, carregando um anão com deficiência física no colo e bebendo loucamente até que encontra o Alquimista, um homem que vive no alto de uma torre multicolorida e dá um pedaço de ouro todos os dias à população local através de um buraco. A partir disso, coisas muito loucas acontecem quando o Alquimista decide fazer do ladrão seu discípulo e lhe apresenta a seus outros seguidores: ladrões como ele, mas de outra espécie, empreendedores e políticos.

Esse poderia ser apenas um sonho surrealista produzido por algum estado alterado da consciência, mas se trata da obra-prima de Alejandro Jodorowsky: A Montanha Sagrada. Fruto de sua época, com suas milhares de cores berrantes e crítica social aguçada, o filme, produzido em 1973, é uma das experiências mais incríveis que alguém pode ter com o cinema.

Jodô é um cara chileno cheio de habilidades incomuns: mímico, cineasta, poeta, escritor de HQs, psicólogo com formação também em Filosofia e criador da Psicomagia, que mistura psicologia com conceitos de magia de várias vertentes, incluindo a bruxaria tradicional, a alquimia e a cabala.

A Montanha Sagrada, esse filme incrível escrito, dirigido e interpretado (no papel de Alquimista) por ele, não possui muitos diálogos: a ideia é nos contar uma história linear, com flashes em diversos personagens que estão em busca da imortalidade, para substituírem os deuses antigos (o capitalismo é um deles), que governam o mundo há muito tempo, e serem os novos deuses. Para tal, o Alquimista os leva à uma viagem até a Montanha Sagrada porque, de acordo com ele, em todas as religiões e mitologias sempre houve uma montanha considerada sagrada e é lá que o ser humano deve ir para se tornar imortal. Mas, durante o processo, cada um deve ser purificado e como se dá essa purificação é algo que você terá de ver para sentir a experiência catártica e onírica que isso traz.

"O que estou fazendo quando uso símbolos é despertar no seu inconsciente alguma reação. Estou ciente do que faço porque os símbolos podem ser perigosos. Quando usamos linguagem normal, nós podemos defender a nós mesmos, porque a nossa sociedade é uma sociedade linguística, uma sociedade semântica. Mas quando você começa a falar, não com palavras, mas só com imagens, as pessoas não conseguem se defender.  E é por isso que um filme como esse ou você ama, ou você odeia. Você não pode ficar indiferente." (JODOROWSKY, Alejandro)

.contexto da época 

Toda obra é produto de seu tempo, assim como nós, apesar de nos acharmos tão diferentes e avançados, somos produtos de nosso momento histórico. Filmes não são diferentes, e sempre que vejo um filme que me marca de alguma forma gosto de pesquisar a respeito do contexto histórico em qual ele nasceu.

A Montanha Sagrada nasceu da mente perturbadoramente genial de um cara chileno com muito conhecimento em coisas como psicologia, filosofia e magia. Reparem no detalhe: Jodô é chileno. E o que acontecia no Chile em 1973? Se instaurava a ditadura de Pinochet, que levou o presidente eleito Salvador Allende ao suicídio em setembro daquele ano. Fora isso, também há a morte de Neruda e a ascensão de Nixon ao poder em seu segundo mandato como presidente, nos EUA - que culminou no escândalo de Watergate, muito bem retratado em Todos os homens do presidente.

O que acontece é que Jodô pegou todos esses acontecimentos e os colocou no filme, fazendo uma baita crítica ao sistema capitalista, às ditaduras e mostrando como o abuso ao poder é forte numa América Latina empobrecida, cujo povo é manipulado pelas grandes indústrias e pelas próprias pessoas que deveriam garantir a segurança de todos.

Quantos filmes que abordam essas questões tão doloridas na América Latina vocês conhecem? Eu não conheço muitos. Só por isso esse valeria a pena, porque Jodorowsky nos faz não apenas refletir através de diálogos de personagens falando sobre como a vida é difícil pras pessoas pobres e como os ricos nos manipulam loucamente, fazendo com que pensemos que temos o poder de decisão, sendo que são eles quem nos dão as opções que lhes beneficiam. Mas essa obra maravilhosa não fica só nisso, e é justamente por esse fato que ele é um dos meus filmes preferidos da vida.

.psicomágico 

Além de tudo o que já foi dito, há ainda um aspecto importantíssimo que permeia tudo o que Jodorowsky faz e está especialmente presente em A Montanha Sagrada: a Psicomagia.

É bem conhecido que a busca pela sabedoria sempre passou por rituais de passagem e simbolismo, e Jodô nos escancara isso sem muitas explicações durante a 1h20min do filme. São quadros com representações místicas, vestes sacerdotais do Alquimista e de seu aprendiz, variando nas cores conforme o grau de aprendizado/purificação.

Cada seguidor e aspirante a novo deus é o arquétipo personificado de um planeta e suas características condizem com o que fala a astrologia:
a. Marte: chefe de segurança que treina seus subordinados a matar a população pobre;
b. Vênus: dono de uma indústria de moda e polígamo;
c. Saturno: dona de uma indústria armamentista que se disfarça de fábrica de brinquedos e estimula as crianças à violência e as condiciona a serem os futuros soldados de guerras.
d. Júpiter: tem uma fábrica de arte e vive uma vida completamente desregrada, destinada ao luxo e aos prazeres.
e. Urano: consultor econômico do governo cuja solução é exterminar parte da população por fome, guerras ou doenças desconhecidas espalhadas pelo ar.

Mesmo que este não seja o tipo de filme que você está acostumado a ver - acho que não é o tipo de ninguém, na verdade -, dê uma chance. Pode ser que te choque, mas a ideia é essa. É aquele filme que todos têm de ver ao menos uma vez na vida.

.recadinho motivacional do Jodô pra você 


 

“Até agora nesse filme, eu estive em três locações e fui expulso de todas. [...] Você não pode dizer que odeia o México. Não é o México. É o planeta. Não existem países. Isso é uma ideia. Não há culturas. Isso é uma ideia. Toda cultura é a continuação de outra. Há tantos conceitos que devemos mudar. Quando aquele Marco disse pra mim: ‘Eu vou te matar', eu disse ‘Okay, me mate, mas eu vou matar você’. E ele ficou com medo, porque eu realmente quero matá-lo, quebrar todos seus ossos, milímetro por milímetro – não os ossos do corpo, os ossos da mente. Precisamos matar algum espaço mental. Precisamos matar para sobreviver, destruir mentes. Quando eu digo ‘destruir’, digo abrir. Devemos abrir espaço para uma nova vida. Sempre estou tendo cenas de morte e sempre estou colocando nova vida em lugares mortos e coisas mortas. Não sei por quê. Talvez eu seja um profeta. Eu realmente espero que um dia venham Confúcio, Mohammed, Buda e o Cristo para me ver. E então sentaremos a uma mesa, tomando chá e comendo alguns brownies, que tal? E terei um dia bom.” (JODOROWSKY, Alejandro)

Este post faz parte da Blogagem Coletiva Relâmpago, do grupo Café com Blog, cujo tema é: filmes/séries/documentários - achados que o mundo precisa saber. Os blogs participantes são Fala Tef, Deixa Combinado, Lugar Nenhum e Profano Feminino.  

13 comentários

  1. Nossa, que filme maluco, mas realmente, é interessantíssimo ver a maneira como a crítica social foi feita. É o tipo de filme que cada detalhe conta.
    Beijos
    Mari
    www.pequenosretalhos.com

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  2. Oii Mia!
    Apesar de eu curtir muito e adorar o tempo antigo, costumes e como eram, me da um grande prazer aprender mais sobre isso. Infelizmente esse filme não chamou minha atenção, porém achei interessante, vou tentar procurar por ele.
    Abraços;**
    http://FebredeLivro

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  3. Desconhecia completamente esse filme e seu criador e realmente não faz nem um pouco o tipo de filme que costumo e gosto de assistir, mas com certeza quero dar uma chance a ele. Seu post foi bem completo pra instigar o leitor a assisti-lo <3

    Beijos
    https://monautrecote.blogspot.com.br/

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  4. Olá, tudo bem?
    Nossa que filme estranho kkkkk
    não conhecia e sinceramente não me chamou a atenção. Mas para quem curte certamente será uma super dica.
    Beijos

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  5. oi,Mia. Conheço Jodorowsky mas ainda não assisti esse dele... tá na minha lista de filmes, inclusive... achei interessante a maneira como ele aborda as questões da América Latina, a crítica social presente na película...

    bjs...

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  6. Que doidera rsrs
    Nunca ouvi falar, confesso que não faz meu estilo, mas como você disse provavelmente não é o estilo de ninguém. Rs

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  7. Olá,
    Achei a premissa do filme bem intrigante e também desconcertante rsrs
    Nunca tinha ouvido falar, mas gostei da forma como é realizada a crítica social de uma forma bem original e inusitada.
    E confesso que fiquei refletindo sobre o recadinho motivacional do Jodô rsrs

    LEITURA DESCONTROLADA

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  8. Oi!
    Vou confessar, achei esse filme muito estranho e sendo sincera, ele não chamou muito minha atenção. Eu gostei bastante do seu post, está bem escrito e detalhado. Mas não sei se daria uma chance ao filme.

    Bjs!

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  9. Oie
    amei a parte que vc falou sobre o contexto histórico e como é diferente os assuntos abordados em casa época, muito legal seu texto

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  10. Nunca tinha ouvindo falar deste filme, apesar de não fazer muito meu estilo. Achei válido dar uma chance, pela parte de toda a história e crítica que ele aborda.

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  11. Já tinha esbarrado com o trabalho do Jodorowsky nas hqs, até sabia que ele fazia filmes, mas nunca tinha me aprofundado à respeito.
    Achei a ideia do filme incrível e sua resenha simplesmente maravilhosa. Adorei a forma como você fez a contextualização histórica.
    Gosto muito de magia, mas tenho preguiça com a Aquimia. Devo assistir mesmo assim.

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  12. Não conhecia e não tinha assistido. Interessante a parte histórica e crítica. Beijos e sucesso!

    Carolina Gama

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  13. Oi Mia, sua linda, tudo bem?
    Confesso que o filme não faz o meu gênero. Entretanto, não posso negar a importância das críticas que ele levanta e achei bem criativa a forma como ele o fez.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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